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Julie Neff canta a superação com voz doce e potente

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Julie Neff canta a superação com voz doce e potente Foto: Lindsay Duncan/Divulgação

A cantautora canadense Julie Neff já morou na Espanha, passou por Dinamarca, Suécia, Argentina, Chile, México, Portugal, França e ensaiou uma residência em São Paulo, que teve que ser cancelada por causa da pandemia da Covid-19. As memórias dessas perambulações mundo afora alimentam as seis canções do novo EP da artista, chamado Over It, lançado nesta quarta-feira (27/1) – dia em que Julie completou 33 anos.

Ouça o EP aqui.

Sucessor de Carthasis (2018), Over It foi gravado no Canadá em 2019 e conta com a participação do rapper ugandês 3-Card, que vive em Toronto. A capa do EP é assinada pela dupla brasileira Larissa Lisboa e Mayra Soares, da SoLi Girls.

Capa. Reprodução

Ao longo das seis canções do novo trabalho, a cantora e compositora transita por temas que têm como foco refletir sobre a força necessária para superar limites pessoais e situações enfrentada comumente pelas mulheres – como relações tóxicas, machismo e desigualdade de gênero. Com uma voz doce mas potente – que lembra os timbres de cantoras como Feist e Stevie Nicks –, Julie mistura ao longo do disco rock, pop e blues com notas de R&B.

A artista também é cofundadora do Eclectic Comfort, um coletivo de audiovisual que até 2019 registrou diversas performances de músicos em seu canal. Por lá passaram alguns nomes da nova música pop brasileira em visita ao Canadá, como Scalene, Far From Alaska e Trampa. Em seu perfil no Instagram, Julie promove ainda a Neff Said Series, uma série de conversas com 90% do foco voltado para artistas mulheres.

Julie esteve no Brasil pela primeira vez em 2018, quando se apresentou no Festival COMA, depois de ter feito contato com o Scalene no Indie Week, em 2017. Em 2019, ela retornou ao país para se apresentar em uma das noites da SIM São Paulo que levou o nome do seu coletivo: Noite Eclectic Comfort Apresenta: Poder Feminino e contou com a apresentação da também canadense AIZA, além de uma participação com o Far From Alaska.

A conexão foi tanta que em fevereiro de 2020 Julie voltou ao país para fixar residência, o que acabou sendo adiado devido à pandemia. “Eu realmente gostei muito do período que estive no Brasil, me senti bastante confortável. Fiquei grata por poder realizar mais alguns shows e conhecer as pessoas de uma forma mais profunda. Valorizo muito as amizades que fiz aí e foi muito difícil para mim sair”, disse a canadense.

Na entrevista exclusiva a seguir, que fez questão de responder em português, Julie Neff conta como foi a gravação de Over It, comenta suas influências, celebra a paixão pelo Brasil e nossa música (“Existem tantas camadas ricas de textura, ritmo, tons vocais etc. que se juntam para criar a bela tapeçaria que é a música brasileira”) e aponta como a indústria cultural ainda é muito hostil e abusiva com as mulheres: “Eu tive algumas experiências em ambientes de trabalho que foram completamente inadequadas e me lembram que ainda tenho que cuidar de mim mesma, que ainda não estou segura aqui. Portanto, a intenção com essas músicas é realmente continuar a dialogar – sobre consentimento, sobre igualdade de gênero – e tentar aprender juntos como construir uma sociedade mais justa para todos”.

Foto: Lindsay Duncan/Divulgação

Como suas vivências em outros países, em particular no Brasil, influenciam a sua música?

Acho que todas as experiências na vida influenciam o meu processo criativo. Em particular, viajar e aprender outros idiomas realmente abre a mente e me inspira a criar. Minha inspiração vem tanto do visual quanto do sonoro, da musicalidade em tudo que vejo e escuto ao meu redor. Muitas das minhas melhores melodias vêm quando estou em movimento, e poder explorar outros países, com paisagens diversas e cidades bem interessantes, tem realmente me mantido em um movimento criativo. No Brasil tem tantas coisas para explorar. As pessoas são tão maravilhosas e calorosas. As cidades são tão únicas na arquitetura, sempre incorporando elementos naturais muito lindos. E o idioma é uma loucura! Tão rico foneticamente – e bem desafiador. Tenho certeza de que isso influenciou minha música, mas ainda estou descobrindo como! Além de tudo isso, não vai ser surpresa nenhuma pra você e seus leitores o que vou dizer, mas a cena musical no Brasil é inacreditável. A musicalidade é incomparável e realmente me leva a melhorar as minhas habilidades. Existem tantas camadas ricas de textura, ritmo, tons vocais etc. que se juntam para criar a bela tapeçaria que é a música brasileira. Nesse EP, eu consegui incorporar uma pitada de brasilidade na música Over It, que para mim realmente representa essa leveza em movimento que os brasileiros parecem ter mesmo em tempos difíceis. Sempre vai ter um momento para dançar ou cantar ou abrir um sorriso. 😉

Como foi o processo de gravação de Over It?

Para o EP, eu tinha feito uma quantidade considerável de pré-produção, tocando as músicas ao vivo numa residência artística no verão de 2019 e tendo pequenas reuniões na minha casa com amigos de confiança para trocar ideias. Eu reuni uma banda com músicos muito talentosos que achei que poderiam trazer algo único para a mesa. O meu estilo é muito colaborativo, e eu gosto de comunicar o que quero sentir num momento específico da música e ver o que acontece organicamente numa sessão. Depois de alguns ensaios, tivemos um dia de gravação com a banda inteira, e conseguimos a maioria dos elementos que precisávamos, adicionando a guitarra solo e os vocais numa data posterior. Então eu gravei uma faixa acústica com piano num dia diferente também. No fim, tudo funcionou muito bem. Eu particularmente gostei de gravar os backing vocals, acrescentando muita textura e personalidade às músicas.

Escutando o EP, lembramos de cantoras como Feist, Stevie Nicks, Florence Welch e Lana Del Rey. Quais são suas influências musicais?

Você acertou em cheio! Florence, Feist e Stevie são todas influências muito grandes para mim. Eu também fui influenciada muito cedo por Nina Simone, e mais recentemente outras artistas incríveis como Daughter, Kimbra, Lianne La Havas, Kings of Leon e Ben Howard. E durante a minha descoberta da música brasileira, descobri muitos outros artistas incríveis que adoro cantar junto, como TUYO, Xênia França, Aguaceiro, Ellefante, Jota. Pê e Bruna Black.

Em faixas como Those Dreams e What Am I Doing This For?, você explícita temas como possessividade masculina, machismo e desigualdade de gênero. Como você vê a condição da mulher em geral na sociedade de hoje, em especial na música e na indústria cultural?

Acho que é difícil generalizar, especialmente falando de países diferentes, com problemas em níveis diferentes, mas acho que o mais importante é ter consciência de que ainda não chegamos lá. Em lugar nenhum. Houve alguns avanços incríveis para as mulheres, mas me vi assistindo ao filme 9 to 5 (Como Eliminar Seu Chefe, no Brasil), que fala sobre a desigualdade de gênero no local de trabalho, e pensando “ainda estamos lidando com muitas dessas coisas”, e esse filme foi feito em 1980 – 40 anos atrás! Existem as questões óbvias da violência contínua contra as mulheres, é claro, mas também existem as questões mais sutis das quais falo nessas canções. Acho que na música e na cultura ainda existem muitos homens que são os guardiões da indústria, e você precisa agradá-los para conseguir entrar. Eu tive algumas experiências em ambientes de trabalho que foram completamente inadequadas e me lembram que ainda tenho que cuidar de mim mesma, que ainda não estou segura aqui. Portanto, a intenção com essas músicas é realmente continuar a dialogar – sobre consentimento, sobre igualdade de gênero – e tentar aprender juntos como construir uma sociedade mais justa para todos.

Qual é o significado de lançar esse trabalho no dia do seu aniversário?

Três anos atrás, antes de lançar qualquer música minha, comemorei meu 30º aniversário promovendo uma pequena reunião na minha casa e tocando o que viria a ser meu primeiro EP. Foi um amadurecimento para mim, em que realmente decidi mergulhar na música e ir atrás exatamente do que queria. Lançar esse EP no meu aniversário neste ano é um lembrete dessa promessa para mim mesma. O maior presente que posso dar a mim mesma é continuar perseguindo aquilo pelo qual sou apaixonada. 🙂

Como você analisa o atual cenário para os músicos com essa pandemia do novo coronavírus, que, entre outras consequências, suspendeu temporariamente os shows presenciais ao vivo?

Acho que isso tem sido incrivelmente difícil para tantos músicos de carreira – especialmente aqueles que tinham uma renda significativa com shows ao vivo. Conheço muitos artistas independentes, inclusive eu, que levam “vidas duplas” trabalhando também em outros setores, e isso tem ajudado a sustentar as coisas financeiramente. Mas acho que muito do que estou vendo, e espero, é que as pessoas encontrem maneiras novas e mais criativas de se conectar com a música e seus fãs. Também estou vendo pessoas dando uma pausa talvez muito necessária nos shows ao vivo, devido à pressão de estar sempre fora e fazer coisas, o que pode impactar na criatividade. Mas não há dúvidas de que temos um caminho difícil pela frente. Eu sei que será uma reunião alegre quando pudermos fazer shows novamente!

Você ainda quer morar por algum tempo no Brasil? Por quê?

Eu quero! Honestamente, existe uma centelha criativa incrível que tive com pessoas no Brasil e quero honrá-la. Meu tempo aí foi encurtado por causa da pandemia, e ainda tem muitas coisas que quero fazer e ver. Além disso, ainda preciso aperfeiçoar meu português. 😉

Assista ao clipe de Pick Up My Pieces:

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