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Bloco Não Mexe Comigo que Eu Não Ando Só volta a brincar

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Bloco Não Mexe Comigo que Eu Não Ando Só volta a brincar Foto: Sofia Cortese

O bloco de Carnaval Não Mexe Comigo que Eu Não Ando Só sobe ao palco do Opinião nesta quinta-feira (14/7), à meia-noite, encerrando os shows que começam às 22h com a cantora Fernanda Agah e o lançamento do álbum Será Só aos Ares, da banda paranaense Mulamba. Formado exclusivamente por mulheres, o Não Mexe… contará com 60 integrantes na retomada de suas apresentações após mais de dois anos de pandemia.

A história do coletivo começa em fevereiro de 2016 com um grupo de Facebook. A iniciativa buscava reunir mulheres atuantes nos blocos da cidade e interessadas em tocar instrumentos. Em pouco tempo, o grupo online já contava com centenas de participantes. Dias depois, eram realizados os primeiros ensaios no Largo Zumbi dos Palmares, em Porto Alegre.

O nome do grupo surgiu numa situação emblemática – e lamentavelmente literal – das pautas defendidas pelo coletivo. Após um dos encontros, algumas das integrantes foram perseguidas por homens na Cidade Baixa. Enquanto escapavam da ameaça, elas entoaram os versos de Carta de Amor, imortalizados na voz de Maria Bethânia. Nas trocas seguintes entre as integrantes do Não Mexe Comigo que Eu Não Ando Só, o relato da reação poética serviu de inspiração para cunhar o nome do coletivo, que desde então reúne dezenas de performers, cantoras e instrumentistas. A primeira saída pelas ruas de Porto Alegre aconteceu em março de 2017.

Foto: Joana Berwanger

Pouco a pouco, o bloco foi construindo sua identidade como coletivo feminista que proporciona socialização, aprendizado e acolhimento, celebra a cultura do Carnaval e a ocupação dos espaços públicos, defende pautas relacionadas ao protagonismo feminino e combate diferentes tipos de violência e discriminação. A consciência política se faz presente não só nas apresentações do bloco, mas também na participação do Não Mexe… em marchas e manifestações. Outra característica é a horizontalidade na tomada de decisões a partir de debates em grupos de trabalho (GTs) e assembleias.

No começo de 2018, a jornalista Laura Franco, 24 anos, ingressou no coletivo. “Estava fragilizada, encerrando uma relação abusiva. As gurias fizeram uma grande roda, que virou um caracol. Como eu estava no meio, fui abraçada por todas. Isso é uma das coisas que me motiva: estar com essas mulheres e compartilhar o desejo de tocar e estar junto na rua. Desde que entrei no bloco, não penso em sair”, relembra Franco, que toca tamborim no Não Mexe… e integra o GT de Comunicação do coletivo.

A jornalista destaca o papel do coletivo no incentivo à autonomia das mulheres para ocuparem mais espaços: “Havia um desconforto. Víamos mulheres só nos instrumentos leves e sem estar à frente como regentes. Hoje, em Porto Alegre, os blocos contam com mulheres em toda parte. Não temos dados sobre a participação feminina nos blocos da cidade, mas é visível o legado do Não Mexe…”.

Para além do envolvimento das integrantes com a música e a cena dos blocos de rua, o coletivo toca subjetividades e encoraja experiências no espaço urbano. “Já ouvimos várias histórias de mulheres que se sentem mais à vontade e seguras nas saídas do Não Mexe…, trocando olhares, dançando e cantando com a gente”, conta Franco.

“As minas chegam no bloco porque estavam passando pela Redenção e ouviram de longe o ensaio, então percebem que são só mulheres, incluindo a regência. Famílias levam filhas pequenas, como uma experiência de ‘tu pode tocar um instrumento quando crescer’. O Não Mexe… nem precisa dizer muito pra dizer tanto”, completa.

A designer Bruna Anele, 27 anos, também ingressou no bloco em 2018. Não tocava nenhum instrumento, mas a partir dos encontros do coletivo aproximou-se do xequerê. “Não sei se já tinha imaginado tocar um instrumento para o público. É muito legal essa oportunidade de estar segura, aprendendo com pessoas atentas a delicadezas e complexidades que precisamos compreender em um coletivo feminista e inclusivo”.

Anele aproveitou o envolvimento com o bloco para dar os primeiros passos na área da produção cultural e hoje é produtora do Não Mexe… Em 2019, graduou-se no curso de Design Visual da UFRGS com o trabalho de conclusão “Carnaval e design social: a territorialidade enquanto formação identitária de um coletivo feminista porto-alegrense”.

Na pesquisa, Anele situa a experiência do Não Mexe… no contexto nacional: “Este bloco porto-alegrense faz parte de um movimento nacional de protagonismo feminino no Carnaval, iniciado no Nordeste, com o Bloco Didá (1995) e o bloco A Mulherada (2001), ambos oriundos de Salvador. Desde então, a quantidade de grupos carnavalescos liderados por mulheres aumenta de forma expressiva, principalmente a partir de 2005, e chega em 2019 com um total de 57 blocos espalhados pelo país”.

Foto: Joana Berwanger

Ao longo dos anos, o coletivo construiu diálogos entre o Carnaval de rua e as escolas de samba da cidade. Em 2019 e 2020, integrantes do Não Mexe… compuseram uma ala no desfile da Imperadores da Samba – cuja quadra, na avenida Padre Cacique, acolheu ensaios do bloco antes da pandemia. “Sabemos que o Carnaval existe há muito tempo e não é o nosso berço. Fazemos parte de um movimento muito maior e relevante para a cultura popular da cidade, e o bloco nos leva a esses lugares”, observa Anele, destacando ainda as sedes da Academia Samba Puro, do Centro Cultural da Lomba do Pinheiro e do Afrosul Odomodê, que também já acolheram ensaios do Não Mexe…

Performance do naipe Terror. Foto: Joana Berwanger

O bloco tem atualmente naipes de percussão – agogô, caixa, repique, rocar, surdo, tamborim e xequerê –, sopro – flauta, trombone e trompete –, cordas – baixo, cavaco, guitarra e violão –, vozes e ainda o Terror – com integrantes que realizam coreografias e intervenções, usando o corpo como instrumento. O nome deste naipe surgiu quando uma integrante do coletivo, ao ser perguntada sobre o instrumento que tocava, disse que “tocava o terror”. “O Terror é o coração do bloco, se conecta com o público enquanto estamos cantando e traz reflexões – dados sobre feminicídio, por exemplo – a partir do repertório”, explica Franco.

“Sabemos que não podemos ficar só na malandragem. O Carnaval também é político. Pelo bloco ser como é, não teria como ser diferente”, completa Anele.

Voltando a se encontrar

Ao longo dos períodos mais críticos da pandemia, o Não Mexe… suspendeu os encontros presenciais. Exceções foram abertas nas manifestações contrárias à atuação do governo federal na crise sanitária. Nesse período, o bloco integrou mobilizações vinculadas ao coletivo nacional CRUA – Carnavais de Rua em Ação.

No começo de 2022, a variante ômicron frustrou o desejo de uma saída do bloco no verão. Em abril, o Não Mexe… foi convidado pelo grupo Mulamba para fechar o show do dia 14 de julho no Opinião. A oportunidade serviu de catalisador para a retomada dos encontros semanais do coletivo, que voltou a se reunir em maio.

No dia 2 de julho, um ensaio aberto na avenida Osvaldo Aranha, em frente ao Auditório Araújo Vianna, reconectou o bloco com as ruas. Nas próximas semanas, o coletivo reorganiza sua formação e começa a planejar as próximas apresentações e a saída do bloco no Carnaval de 2023. 

Shows de Fernanda Agah, Mulamba e Não Mexe Comigo que Eu Não Ando Só
Onde: Opinião
Quando: 14 de julho de 2022
Horário: 22h
Endereço: rua José do Patrocínio, 834 – Cidade Baixa – Porto Alegre
Ingressos à venda no Sympla

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