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Sementes da Retomada: coral Araí Ovy encontra La Digna Rabia

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Sementes da Retomada: coral Araí Ovy encontra La Digna Rabia Integrantes do coral Araí Ovy. Foto: Marcelo Curia/Terramar

Desde os primeiros contatos em 2017 com os indígenas da Retomada Mbya-Guarani Tekoa Ka’aguy Porã (Mata Sagrada), localizada em Maquiné (RS), os integrantes do Conjunto Musical La Digna Rabia vislumbravam o que poderia resultar das trocas da banda com as crianças e músicos do coral Araí Ovy (Céu Azul). Em janeiro deste ano, esse encontro começou a se materializar no projeto Sementes da Retomada, contemplado pela Lei Aldir Blanc.

Por ora, as atividades presenciais da iniciativa estão suspensas devido ao agravamento da pandemia. Assim que possível, dando sequência aos ensaios já iniciados, será gravado um EP de seis faixas – todas de autoria guarani –, com previsão de mil cópias que poderão ser comercializadas pela comunidade da retomada. O compilado está sendo produzido pelo compositor Arthur de Faria e pelo músico Lucas Kinoshita.

Integrantes do coral Araí Ovy acompanhados de Romário Xunun (com o violão). Foto: Anderson Astor

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“As crianças do coral têm condições de tocar outros instrumentos, têm potencial pra isso, e estão tendo a oportunidade de fazer amizades, falar mais na língua portuguesa”, destaca Romário Werá Xunun, coordenador, professor e compositor do coral Araí Ovy, fazendo referência às oficinas desenvolvidas em janeiro pelo projeto, respeitando os protocolos sanitários então vigentes.

O cacique da aldeia, André Benites, aponta a importância da iniciativa para a continuidade das manifestações culturais da retomada: “As crianças falam tudo que a gente vê, tudo que a gente sente – amor, fortalecimento, nosso dia a dia. Tudo está sendo contado através do canto. Isso traz uma grande esperança para a gente seguir mantendo nossa cultura, nossa realidade, nosso caminho”.

Caminhos sonoros e desdobramentos audiovisuais

“Quando comecei a harmonizar essas melodias, fui me dando conta de que elas são muito próximas das melodias da música de raiz indígena da Argentina, do Paraguai, do Chile, do Peru e da Bolívia – que de alguma forma também são próximas das melodias indígenas norte-americanas, que inspiraram trilhas de filmes de faroeste nos anos 1930”, conta Arthur.

O produtor do EP tem refletido sobre os possíveis vínculos da música guarani com as sonoridades de outras latitudes: “O palpite que eu tenho – ainda preciso ver com algum etnomusicólogo – é que tem essa raiz melódica, que não tem nada a ver com a música indígena que a gente conhece do Xingu e da Amazônia. [Essa raiz] usa muita escala pentatônica, que vem do Japão, da China. Sabe lá se todo esse trajeto da humanidade, vindo da Ásia, passando pela Sibéria e descendo pelo Estreito de Bering até chegar aqui, não trouxe junto esse tipo de musicalidade, de milhares de anos”.

Além de envolver produtores musicais, o projeto Sementes da Retomada tem um braço audiovisual: um documentário que está sendo gravado pela produtora Terramar Filmes – nas redes sociais do Sementes da Retomada é possível acompanhar imagens captadas pelos fotógrafos Anderson Astor e Marcelo Curia, integrantes da Terramar.

Retomada Mbya-Guarani Tekoa Ka’aguy Porã. Foto: Anderson Astor


“O plano inicial era fazermos uma vivência bastante intensa com a comunidade Mbya-Guarani. Gostaríamos de entender a forma de vida e organização dessa comunidade e do povo guarani, documentando as trocas de experiências entre os guaranis e os integrantes da banda. Na época, a situação da pandemia vinha melhorando. Aí deu no que deu, fomos atropelados pela pandemia novamente”, lamenta Curia. “Conseguimos fazer duas ou três visitas rápidas à comunidade. Gravamos muito pouco, pois tudo estava sendo feito com muito cuidado em relação à Covid-19. Estamos agora esperando a poeira baixar e que o prazo de execução seja prorrogado”, completa o fotógrafo e realizador.

O cacique André Benites (esquerda) conversa com o músico Gabiel Luzzi (direita). Foto: Terramar Filmes

Outra vertente em vídeo do projeto se dá no formato de lives. Duas já foram realizadas: uma sobre diálogos musicais entre artistas indígenas e não indígenas, com a participação de integrantes da iniciativa, e outra com a artista e jornalista Renata Tupinambá, cofundadora da rádio Yandê, primeira rádio web indígena do país.

Diálogo entre saberes

Foto: Marcelo Curia

Formado por Marcelo Argenta (voz/ teclado/synth), Pietro Duarte (sax), Gabriel Luzzi (trompete), Hiro Okido (guitarra), Igor Symanski Rey Gil (baixo), Tavinho (percussão) e Zé Darcy (bateria), o Conjunto Musical La Digna Rabia completou 10 anos em 2020.

“Somos uma banda que se criou a partir da mobilização política. Sempre tivemos a ideia de apoiar movimentos sociais. Nisso, nos aproximamos do movimento indígena, especialmente dessa retomada, em 2017”, conta Argenta, lembrando que o grupo já participou inclusive da construção de uma escola no território da retomada.

A banda La Digna Rabia. Foto: Marcelo Curia

A escuta dos integrantes da banda na aproximação com a aldeia é valorizada pelo cacique André Benites. “Muitos grupos, órgãos, antropólogos vinham fazer trabalho sobre os povos indígenas, mas não estavam juntos com o povo indígena. A gente nunca teve essa liberdade para falar, tentar explicar como a gente sente, qual a nossa visão para o futuro, qual o nosso entendimento. A equipe [do Sementes da Retomada] está vindo, tentando entender, tentando escutar. Antigamente a gente não tinha isso”, elogia o líder indígena.

O vocalista da La Digna Rabia explica que a aproximação atenta às necessidades da comunidade é um ponto central do projeto. “O que pauta essa ideia de diálogo, de eles perceberem que estamos escutando, é porque vamos lá como quem vai aprender. Entre a banda, isso foi muito natural. Mas nesse projeto, envolvendo mais pessoas, fizemos questão de bater nesse ponto desde o começo. A horizontalidade é a chave do processo”, afirma Argenta.

O músico Marcelo Argenta. Foto: Marcelo Curia

Com a realização do projeto atravessada por uma catástrofe sanitária, as reflexões do grupo inevitavelmente convergem para a urgência de certos aprendizados. “Ficou evidente que a gente vive um modelo de sociedade que não só está no limite, como se mostra precarizado. Uma sociedade pautada pelo individualismo, pelo consumo, por uma relação equivocada com o meio ambiente. Os valores majoritários fazem com que ela se revele fadada à autodestruição”, analisa Argenta.

“As sociedades indígenas – sem levar para uma ideia de purismo – são profundamente pautadas na ideia de coletividade, corresponsabilidade e da importância da relação com as formas de vida não humanas – a necessidade de uma relação harmônica e complementar para a sobrevivência de todas as espécies. Esses são valores fundamentais que a gente esqueceu”, segue o músico.

Argenta completa: “A ideia do projeto é que seja uma semente que essa retomada está deixando, que comece a criar frutos a partir dessa relação, com novas aproximações e outra compreensão da importância desses grupos – o quanto podemos aprender disso para o nosso dia a dia, nosso cotidiano e nossas relações. Muita coisa se abre”.

Retomada Mbya-Guarani Tekoa Ka’aguy Porã. Foto: Anderson Astor

Para mais informações, acesse o site do projeto Sementes da Retomada.


O coral Araí Ovy existe há cerca de três anos e é composto por: Alexandre Werá Xunun, Cleiton Karaí, Fabiana Jaxuka Mirim, Gabriel Karaí Mirim, Iedisson Kuray Mirim, Jonata Werá Mirim, Josiel Kuaray Papá, Larissa Pará Ixapy, Madisson Kuaray Mirim, Maílson Karaí Tataendy, Volmir Werá Mimbi, Andreia Jaxuka Poty, Eliana Jaxuka e pelo coordenador e músico Romário Werá Xunun.

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