Artes Visuais, Reportagens

Acessibilidade além da rampa: visitantes cegos são desafio para museus

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Acessibilidade além da rampa: visitantes cegos são desafio para museus "Presença na Ausência" em 3D acessível. Reprodução: Site da mostra

A modelo e ativista Josiane França Santos, 43 anos, gosta de visitar museus. Parece um lazer descomplicado, mas Josiane é cega, então cada visita é um desafio. Como os sites dos museus costumam ser incompatíveis com seu aplicativo de leitura de tela, é impossível conferir endereço ou horários de funcionamento. Depender do transporte público é corajoso já que os ônibus nem sempre deixam os passageiros na porta de entrada das instituições. Melhor garantir uma carona. Quando finalmente chega, Josiane é recebida com perplexidade. “As pessoas ficam ansiosas, tensas, não sabem como lidar conosco”, diz ela.

Dentro do museu, é difícil saber por onde começar já que raras instituições possuem recursos que dariam autonomia ao visitante cego, como piso tátil, audioguia específico para o público ou material em braile. Tocar nas obras? Claro que não pode. Mesmo assim, Josiane insiste. Junto do marido também cego ou em excursões com as colegas do Movimento Brasileiro de Mulheres Cegas e com Baixa Visão, ela visita os museus da sua cidade, Porto Alegre, e do Brasil inteiro, como o Museu do Amanhã (Rio de Janeiro) e o Museu Oscar Niemeyer (Curitiba).“Claro que a gente se sente excluído, mas quando algo nos interessa, nos organizamos em grupos e vamos até lá. Entendemos que é importante estar nos espaços para mostrar que existimos e gostamos de ir”, reforça a ativista.

Josiane França (centro) na Fundação Ecarta. Foto: Arquivo pessoal

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Josiane perdeu a visão devido a uma meningite há 13 anos, quando tinha 31. Recusa-se a aceitar que as chamadas “artes visuais” sejam privilégio de quem vê. Para ela, é uma experiência muito mais ampla: “Quando eu estou no museu, tocando nos objetos, é como se voltasse a enxergar. Vou sentindo as texturas, as curvas, e construindo a imagem dentro da minha cabeça. É como se ela estivesse nos meus olhos. Lembro bem das cores, até dos tons, porque logo que eu fiquei cega tinha muita preocupação de esquecer das coisas, então ficava imaginando e memorizando, pensava na cor rosa, nos bichos, e por isso minha memória visual é muito forte.”

A vivência de Josiane é rotineira para pessoas cegas em Porto Alegre e em quase todo o mundo. Considerados locais de contemplação, museus e galerias de arte não estão preparados para lidar com esse público que, por sua vez, não fica à vontade para visitá-los. A Associação de Cegos do Rio Grande do Sul (ACERGS) estima que existam cerca de 100 mil pessoas cegas ou com baixa visão só em Porto Alegre. E no entanto com que frequência você, leitor, enxerga uma delas em uma atividade cultural?

As cidades mais desenvolvidas do planeta também ficam devendo, mas há iniciativas buscando mudança. No início de 2019, mais de 75 galerias de arte de Nova York foram processadas porque seus sites não eram acessíveis aos cegos. A maioria dos estabelecimentos fechou acordo para aprimorar seu site. A queixa pode parecer inusitada, mas a advogada da Federação Nacional dos Cegos dos EUA, Eve Hill, garantiu que seus clientes compravam arte, inclusive para “pendurá-la na parede e combiná-la com os móveis”, conforme declarou, com alguma ironia, ao jornal The New York Times.

Regina de Oliveira Heidrich pesquisa acessibilidade há mais de 20 anos e afirma que a demanda cultural das pessoas com deficiência é subestimada porque seus direitos mais básicos não são atendidos: “Quando viajo, reparo na quantidade de cegos, surdos e cadeirantes nas ruas. Em Portugal, tu vê pessoas de andador indo ao super. No Brasil, essas pessoas não andam sozinhas. E do ponto de vista das políticas públicas, o que não vemos, não existe. Se não é feito nada para esse público, ele não vai. Mas quando há algo específico para ele, fica lotado”, garante Heidrich, que é doutora e docente do Programa de Pós-Graduação em Diversidade Cultural e Inclusão Social da Universidade Feevale.

O Plano Nacional de Cultura, lançado em 2010, estabelecia 2020 como prazo para que 100% dos museus e outros aparelhos culturais públicos brasileiros, como bibliotecas públicas e cinemas, atendessem aos requisitos legais de acessibilidade e desenvolvessem ações de promoção da fruição cultural para pessoas com deficiência. Uma acessibilidade plena envolveria pisos táteis, audiodescrição, libras, braile, legendagem, entre outros recursos. Mas, segundo Heidrich, o que mais se vê são elevadores e rampas: “Sinceramente, nunca vi algo com acessibilidade completa. As pessoas têm uma ideia errada do que é acessibilidade. Quando me dizem que algo é acessível, eu pergunto sempre ‘é acessível para quem?’. Uma criança com déficit intelectual consegue ler esse livro? Se não, já passa a ser um projeto elitista”.

O presidente da ACERGS, Gilberto Kemer, também trabalha pela conscientização de que acessibilidade vai além das rampas e elevadores. “Acessibilidade não é só arquitetura. Mas todo mundo pensa que é só colocar uma rampa. É audiodescrição, equipe preparada para te receber, levar até a cadeira no teatro”, detalha Kemer. “Pagamos impostos, somos cidadãos como qualquer um, temos os mesmos direitos e deveres. A legislação é bem ampla, mas é como tudo no Brasil, a dificuldade está no cumprimento das leis”, conclui.

O servidor público de 46 anos enxergava alguma luminosidade até os oito anos, mas depois teve de passar por uma cirurgia para extrair os olhos. Como não têm referências de cores e formas, sublinha a importância de não apenas ouvir descrições, mas também tocar nos objetos. “[Minha experiência] é diferente de quem está visualizando. Por mais que tenha uma descrição, entendo que é algo mais imaginário mesmo. Mas toda experiência é válida, se a gente tiver boa vontade sempre vai tirar algo.” Em museus, ele raramente encontra material em braile ou audiodescrição que lhe permitam desfrutar da exposição. “Fui ao MARGS algumas vezes, mas sempre acompanhado de pessoas que enxergavam, como amigos ou um familiar. Se não, teria ido só pela caminhada.”

Por isso, Kemer prefere frequentar outros espaços, como o Auditório Araújo Vianna, onde é sempre recebido por um funcionário que o leva até a sua cadeira. “Às vezes o que falta é a capacitação para atender, saber como conduzir, verificar o que a pessoa precisa. A capacitação atitudinal não tem muito custo”, pontua Kemer. Josiane também valoriza a boa vontade acima de tudo. Lembra com carinho da vez em que um mediador de exposição abriu uma exceção para ela e permitiu que tocasse numa coleção de obras. “É disso que precisamos, de empatia e de que as pessoas queiram aprender. Não é só nos chamar um momento do ano, em setembro ou dezembro [21/9 é Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência e 5/12 é Dia Nacional da Acessibilidade]. É descrever as obras, permitir que em algumas a gente possa tocar.”

Nos museus de Porto Alegre, acessibilidade ainda é limitada

O MARGS, principal museu de arte do estado, conseguiu adaptar seu edifício histórico na Praça da Alfândega para receber pessoas com deficiência física ou mobilidade reduzida. Há rampa, elevador, banheiro adaptado e cadeira de rodas disponível. Pessoas cegas podem acessar um totem digital com uma versão em áudio que apresenta a instituição e seu acervo, além de uma maquete tátil do primeiro andar.

No entanto, as exposições são menos acessíveis. Carla Batista, coordenadora do Núcleo Educativo e de Programa Público do MARGS, reconhece o problema: “Trabalhamos com muito empenho para deixar o MARGS cada vez mais acessível e acolhedor, mas ainda temos um longo caminho pela frente no que se refere à eliminação, à redução e à superação de barreiras para promover o acesso de todos(as) ao nosso patrimônio cultural.”

Carla destaca, por e-mail, que a equipe do museu aproveitou o período de quarentena para fazer dois cursos de acessibilidade cultural: “Procuramos ter acessibilidade atitudinal, isto é, a equipe está disponível para receber pessoas com diferentes tipos de deficiência e acolhê-las da melhor forma possível. No caso de pessoas com deficiência visual, sabemos como receber, conduzir, orientar em relação ao espaço (escadas, por exemplo) e descrever os ambientes pelos quais estamos circulando.”

Com um projeto arquitetônico que orgulha Porto Alegre, o prédio da Fundação Iberê tem um elevador para quem utiliza cadeira de rodas. E não muito mais. O Programa Educativo oferece aos cegos duas maquetes do edifício e um pedaço de tela. “A gente chama de ‘mata-vontade’, é um pedacinho de tela com o acúmulo de tinta do Iberê. Falamos de cor, dimensões, peso. Dá uma outra sensação, é muito importante para uma pessoa que não consegue enxergar”, conta Ilana Machado, coordenadora do setor.

Maquete tátil da Fundação Iberê. Foto: José Kalil

Ilana afirma que a acessibilidade entrou há pouco na pauta da fundação. A coordenadora lembra de uma oficina em que a equipe do Educativo experimentou caminhar pelo espaço expositivo usando vendas. Questionada pela reportagem, revelou que a demanda desse público é pequena: os mediadores estimam que a instituição receba apenas uma visita por mês, em média. Quem vai geralmente está acompanhado de alguém que lhe explica o que está exposto.      

Mas em que medida não é justamente a falta de acessibilidade que reduz esse público? Uma experiência ruim na Fundação Iberê, anos atrás, desencorajou até mesmo a perseverante Josiane: “Lembro que o banheiro tem maçanetas que abriam para o lado contrário. Demorei um ano para conseguir sair. A rampa é um tobogã, muito íngreme. Não serve para cadeirantes e as janelas devem ser apenas para iluminar o ambiente porque são altas demais para cadeirantes, crianças e pessoas com nanismo. Esqueceram da gente. É por isso que dizemos: nada sobre nós sem nós. Nunca mais voltei lá”.

A frase “Nada sobre nós sem nós” é um lema da luta pela inclusão e reivindica que as políticas relativas a pessoas com deficiência devem ser realizadas com a participação desse segmento da população. Em Porto Alegre, um bom exemplo é o Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo, dedicado à história e à memória da cidade.

A instituição tem um trunfo: Márcia Bamberg, 54 anos, responsável pelo setor de acessibilidade do museu. A funcionária nasceu com baixa visão e depois ficou cega devido a um glaucoma congênito. Ao entrar para a equipe da casa, treinou os colegas para receber pessoas com diferentes tipos de deficiência. No dia a dia, ela evita deslizes como textos com letras pequenas ou pouco contraste, o que dificulta a leitura de pessoas com baixa visão. O resultado de tanta atenção é refletido no público: “Recebemos um grupo bem significativo de visitantes com deficiência, tanto pessoas que conhecem o museu quanto quem vem para conhecer porque sabe que temos recursos de acessibilidade”, conta Márcia.

Márcia Bamberg (direita) no Museu Joaquim Felizardo. Foto: Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo/DIvulgação

Em 2002, o solar do século 19 que abriga o Museu Joaquim Felizardo foi reformado para receber elevador, banheiro adaptado e maquete tátil do prédio. Nos anos seguintes, as exposições passaram a oferecer, além de catálogo em braile, audiodescrição dos objetos expostos e recursos táteis. Durante as visitas guiadas, é permitido tocar em réplicas e objetos originais, como uma chave antiga do solar, um cachimbo e uma escarradeira.

Em uma das exposições de longa duração, os cegos podem usar um dispositivo, semelhante a uma caneta, equipado com sensor que lê a descrição dos objetos quando é apontado para eles. Recursos como esse foram desenvolvidos com financiamento do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) da Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul e em parceria com o professor Eduardo Cardoso, docente do departamento de Design da UFRGS que dedicou sua tese de doutorado à experiência de museus por pessoas com deficiência visual a partir da utilização de recursos multissensoriais.

Cardoso e Bamberg viajam para apresentar o projeto em eventos por todo o país, e a servidora faz questão de acompanhar os esforços de outros museus de Porto Alegre também, como o Centro Histórico-Cultural Santa Casa e o Museu da UFRGS. No entanto, por mais que o Museu Joaquim Felizardo tenha se tornado referência em acessibilidade, Márcia faz questão de apontar lacunas, como a ausência de piso tátil e de intérprete de libras: “Sempre que recebemos grupos de surdos, orientamos que o professor faça uma visita anterior e depois acompanhe a visita (dos alunos). Ainda tem muita coisa a ser feita, acessibilidade é um projeto nunca acabado”.

O caminho até a inclusão é longo, e Márcia quer ganhar mais aliados nessa luta: “Destaco a importância de todo cidadão lutar por acessibilidade, não só eu que tenho uma deficiência visual. Em 2015, foi promulgada a Lei da Inclusão, que é o Estatuto da Pessoa com Deficiência. É um direito de todos ter acesso à fruição da cultura. Preciso ter o direito de ir a teatro, cinema, circo, dança, Carnaval. Então quando um diretor de um filme ou peça de teatro começa a trabalhar já tem que pensar em colocar audiodescrição e intérprete de libras”.

Esforço por sensibilização

Por onde passa, o fotógrafo Valdir da Silva desperta a sensibilidade das pessoas para o tema da acessibilidade cultural. Basta contar sua história de vida: perdeu a visão aos 24 anos, em um acidente de trabalho. Era 1999, e ele nunca tinha entrado em um museu. Mas a arte foi tão importante no seu processo de reabilitação, ajudando-o a aceitar a nova condição e desenvolver autonomia, que ele mesmo virou artista. Nos últimos anos, ganhou fama como “o fotógrafo cego”, expondo imagens capturadas com o auxílio da filha de nove anos e da esposa.

Foto: Valdir da Silva

“A foto entrou na minha vida como um desafio. Já tinha feito massoterapia, pintura em tela, escultura, mas sempre faltava algo, até que um dia a professora sugeriu ‘por que tu não fotografa?’ Fiquei assustado, pensei ‘como, se não consigo ver?’ Mas foi uma sementinha plantada, comprei uma máquina. Quando tirei a primeira foto, foi uma emoção muito grande, vi que era aquilo que queria para a vida”, lembra Valdir.

Aos 45 anos, o fotógrafo enxerga tudo em branco com exceção de algumas manchas escuras, que são suas únicas referências visuais. Não vê formas nem cores: “Amo fotografar pôr do sol, natureza e pessoas. Preciso ter uma pessoa que me direcione para onde o sol está se pondo, posiciono minha máquina, minha filha ou minha mulher me descrevem o ambiente. Quando estou sozinho, peço ajuda. Mas tenho que estar ali de corpo e alma, vou sentindo o calor do sol diminuindo e clicando. Depois tenho ajuda para classificar o que ficou melhor. Na natureza ou campo, reparo na elevação do terreno, o som do vento, os animais cantando ou em movimento. Com pessoas, eu escuto a voz, toco para ver a altura, sinto o perfume, a energia”.

Primeiro Valdir recebeu convites para fazer exposições em colégios na Região Metropolitana, depois um shopping, palestras pelo Brasil e, no ano passado, tinha convites para viajar a Londres, mas a pandemia frustrou os planos. Quando fala ao público, conta as dificuldades enfrentadas por quem tem deficiência visual e costuma surpreender quando diz: “Graças a Deus sou bem mais feliz hoje do que quando enxergava. Sou alguém, sou realizado. O Valdir que enxergava foi um livro que escrevi e botei na prateleira”.

Foto: Valdir da Silva

Muita gente lhe procura, ao fim de uma fala, dizendo que mudou sua forma de pensar, mas Valdir gosta mesmo é de falar com crianças e adolescentes: “Os adultos a gente sensibiliza, mas eles esquecem com o passar dos dias. Quando tu fala com a criança, muda como ela vê as pessoas. Planta a semente num terreno fértil. Ali está o futuro arquiteto, o futuro gestor”.

Mas Valdir reconhece a dificuldade de dar acessibilidade aos cegos. Ao montar suas próprias exposições, nem sempre oferece recursos, geralmente ausentes nos espaços expositivos. “Às vezes consigo incluir legenda em braile, mas exposição em 3D é caro, assim como manter alguém ali para fazer a descrição, então procuro marcar uma hora para estar lá e responder as dúvidas das pessoas”, explica o fotógrafo.

Em um país onde os museus públicos sequer dispõem de verbas para montar exposições, falar em acessibilidade inevitavelmente traz à tona perguntas sobre os custos. Regina Heidrich acredita que isso já começa a mudar: “O custo é alto, mas não é um absurdo. É fazer uma miniatura da obra ou então pegar uma impressora 3D, por exemplo, para fazer uma versão de um quadro com texturas diferentes para a pessoa sentir. Acredito que logo, logo, vamos ter essas impressoras em casa”.

Para a especialista, o principal entrave é a falta de conhecimento: “Tem uma fotógrafa que faz ultrassom de bebê para mães cegas. Essa sensibilidade geralmente só aflora quando a pessoa conhece alguém que precisa daquilo. Desconhecimento não é atraso. Não gosto de dizer que os museus estão atrasados. Eles desconhecem a necessidade das pessoas, não se preocupam com essa camada da população. Quando tem, normalmente está ligado a estudos de alguma universidade”.

Quando a sensibilidade encontra recursos financeiros é possível fazer algo inédito. Foi o caso da exposição O Relevo, que a artista Lenora Rosenfield, 67 anos, apresentou no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo em 2018. Com patrocínio da Fundação Bienal do Mercosul, Lenora trabalhou durante um ano na produção de 12 obras em afresco sintético, técnica criada pela própria artista. Duas obras eram autorais e 10 ela chamava de “traduções” porque eram versões de obras famosas, como Negra de Tarsila do Amaral.

Com a mesma dimensão e cores do quadro original, o trabalho foi feito para ser tocado. Mas Lenora foi além: em parceria com a empresa ThoughtWorks, criou uma luva que acusava a cor de cada superfície do quadro. Para divulgar a exposição, fizeram contato com escolas e entidades de deficientes visuais: “Na noite de abertura, a reação foi unânime, me diziam ‘nunca fui a uma exposição feita para nós’”, lembra Lenora.

A artista não é próxima de ninguém com deficiência visual, mas passou a encorajar o público a tocar nos seus trabalhos desde que um grupo de cegos visitou sua exposição no Museu de Arte de Blumenau, em Santa Catarina, em 2015: “Quando perguntaram se eu dava acessibilidade, eu disse claro, porque minhas obras são táteis, têm relevo, textura. Foi extremamente bem recebido porque lá tem um centro de deficientes visuais grande. Teve muita troca, lembro deles chorando e eu também”.

Na exposição em Porto Alegre, Lenora também quis estimular a empatia dos videntes. O ambiente expositivo era mantido na penumbra para que eles tivessem de usar as mãos para enxergar.

Exposição “O Relevo”. Foto: Egidio Pandolfo

Acessibilidade digital

Exposição “Presença na Ausência” em 3D. Foto: Feevale/Divulgação

Durante a pandemia do coronavírus, a falta de acessibilidade no ambiente digital ganhou importância. A artista France Amaral e a designer Sheisa Bittencourt, doutorandas do Programa de Pós-Graduação em Diversidade Cultural e Inclusão Social da Universidade Feevale, examinaram o site do Museu do Louvre, frequentemente citado como opção de passeio ou de atividade escolar para os estudantes confinados em casa. Perceberam que até mesmo o site do museu mais famoso do mundo não oferecia uma boa acessibilidade.

“Existem normas para que os sites não ofereçam acessibilidade de forma aleatória, priorizando algo que não é tão importante. São as Diretrizes de Acessibilidade para o Conteúdo da Web [WCAG, na sigla em inglês] que oferecem um selo, um ISO, de quanto acessível é o site. Você segue para o nível 2 depois que o nível 1 está resolvido, vai para o 3 quando o 2 está pronto. O Louvre tem um pouco de cada, então fica evidente que foi feito de maneira aleatória, sem planejamento”, explica Sheisa.

Diante dessa decepção com um museu que teria condições financeiras para oferecer acessibilidade plena, a dupla de doutorandas transformou uma tarefa de aula em um projeto bem maior: a criação de uma exposição virtual para todos, tanto pessoas sem deficiência quanto aquelas com deficiência visual, auditiva e com mobilidade reduzida. Aberta em 18 de janeiro, a mostra Presença na Ausência está em cartaz até 18 de junho em um site. Durante o processo de construção da exposição, quatro consultores cegos orientaram a equipe, questionando o uso de certas palavras e apontando lacunas que, para a equipe de pessoas videntes, passavam despercebidas.

A dupla de organizadoras reconhece a importância de eventos e produtos específicos para pessoas com deficiência, mas afirma que muitos não deixam de ser uma forma de segregar. “Boa parte dos espaços oferecem entradas alternativas para cadeirantes, e não pela porta principal. Isso também é uma forma de exclusão”, afirma France. “O que a gente tem que buscar é o princípio do design universal, que um produto possa ser usado por todos”, completa Sheisa.

Dados e informações relevantes

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a cegueira afete 39 milhões pessoas no mundo. No guarda-chuva da “deficiência visual” também estão 246 milhões de pessoas que sofrem perda moderada ou severa da visão. No Brasil, o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) estima que 1,5 milhão de indivíduos sejam cegos, o equivalente a 0,75% da população. Os dados estão no documento “As Condições da Saúde Ocular no Brasil 2019”.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) segue outros critérios. Segundo o último censo demográfico, 45,6 milhões de brasileiros têm algum tipo de deficiência (23,91% da população). Os resultados são referentes a 2010 já que o censo de 2020 foi adiado para 2021 devido à pandemia. Entre as deficiências declaradas, a mais comum é a visual, que atinge 6,5 milhões ou 3,5% da população, incluindo 528 mil cegos e 6 milhões de pessoas com baixa visão (grande e permanente dificuldade de enxergar). Em seguida, estão as motoras (2,3%), intelectuais (1,4%) e auditivas (1,1%).

Algumas pessoas nascem cegas, o mais comum é perder a visão ao longo da vida. As principais causas são doenças que acometem, sobretudo, idosos: catarata, glaucoma e degeneração macular relacionada à idade. Com a deficiência visual, a maioria são erros de refração (miopia, astigmatismo, hipermetropia e presbiopia) não corrigidos, catarata e DMRI.

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