Fotografia, Música, Reportagens

Piazzolla pelas lentes de Felizardo

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Piazzolla pelas lentes de Felizardo Astor Piazzolla e músicos de seu Noneto. Foto: Luiz Carlos Felizardo/Divulgação

Em 1971, o acaso reuniu dois mestres em Buenos Aires: um em gestação, outro já em pleno desenvolvimento. Na capital portenha, o brasileiro Luiz Carlos Felizardo teve a ventura de conhecer pessoalmente o argentino Astor Piazzolla (1921 – 1992). Mais: o jovem fotógrafo iniciante foi convidado para uma charla na casa do revolucionário idealizador do nuevo tango e depois autorizado a registrar um ensaio do maestro com seu mítico Conjunto 9.

Esse encontro já tem 50 anos, no dia 11 de março comemorou-se o centenário de nascimento de Piazzolla. Por conta dessa dupla efeméride, Felizardo recuperou um precioso texto que publicou em fevereiro de 2010 em seu livro Imago. No relato, o fotógrafo relembra como descobriu a música de Piazzolla e a felicidade de topar com o violoncelista José Bragato em uma loja de discos portenha e acabar no apartamento de Piazzolla.

De inhapa, ainda publicamos meia dúzia de imagens clicadas pelo porto-alegrense no ensaio do bandoneonista com seu Noneto. Aos 21 anos, Feliz já mostrava a sensibilidade e a técnica que viriam em seguida consagrá-lo como um dos maiores fotógrafos brasileiros da atualidade e um artista imbatível do preto e branco.

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Astor Piazzolla. Foto: Luiz Carlos Felizardo/Divulgação

Luiz Carlos Felizardo

Acho que corria o ano de 1966. Através de um amigo que viajava com frequência à fronteira com a Argentina conheci a música de Astor Piazzolla.

Numa ida até lá, comprei o único disco disponível, 20 Años de Vanguardia con sus Conjuntos, que passei a ouvir com uma insistência que beirava o exagero. Exagero ou não, começava ali, bem antes que Piazzolla fosse conhecido do resto do Brasil, uma paixão que ainda perdura, que me fez tentar reproduzir passagens da guitarra maravilhosa de López Ruiz e acompanhou meu início na fotografia e nas noites de laboratório improvisado com cobertor na janela.

A fronteira me alimentava de discos e informações. Quando fui a Buenos Aires em 1971, sabia (eu imaginava) quase tudo sobre a música dele, as gravações, sobre a evolução de seus conjuntos. Também tinha começado a encarar a fotografia seriamente, e foi nessa viagem que fiz as primeiras fotografias que considero razoáveis, a imagem de um corredor do Royal Hotel e as fotografias… de um ensaio do conjunto do Piazzolla no Teatro San Martín. Bem perto do local que, 15 anos mais tarde, receberia uma exposição de minhas fotografias, suponho que bem melhoradas.

Como foi que acabei no ensaio? Eu tinha ido até a Casa Piscitelli, na Calle San Martín, uma excelente e tradicional loja de discos. Já tinha olhado um bom número de “piazzollas” quando entraram dois músicos, um violinista e um violoncelista, e passaram à sala dos fundos. Fiquei pensando que o homem do violoncelo me parecia familiar até que, na contracapa do disco então mais recente do Piazzolla, vi a fotografia do sujeito. Chamava-se José Bragato.

Fiz o que me pareceu natural aos 21 anos, fui até ele e perguntei se era mesmo José Bragato. Violoncelistas não costumam ser populares como jogadores de futebol; é claro que o sujeito ficou surpreso, quase entusiasmado, ao ser reconhecido. Expliquei o mais e melhor que pude – tê-lo reconhecido pelo disco, a admiração pela música que eles faziam com o Piazzolla, como e quando a tinha conhecido.

Bragato, muito simpático, disse que eles estavam justamente para viajar ao Brasil, que ao “Maestro” interessava muito a música brasileira, que ele era uma pessoa alegre e muito simples e que “se quedará encantado con un joven brasileño que conoce tan bién a su música”. Aqui está seu telefone, estará em casa mais tarde, não deixe de ligar.

Meio zonzo, peguei os discos que tinha separado, não lembro do que fiz o resto do dia, e à noitinha, do hotel, voltei a fazer o que os meus 21 mandavam: telefonei.

Ele mesmo atendeu, comecei a explicar quem era, ele me interrompeu dizendo que Bragato já tinha ligado contando do nosso encontro na Casa Piscitelli. Perguntou o que eu ia fazer à noite, claro que eu não ia fazer nada, disse que fosse conversar e tomar um café em sua casa (um apartamento na Libertadores onde viviam ele e Amelita Baltar).

Fomos, o Portugal (Augusto, amigo já antigo e companheiro de viagem) e eu.

Alegre como Bragato o descrevera, Piazzolla nos recebeu. Quis saber da música brasileira, se já e quanto o conheciam por aqui, os discos que eu tinha comprado. Ao saber de um de Los Chalchaleros, disse “bueno, hay enfermedades peores”. E Amelita completou: son “criollitos”.

Ela fez café, comentamos algumas de suas gravações, ouvimos música. Logo após nos dispensar com gentileza, dizendo que estava na hora de trabalhar em seus arranjos, Piazzolla disse que tinham um ensaio do Conjunto 9 marcado para dali a dois dias e nos convidou.

Claro, eu podia fotografar quanto quisesse. Parece pouco, mas foi muito.

Em 1971, Astor Piazzolla, o mesmo que eu visitei, já tinha alcançado seu nível mais alto, já era um grande músico universal, mesmo que o sucesso avassalador que ele alcançou tenha vindo depois. Já era o autor de Adiós Nonino, Lo que Vendrá e Balada para un Loco, de María de Buenos Aires e Concierto para Quinteto, já tinha trabalhado em El Tango com Jorge Luis Borges e escrito a belíssima Tristeza de un Doble A. Eu? Cá entre nós, não era nada, pelo menos nada pronto. Apenas meio músico, e um projeto de fotógrafo.

Ou seja, minha euforia era natural. Mas só ela: o acaso que me conduziu até Piazzolla, ir a sua casa, ter a oportunidade de ouvir um ensaio do Noneto – e fotografá-lo – era mais ou menos como passar a tarde com Villa-Lobos.

Astor Piazzolla nasceu em Mar del Plata em 1923. Menino, foi morar em Nova York, onde conheceu Carlos Gardel e teve um pequeno papel num de seus filmes. Ao crescer, de volta a Buenos Aires, tocou bandoneón e fez arranjos para várias orquestras de tango. Estudou com Hermann Scherchen, Alberto Ginastera em Buenos Aires, Nadia Boulanger em Paris — formação que faria dele um tanguero diferenciado, com importantes influências da chamada música erudita e do jazz.

Grande instrumentista, foi bandoneonista (e arranjador) da famosíssima orquestra do também famosíssimo Aníbal Troilo. A partir dos anos 1960, trabalhou especialmente com os grupos pequenos que viriam a marcar a história da música contemporânea, o Octeto, o Quinteto e o Noneto, reunindo sempre músicos notáveis, como seu ídolo Elvino Vardaro, Antonio Agri, José Bragato, Oscar López Ruiz, Hector Console e el inamovible Kicho Díaz.

O pianista Oscar López Ruiz. Foto: Luiz Carlos Felizardo/Divulgação

Além da música contemporânea de Buenos Aires (o novo tango), compôs músicas para filmes, suas composições foram coreografadas, músicos famosos gravaram sua obra, compôs com Jorge Luis Borges, livros foram publicados sobre ele. Participou de importantes festivais de jazz, o público europeu o reverencia como criador de primeira linha. É claro, também teve seus percalços: suas declarações políticas, por exemplo, foram quase sempre duvidosas. Mas a qualidade incontestável de sua música supera tudo. E tenho a convicção de que o que ele fez de melhor é do tempo em que fui fotografar e assistir ao ensaio do Noneto.

Quando chegamos no ensaio, os músicos já estavam “se aquecendo”. Menos o mais velho, Kicho, que chegou atrasado. Segundo os colegas, porque tinha, Kicho Díaz enfim, comprado um carro – que dirigia pessimamente.

Eu fotografava com uma câmera que logo seria superada, se é que já não estava, transportada numa bolsa de couro meio hippie. Comecei a fotografar, com o apetite que me davam a juventude e a excitação da oportunidade de ouvir e ver, na intimidade de um ensaio, um grupo notável de ídolos musicais, coordenado pelo maior deles, o próprio Piazzolla:

“Es argentino, y se le nota. Tiene 47 años; no es muy alto, no es delgado, no viste mal. (…) Para los que éramos adolescentes en la época de Frondizi y crecimos entre golpes militares, televisión surgiente y nuevo cine argentino, la figura de Astor Piazzolla también fue un símbolo para aceptar la adolecencia. (…) Entonces, él fue el descubrimiento, y más, fue conocer una música de Buenos Aires que escapaba al chan-chan, que era triste y dolorosa, que servía de buen fondo a cualquier poema, que ayudaba ingenuamente a enfrentar el ‘mundo’ de papá y mamá. A través de los años, por verlo en boliches, por oír comentarios, imaginé a Piazzolla poco asequible, poco cordial, emarañado y solo. Y ahora resulta que no es más que esto: un señor de cuarenta y siete años, de manso pelo gris, ropa linda y una sonrisa igual a la de un pibe después de haber hecho algún desastre”.

Alberto Speratti, Con Piazzolla, Editorial Galerna, 1969

Astor Piazzolla e o violinista Antonio Agri. Foto: Luiz Carlos Felizardo/Divulgação

A descrição de Speratti é rica e precisa. Só falta acrescentar os dedos tortos das duas mãos, aparente resultado do exercício do bandoneón, o que fazia com que as mãos assumissem um encaixe perfeito nos quadris largos, uma posição que assumia nos poucos momentos em que abandonava a agitação constante.

Talvez, além da sonoridade maravilhosa, o que mais tenha chamado nossa atenção foi a disciplina mantida no ensaio. O grupo de músicos, ainda que bem humorado, mantinha um nível de concentração e de atenção às partituras distribuídas que fazia daquele encontro o ensaio de um grupo notável de música de câmera.

Como eu disse no começo, minha admiração profunda pela música deles (ele e os músicos de seus grupos, nunca se pode menosprezar a importância de todos eles*) está ainda bem viva. Boa parte deles, ao contrário, já morreu: o próprio Piazzolla, seu grande amigo Baralis, Agri, Kicho, o pianista Manzi. Outros, como López Ruiz e Bragato (com 94 anos) seguem por aqui (Bragato morreria em 2017). E permanece a influência decisiva que sua música exerceu na música argentina e de todo o mundo (creio eu), fazendo com que existam, bem claramente divididos, um antes e um depois de Piazzolla.

* O Noneto de Astor Piazzola, também chamado de Conjunto 9, um de seus grupos mais conceituados, foi composto por ele próprio no bandoneón, Osvaldo Manzi, piano, Antonio Agri e Hugo Baralis, violinos, Nestor Panik, viola, José Bragato, violoncelo, Kicho Díaz, contrabaixo, Oscar López Ruiz, guitarra elétrica, e José Correale, percussão.

O violonista Hugo Baralis. Foto: Luiz Carlos Felizardo/Divulgação

Astor Piazzolla. Foto: Luiz Carlos Felizardo/Divulgação
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