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28º Porto Alegre Em Cena: a cidade como palco

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28º Porto Alegre Em Cena: a cidade como palco Entidades, de Jaider Esbell | Foto: Juliana Alabarse

Teve início nesta semana mais uma edição do Porto Alegre Em Cena. Em sua 28ª edição, o festival deste ano acontece de forma híbrida. Entre 19 e 31 de outubro, as mostras, oficinas, exposições e espetáculos – internacionais, nacionais e locais – se dividem entre os teatros da cidade e as telas. Pela primeira vez em sua história, o festival é inteiramente gratuito. Conversamos com o diretor geral do evento, Fernando Zugno, sobre a curadoria, as novidades do festival e as dificuldades que a cultura enfrenta no Brasil de hoje.

A cidade, o humano e a natureza

Com o tema Nhe’ery – Existe uma Cidade Sobre Nós, a curadoria desta edição partiu da obra homônima, de autoria do artista Xadalu Tupã Jekupé, para propor como caminho ocupar a cidade artisticamente e sobrepor a ela conhecimentos e culturas que são sistematicamente marginalizados e apagados ao longo da história. O colapso da sociedade contemporânea é, de certa forma, também pano de fundo.

Desde que assumiu a direção e a curadoria do festival, em 2017, Zugno vem trabalhando com temas que se conectam com a proposta de pensar a contemporaneidade e vislumbrar futuros possíveis, perpassando sempre por uma das maiores questões dos tempos atuais: a relação entre humanidade e natureza.

Neste ano, a curadoria centra-se na cidade sobretudo para pensar a sua retomada após o longo período de isolamento social. Porém, o guarda-chuva de temas é mais amplo do que isso. “Estamos em um momento de ruptura, de emergência climática, de transformação social, e achamos que é importante que um festival dessa potência se coloque como espaço de discussão dessas questões para que mais e mais pessoas reflitam sobre isso. E a nossa maneira de promover essas reflexões é através do sensível”, afirma Zugno.

Conforme o curador, para enfrentar os tempos sombrios – como é o atual, de crise sanitária, política, econômica, ética, ambiental –, é essencial ter contato com a arte. “Realizar o festival é mais do que nunca um ato político. Especialmente pelo formato que ele está acontecendo: voltar a ocupar as nossas ruas, nossas praças, nossos centros culturais através da arte. Significa dar sentido pra nossa cidade, que ela seja ocupada pelos artistas e pelo público”, aponta.

Povos originários

Xadalu. Foto: Billy Valdez

A obra de Xadalu que deu título ao evento, Nhe’ery – Existe uma Cidade Sobre Nós, conta a história de que o local onde Porto Alegre foi erguida era um território sagrado para os povos guaranis. Onde hoje está a Praça da Alfândega e a Praça da Matriz, antigamente era um local de encontro de indígenas, que perceberam que uma cidade começava a ser erguida ali.

O território sagrado foi coberto por pedras portuguesas, que, nesse sentido, podem ser entendidas como símbolo do processo de apagamento das culturas originárias pelos colonizadores portugueses. A partir da troca com o artista, a programação passou a ser desenhada e incluiu outra obra, até então inédita, do próprio Xadalu, e o convite ao artista indígena roraimense Jaider Esbell.

No Foyer Nobre do Theatro São Pedro, está exposta a obra Jardim dos GuaranisOre yvoty ty, na qual Xadalu criou um quadro feito com sementes, pretas e brancas – tais quais as pedras portuguesas –, consideradas sagradas pelos guaranis. “São histórias como essa, sabedorias desses povos que cuidam da vida com que queremos nos conectar, a fim de vislumbrar um futuro possível”, destaca Zugno.

Entidades, de Esbell, está instalada no espelho d’água do Parque da Redenção. A instalação é composta por duas cobras gigantescas que, para o povo indígena macuxi, representam a fertilidade e a fartura. A cobra, para eles, protege, alerta e mantém vivos os povos originários.

“Que o Em Cena seja um espaço para se mostrar o diálogo, os conhecimentos dessas culturas, com suas similaridades e diferenças, me interessa muito”, afirma o curador. Trazer essas obras para comporem a programação também significou uma outra forma de ocupar a cidade, algo imposto pela necessidade de não aglomerar.

Evento híbrido

Metaverse: estamos no fim de algo | Foto: Carol Xarlene

A 28ª edição do evento tem em sua programação eventos presenciais e atividades online. O que acontece nas salas de teatro não tem transmissão. Ainda assim, toda a grade foi construída pensando que não era possível criar um evento que gerasse aglomeração de pessoas.

“Só estamos fazendo isso porque nos demos conta ano passado de que o que fazemos, artes performáticas, com corpos vivos, tem uma potência muito maior quando se está junto, no mesmo lugar físico, respirando o mesmo ar”, pondera o diretor. “Voltar para o presencial significa fincar pé de que a arte, a beleza que os artistas produzem são, sim, essenciais”, reforça.

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