Entrevista, Reportagens

Acervo digital reúne legado de Vinicius de Moraes

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Acervo digital reúne legado de Vinicius de Moraes Vinicius de Moraes. Foto: VM Cultural

Poeta, compositor, dramaturgo, diplomata e gigante da cultura brasileira, Vinicius de Moraes (1913-1980) deixou um volume de registros de suas trocas criativas e produção artística tão impressionante quanto a vastidão de sua trajetória. A partir da década de 1980, a família de Vinicius realizou uma série de doações desse material – até então zelado pelas irmãs Lygia e Laetitia de Moraes – ao Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, totalizando mais de 11 mil documentos produzidos e coletados ao longo de quase 50 anos pelo poeta.

Disponibilizados ao público desde 1992, os registros ampliam seu alcance com o projeto Acervo Digital Vinicius de Moraes, que entrou no ar hoje (27/5), reunindo documentos originais digitalizados, entre manuscristos e datiloscritos, além de outros materiais, com o objetivo de democratizar o acesso à obra e aos processo criativos de Vinicius.

Reprodução: Site do Acervo Digital Vinicius de Moraes

“Do ponto de vista da produção artística brasileira, é uma contribuição fundamental no sentido de compreender um pouco do que já foi feito – e, de certa forma, compartilhar com Vinicius o processo criativo que gerou essas obras-primas, um trabalho árduo, de uma vida inteira. Isso é muito importante para entender o trabalho dos artistas, que costuma ter seu valor tão questionado”, afirma Julia Moraes – leia a entrevista a seguir –, neta de Vinicius, idealizadora e coordenadora da iniciativa, realizada pela VM Cultural com patrocínio do Ministério do Turismo e do Itaú através da Lei Rouanet. A coordenação técnica e o design do projeto são de Marcus Moraes, sobrinho-neto de Vinicius.

O acervo digital está dividido nas categorias Correspondências, Produção Intelectual e Documentos Diversos. A primeira reúne cartas, cartões e telegramas trocados entre Vinicius e nomes como Charles Chaplin – agradecendo o envio da primeira edição da revista Filme, fundada por Vinicius em Los Angeles –, Orson Welles e Pablo Neruda, além de artistas nacionais como Baden Powell, Carlos Lyra, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira e, claro, Tom Jobim.

Carta de Pablo Neruda. Foto: Acervo Digital Vinicius de Moraes

Os registros da produção intelectual de Vinicius incluem poemas, textos em prosa, artigos, peças, letras de música, roteiros de cinema, discursos, entrevistas e traduções. Todos os livros de poesia do autor estão disponíveis para leitura, assim como manuscritos, versões datilografadas, provas tipográficas, emendas, correções e textos com mais de uma versão. Na produção musical, é possível analisar o percurso do poeta ao longo de diferentes versões de uma mesma criação, como nas letras de Chega de SaudadeCanto de Ossanha, Tarde em ItapoãSamba da Bênção e Insensatez.

Manuscrito de “Insensatez”. Foto: Acervo Digital Vinicius de Moraes

O projeto apresenta ainda o podcast Caderno de Leituras Vinicius de Moraes, desenvolvido a partir de obra homônima, publicada em 2009 pela Companhia das Letras, que apresenta a poesia de Vinicius a partir de outros autores. Os capítulos da nova versão em áudio são narrados pela cantora Mariana de Moraes (neta do poeta) e pelo jornalista Pedro Paulo Malta, roteirista do podcast. A trilha sonora é assinada por Mario Adnet, com músicas de Vinicius.

Outro componente do projeto é o minidocumentário Acervo Digital Vinicius de Moraes, dirigido por Julia Moraes, que mostra bastidores e reflexões do trabalho com os documentos de Vinicius e conta a história do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira, iniciativa de Carlos Drummond de Andrade, na década de 1970. Além do site, do podcast e do minidocumentário, o projeto deve ganhar novos desdobramentos com exposições de recortes do acervo e convites a pesquisadores que estudam a obra de Vinicius.

Leia a entrevista com Julia Moraes.

Um dos aspectos que você destaca em relação ao acervo é o entendimento de Vinicius como “trabalhador da palavra”. Poderia nos falar um pouco mais sobre essa leitura?

Vinicius tinha muita capacidade de síntese para falar dos sentimentos, mas essa voz lírica dele não vem só numa manhã de inspiração. Tem inspiração, talento, curiosidade constante – Vinicius falava que não perdia a capacidade de se assombrar com as coisas –, mas essa voz foi muito trabalhada. Nesses documentos encontramos várias versões de um mesmo poema ou de uma mesma canção. Ele troca palavras e faz anotações em busca de precisão, síntese, perfeição, beleza. Um caso muito emblemático é o poema O Haver, que levou quase 10 anos para ser concluído.

Datiloscrito de “O Haver”. Foto: Acervo Digital Vinicius de Moraes

Quais as principais contribuições do acervo?

Do ponto de vista produção artística brasileira, é uma contribuição fundamental no sentido de compreender um pouco do que já foi feito – e, de certa forma, compartilhar com Vinicius o processo criativo que gerou essas obras-primas, um trabalho árduo, de uma vida inteira. Isso é muito importante para entender o trabalho dos artistas, que costuma ter seu valor tão questionado.

Vinicius tem uma produção que projetou o Brasil para todo o mundo e nacionalmente. Baseado numa erudição profunda e no amor que ele tinha pelas coisas do Brasil, ele conseguiu unir cultura popular e erudita para criar uma terceira coisa, essa obra tão potente. Esteve na Bossa Nova, fez Os Afro-sambas, teve contato com jovens (nos shows com Toquinho e no Circuito Universitário)… Ele estava sempre ativo, inquieto, viajando, com uma vida agitada e uma produção artística muito intensa. Grande parte da imagem que se tem dele – o cara bonachão tomando uísque – é um estereótipo, mas Vinicius era realmente essa pessoa dedicada aos amigos, que se casou nove vezes, amou demais, o que não impediu nunca que ele produzisse, e com excelência.

Quais foram os principais desafios?

Não fizemos isso sozinhos, é uma parceria com a Fundação Casa de Rui Barbosa e o Arquivo-Museu de Literatura Brasileira [vinculado à Fundação], que abriga acervos de autores como Clarice Lispector, Ruben Braga, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Para preservar essa documentação, ela precisa estar acondicionada, classificada, do contrário, não é acessível. Sozinhos, sem o trabalho de uma instituição pública, possivelmente não conseguiríamos. Por isso, o principal desafio é manter esse investimento na preservação da memória, por meio de instituições como a Cinemateca Brasileira, o Arquivo Nacional e a Biblioteca Nacional. Também são importantes iniciativas de famílias como o Instituto Tom Jobimque criou um site com o acervo de Tom e outros artistas – e iniciativas do Itaú Cultural como a que patrocinou o Acervo Digital Vinicius de Moraes através da Lei Rouanet.

Começamos esse projeto em 2017. Até captarmos os recursos, demorou dois anos. Então tivemos que lidar com essa enormidade do passado de uma forma ética e cuidadosa, preservando as características originais dos documentos. Esse acervo é grande pois reúne não estão só os acertos, mas também os erros de Vinicius. Tem poemas que ele abandonou por não considerar bons o suficiente. Nos perguntamos: se ele não publicou, vamos publicar agora? Mas acreditamos que Vinicius tem uma contribuição tão grande e reconhecida que isso é uma questão menor. Esses “erros” podem contribuir muito mais no entendimento da construção de sua obra do que dizer que um poema não era bom. Ele publicou o que achava melhor, agora estamos disponibilizando o processo artístico pelo qual Vinicius passou para chegar a essas obras-primas.

Manuscrito de “Tarde em Itapoã”. Foto: Acervo Digital Vinicius de Moraes

Quais descobertas você destaca?

Tem destaques como o dossiê de Brasília: Sinfonia da Alvorada, que ele e Tom fizeram para a construção de Brasília, encomendada por Oscar Niemayer e Juscelino Kubitschek. Lá você vê tudo que eles usaram para criar o poema sinfônico, como a lista de materiais da construção da cidade (tantos metros de fio, tantos sacos de cimento), mapas do Plano Piloto, a estrutura da sinfonia ainda vazia, como um roteiro… Também tem um material sobre idealização de livros. Vinicius tinha essa ideia do livro como projeto. Ele pensava o livro não só em relação aos poemas, mas também no que diz respeito à edição das publicações, como trabalho do poeta. Há também exercícios e questionamentos para encaixar a letra de Canto de Ossanha na música de Baden Powell. É muito emocionante ver manuscritos de músicas como Insensatez, em que, ao lado, tem uma continha… Até me arrepio quando vejo Tarde em Itapoã, Chega de Saudade, Canto de Ossanha. Você vê como Vinicius trabalhou a palavra e a música, a relação dele com os parceiros… É muito lindo.

Também tem correspondências, porque Vinicius se esmerou na arte de fazer amigos. Essas cartas, além de conterem informações históricas e reflexões, transmitem carinho. Ele construiu uma rede de contatos intelectuais e afetivos que o ajudaram em seus processos, mostrando que ninguém anda sozinho.

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