Artes Visuais, Notas

Fundação Iberê prepara exposições de Magliani e Xadalu para 2022

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Fundação Iberê prepara exposições de Magliani e Xadalu para 2022 Magliani. Foto: Acervo Núcleo Magliani/Divulgação

A Fundação Iberê prepara, para o primeiro semestre de 2022, duas grandes exposições que enaltecem a diversidade cultural. Em fevereiro, será inaugurada uma mostra da pintora, desenhista, gravadora e ilustradora, Maria Lídia Magliani (1946-2012). Em março, a Fundação abre uma exposição inédita de Xadalu Tupã Jekupé.

Nascida em Pelotas, Magliani foi uma artista valente e irreverente, que produziu uma obra densa, dilacerada e trágica, expondo suas emoções de forma vibrante, sem medo do uso da cor. Para a curadora Denise Mattar, “sua criação se insere num expressionismo sangrento, que choca e fere os desavisados e os sectários”.

Foi, ainda, uma das primeiras mulheres negras a se formar pelo atual Instituto de Artes da UFRGS, em 1966. “Antes dela formou-se em pintura a porto-alegrense Beatriz Araújo Moreira da Silva, em 1964, mas Magliani foi pioneira em construir uma trajetória dedicada à arte, e o fez com grande resiliência”, comenta Gustavo Possamai, envolvido na organização da mostra.

“Ser uma pessoa de cor negra não interfere em nada na minha pintura, eu não entendo a sempre presente preocupação de pessoas com este aspecto. É minha vez de perguntar por que parece tão excepcional que um negro pinte? Por que a condição social de artistas de cor branca nunca é mencionada? Por que sempre me perguntam como é ser negro e ser artista? Ora é igual ao ser de qualquer outra cor. As tintas custam o mesmo preço, os moldureiros fazem os mesmos descontos e os pincéis acabam rápido do mesmo jeito para todo o mundo. A diferença quem faz é a mídia. É ‘normal’ ser branco e, portanto, é natural que o branco faça tudo, mas quando se trata de um negro, age como se fosse algo fantástico, um fenômeno – o macaco que pinta! Não gosto disto”, disse em entrevista ao jornalista João Carlos Tiburski, em 1987.

Júlio Castro, artista visual que dividiu ateliê com Magliani até o falecimento da artista, em dezembro de 2012, acredita que a exposição na Fundação Iberê revelará o significado de uma obra poderosa ainda pouco analisada: “O Núcleo Magliani que criei em nosso ateliê comum, no Rio de Janeiro, foi planejado junto com a família da artista para que seu legado como obras, documentos e materiais de referência não se dispersassem, o que agora serve de base para esse importante resgate.”

Cosmologia e ancestralidade

Em março, a Fundação abre uma exposição inédita de Xadalu Tupã Jekupé com obras, projeção e som que retratam a cosmologia, a ancestralidade e, também, as lembranças de Alegrete e das águas que banharam a sua infância na antiga terra chamada Ararenguá, carregadas de história de Guaranis Mbyá, Charruas, Minuanos, Jaros e Mbones — assim como dos bisavós e trisavós do artista. De etnia desconhecida, eles eram parte de um fragmento indígena que residia em casas de barro e capim à beira do Ibirapuitã, dedicando-se à pesca e vivendo ao redor do fogo mesmo depois do extermínio das aldeias da região.

Xadalu. Foto: Carol Essan/Divulgação

Para o crítico de arte Paulo Herkenhoff, a arte de Xadalu não vai mudar o mundo, mas pode alterar nosso olhar: “Xadalu não fica à espera por mudanças na sociedade, mas busca agenciar sua potência para agir na escala individual – não se move por impotência; reconhece a pequena medida de suas possibilidades, sem submergir à onipotência. Seus riscos e dúvidas movem sua pulsão de vida no contexto de um contrato social solidário da arte.”

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