Música, Reportagens

As Pretas alçam voo

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As Pretas alçam voo Foto: Priscila Cezar

Concebido desde 2017, acompanhando a trajetória do grupo 50 Tons de Pretas ao longo de seu começo nos palcos, o álbum Voa apresenta a mistura de samba, pop, rock e MPB de Dejeane Arruée (vocal, trombone) e Graziela Pires (vocal). “Além da realização de um sonho, o disco representa um ato de resistência através da arte. É a nossa voz resumindo nossos primeiros anos de carreira e ecoando tudo que a gente acredita que precisa ser dito”, afirma a dupla.

O álbum tem a participação dos músicos Gustavo Nunes (violão), João Costa (bateria) e Vladimir Godoy (baixo) e conta com três convidados: o compositor carioca Macau e os cantores gaúchos Tonho Crocco e Tati Portella. Com letras que abordam, entre outras temáticas, o feminismo e o antirracismo, não à toa a live de lançamento de Voa aconteceu no último 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, em apresentação virtual que começou com as Pretas cantando A Carne Mais Barata do Mercado É a Carne Negra, de Elza Soares.

“A gente queria muito ter começado a live de hoje cantando outra música. Mas todo mundo sabe que o dia amanheceu mais triste do que o esperado. Todos os dias são de luta, mas numa data emblemática como a de hoje – pensada com tanto carinho para que fosse o dia de lançamento do nosso disco –, a gente amanhece com mais um dos nossos sendo derrubado”, lamentou a vocalista Graziela Pires, fazendo menção ao assassinato brutal, na noite anterior, de João Alberto Silveira Freitas, morto por seguranças do supermercado Carrefour do bairro Passo D’Areia, em Porto Alegre.

“A nossa forma de continuar protestando é continuar resistindo e fazendo música”, completou Graziela, que ao lado de Dejeane Arruée comentou esse e outros assuntos na entrevista a seguir.

Como foi o processo de concepção de Voa e qual sonoridade vocês buscaram no álbum?

O álbum vem sendo construído desde 2017, com o primeiro single, A Mais Pura Verdade. A gente escolheu trazer as canções em ordem cronológica, de acordo com a sequência em que foram gravadas. A sonoridade foi música brasileira, com influência de soul, black music e elementos orgânicos, até elementos mais pop, como em Voa, que teve a produção de Rafael Hauck.

Falando em Voa, gostaria que vocês comentassem o título do álbum e a letra dessa faixa.

Voa foi a faixa escolhida para dar nome ao disco por Leandro Selister, que fez a concepção artística do CD. É uma letra que fala sobre a liberdade de traçar seu próprio caminho, de esperança em si mesmo e no poder de alçar voos cada vez mais altos, mesmo em meio às adversidades. Fala do poder do sorriso, que é a positividade com que enfrentamos as lutas diárias enquanto mulheres pretas e artistas. O punho cerrado é o enfrentamento ao racismo, machismo e o nosso posicionamento frente às diferentes pautas que trazemos em nossas canções, tais como a representatividade.

Nos contem um pouco sobre as parcerias com Macau, Tati Portella e Tonho Crocco.

O encontro com Macau se deu em 2019, no Rio de Janeiro, na primeira apresentação do espetáculo A Mais Pura Verdade. Desse encontro surgiu a composição A Nossa Canção, que fala de encontro, afeto, amizade. Por isso, quando fomos gravá-la, pensamos em convidar nossa amiga Tati Portella, para dar voz à mensagem dessa canção, e amamos o resultado. Já Cidadão Comum, de imediato pensamos em convidar o Tonho Crocco, que é um artista generoso e grande amigo – a Deje faz parte da sua banda. Ele prontamente aceitou e trouxe um tempero todo especial para o som.

Quais os próximos passos de vocês com o disco?

Apesar da pandemia, queremos seguir produzindo conteúdos para divulgar as canções inéditas, fazer shows autorais e principalmente colocar nossa turnê Voa na rua.

Por fim, o Dia da Consciência Negra em 2020 ficou marcado pelo assassinato brutal de Beto Freitas, mencionado no início da live de lançamento do Voa. Quais reflexões esse crime suscitou em vocês nos últimos dias?

Sentimento de que a luta não cessa. De que estamos no caminho certo, denunciando e rebatendo o racismo – e, principalmente, levando as pessoas a refletirem conosco. E que, mais do que nunca, se faz necessário resistir, e a arte é nossa arma!

Foto: Priscila Cezar
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