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O “Berço” individual e coletivo de João Pedro Cé

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O “Berço” individual e coletivo de João Pedro Cé João Pedro Cé. Foto: Josemar Afrovulto

Isolamento e trocas afetivas são dois componentes centrais do Berço construído pelo músico João Pedro Cé. A amálgama desses elementos, aparentemente contraditórios, resultou no primeiro trabalho solo do instrumentista e compositor, que também é guitarrista da banda Trabalhos Espaciais Manuais, integra o grupo de teatro Pretagô e atua como produtor musical.

“Tivemos que reorganizar as possibilidades de conexão com as amizades, amores e família. A intimidade não cessou com o distanciamento. Na verdade, ela foi intensificada. Nesse processo de trocar ideias, lidar com a saudade e estabelecer conexões, muitas reflexões interessantes surgiram”, conta João. 

João Pedro Cé. Foto: Josemar Afrovulto

O EP, lançado pela Tal e Tal Records e viabilizado pelo FAC Digital RS, revela uma sonoridade diversa, que mescla músicas instrumentais e versos recitados. Compostas pelo artista, as 12 faixas do disco incluem samples e áudios trocados entre João e amigos. Toda a parte técnica de gravação, captação, edição, mixagem e masterização foi realizada pelo músico ao longo de 2020. 

Berço também oferece uma versão audiovisual, disponível no YouTube. “Com os vídeos, acabei me relacionando com outros significados possíveis para as faixas”, conta o músico. “Trabalhar com a imagem me permitiu também ser mais explícito sobre os sentidos das narrativas propostas”, completa.

Quem assina a capa de Berço é o artista paulista Bruno Góes. “Nas nossas conversas, falei pra ele sobre a moisés-no-berço, ou abacaxi-roxo, planta ornamental que adora um sol pleno. Nasci e cresci numa casa que fica praticamente no meio do mato, e essa planta simbolizava esse momento de assumir um pouco mais meu ser artístico, independente dos vários projetos que participo. Uma planta que fica mais colorida no sol pleno, mas que também cresce à meia sombra”, reflete João. 

Capa de Berço, de João Pedro Cé. Arte: Bruno Góes

Leia a entrevista.

Você já falou nas redes sociais sobre a simbologia da planta moisés-no-berço, ilustrada na capa do EP. Gostaria que você comentasse essa busca individual e como ela ganha forma em Berço.

Berço é onde o artista embala seu primeiro filho e onde eu também embalo o nascimento desse ser artístico. Por mais que eu tenha um intenso trabalho vinculado a coletivos e outras pessoas, não tinha necessariamente um trabalho do qual eu pudesse dizer: isso é João Pedro Cé. Em 2020 comecei a morar sozinho, e o isolamento em função da pandemia intensificou essa solitude/solidão. Comecei a ter mais tempo para pensar e me dedicar aos delírios artísticos que sempre tive – acho que componho música desde os 13 anos de idade. 

Entre uma jardinagem e outra, fui amadurecendo as faixas, produzidas em abril, para o desafio #30dias30beats, quando levantei 23 composições de mais ou menos um minuto. Todas essas faixas eram acompanhadas de muita reflexão, pois abril foi o primeiro mês de distanciamento social, período em que mais fiquei sozinho com meus pensamentos, meditei muito, com muita yoga e exercícios de conexão com memórias e imagens internas.

Desde o início de 2020 já venho compondo mais, me permitindo experimentar outros locais artísticos internamente, e Berço concretiza um primeiro passo para eu colocar na roda uma persona artística “individualizada”. Coloco entre aspas, pois somos intrinsecamente coletivos. A humanidade depende de conexões entre pessoas, sobrevivemos porque formamos bandos. Óbvio que hoje as coletividades são mais complexas de a gente entender, mas ninguém vive feliz completamente isolado. E ironicamente, as faixas de Berço foram feitas todas por mim, tudinho, mas dentro de um desafio que envolve pessoas do Brasil inteiro, então foi uma obra criada como mote para a troca com outras pessoas, para me conectar com pessoas.

Qual sonoridade você buscou em Berço? Como foi o processo de criação das faixas?

Se eu fosse falar sobre um método de criação, creio que eu escolheria a dialogia, processo em que a obra também ganha voz. Quando criamos algo, essa criatura acaba tendo sua própria subjetividade. Não podemos simplesmente fazer o que queremos com a obra, ela coloca para nós os limites de sua própria criação. Ao mesmo tempo, se deixamos a postura aberta para o diálogo, as coisas mudam, e elementos que entram por último acabam mudando toda a concepção da faixa. A obra influencia o processo e o criador, e a recíproca pode ser verdadeira.

No campo da objetividade, quis explorar a relação entre coisas muito orgânicas, como tambores e percussão, com sintetizadores e samples retirados de pesquisas fonográficas/sonoras que faço há muito tempo. Uma lógica de beatmaker, mas que não soasse exatamente como um produtor de beats, pois as composições sempre têm melodias principais, “temas” rolando. Como eu estou numa onda de tocar menos guitarra e pensar mais canção, Berço foi um ensaio pra eu me conectar com isso, mesmo que o álbum não tenha canções na concepção formal do termo, entende?

Não foquei em apresentar um disco de guitarrista, quis focar na mixagem, na lapidação de timbres. Geralmente eu iniciava as faixas com a extração de algum trecho de alguma música que eu estava ouvindo ou que sempre quis fazer essa extração. Tentei buscar coisas inusitadas também. A faixa Mansão Celestial, por exemplo, iniciou como tentativa de fazer um lo-fi com algum looping de violão erudito brasileiro, especificamente do João Pernambuco. Daí, nas navegações infinitas da internet, encontrei a Nara Leão tocando Brasileirinho, desse mesmo compositor – na verdade é uma entrevista com o Hermínio Braga, onde ele pede pra ela tocar essa música. Um dia, uma amiga, a Marina Vaz Torres, me enviou um áudio sobre esse sonho que ela teve, e como o Hermínio fala em algum momento da entrevista a expressão “mansão celestial”, tive uma epifania e as coisas acabaram se encaixando. 

Em outras faixas eu só tava a fim de criar uma linha de baixo que eu achasse interessante e a partir daí pirar em coisas pra colocar em cima – O Processo foi assim. Gosto muito de gastar tempo criando uma base rítmica para daí criar melodias com sintetizadores ou mesmo com a guitarra – não posso negar a intimidade que tenho com esse instrumento também, né.

A cumbia de Chimarrão, por exemplo, foi deliberadamente uma criação de tema para guitarra, pois eu gosto de assumir essa escola musical de guitarra elétrica brasileira, vinculada à guitarrada paraense, portanto, a ritmos dançantes, com harmonias simples. Nesse caso, quis estabelecer um diálogo entre elementos da música gaúcha (melodias em terças e violão meio milongón/vanerão) com melodias da guitarrada paraense, cumbia e psicodelia. Esse EP tem uma sonoridade diversificada, pois quis me relacionar com diferentes formas de encarar a música, experimentando e errando, num indo e vindo infinito (risos). 

Nos conta um pouco mais sobre as participações do EP e a inserção de mensagens de áudio nas faixas.

Essas participações foram todas realizadas de forma espontânea e sem planejamento. Não convidei as pessoas para produzirem áudios para as faixas. Eu amo mandar áudios no zap, acho que nos aproxima e dá outro tom pra conversa. Quantas vezes a gente escreve e as pessoas leem com outra entonação e isso causa confusão – ou nós mesmos lemos coisas contaminados pelos nossos processos subjetivos? Daí, de tanto trocar áudios, eu acabava pensando que “Opa! Esse áudio vai dar bom, hein” e editava pra caber dentro da faixa.

Garganta do Futuro, com o Marcelo Martins Silva, foi esse processo. Ele me mandou um áudio com esse poema, e eu estava produzindo a faixa e tinha um sample que falava “Saudadeeee”. Outra epifania que eu acabei acolhendo, achei que dialogava com isso e pimba, coloquei ali.

A faixa Artista, eu também estava produzindo e o Kevin Brezolin me mandou um áudio. Quando terminei de ouvir eu fiquei “de cara”, achei que fechava muito com o peso da faixa, com aquele clima estranho paranóico que se apresentava, afinal a fala do Kevin também é sobre loucura e confusão, não só uma crítica ao sistema capitalista. Inserir essas mensagens de áudio é uma forma de sinalizar o EP como uma obra sobre conexão entre pessoas e também falar do nosso momento histórico, dessa nossa relação mediada sempre por aparelhos, que de alguma forma também nos agenciam ações e formas de relacionamento.

Você também tem usado a linguagem do vídeo, como no clipe Faceira e em outras criações mais experimentais. Como tem sido esse processo?

Os vídeos são um passo além na concepção do Berço. Com os vídeos, acabei me relacionando com outros significados possíveis para as faixas. Faceira, Cumbia do Chimarrão e Voltarei são os únicos que eu não editei/criei. Pessoas que foram me circulando no processo e se empolgaram com as faixas – e ideias que eu queria trabalhar nelas – abraçaram a produção dos vídeos.

Trabalhar com a imagem me permitiu também ser mais explícito sobre os sentidos das narrativas propostas. Em O Processo, que tem um áudio retirado do pronunciamento da ex-presidenta Dilma Rousseff, quando deposta, eu queria estabelecer um diálogo mais profundo entre essa grande injustiça que foi o golpe de Estado de 2016 e o papel dos conchavos e acordos que também permitiram a eleição do Lula e da Dilma, essa controvérsia da política institucional brasileira e o papel da branquitude nesse processo. Coisas que nas faixas de áudio ficam subentendidas, ou mesmo subliminares.

A maioria dos vídeos acaba jogando a narrativa pra esse lado mais politizado, algo que eu queria deixar mais explícito no EP, como um posicionamento no mundo, não apenas como uma obra gerada a partir da individualidade. Além dos vídeos, algumas faixas têm textos específicos, que estão publicados no Instagram e nas legendas dos vídeos no YouTube. Neles eu pude falar de outras coisas que atravessam a criação, como por exemplo o texto de Mansão Celestial, que fala da importância do delírio na construção de conhecimento.

Mais recentemente você lançou Cálculo, em parceria com Yannick Hara. Nos conta mais sobre esse single e essa parceria.

Cálculo surgiu de muitas trocas com Ariele Rodrigues – cantora de quem fiz a produção de algumas músicas em 2020 –, mas ainda faltava alguma coisa. Quando ouvi o som do Yannick Hara, achei que ele pudesse ser esse artista, pois percebi que ele trabalha muito bem conceitos. Conversamos um tempo, e ele conseguiu fazer algo muito interessante. O conceito de cálculo como representativo do sistema capitalista me conectou diretamente com a Estamira Gomes de Souza, uma mulher que trabalhava e vivia próxima a um lixão em Gramacho (RJ). Estamira ficou famosa pois foi documentada pelo Marco Prado, e conheci esse documentário na minha formação acadêmica como psicólogo. Estamira é de uma lucidez poética inigualável, realizando análises muito afiadas sobre a condição humana frente ao capitalismo, ao “controle remoto”, como ela chama algumas vezes. Então, acabei colocando ela para sublinhar o quanto o “cálculo” nos desumaniza, nos numerifica, viramos estatísticas de um sistema faminto por carne humana.

Por fim, quais são os teus planos em projetos individuais e coletivos nesse verão, diante desse contexto ainda incerto da pandemia?

Teremos a estreia da mais jovem dupla não-sertaneja do Brasil: João Pedro & Abelardo, com o single Vem me Curar. Essa parceria é bem bacana, com o músico e produtor Diego Abelardo. Uma canção divertida sobre a falta que faz um cafuné na vida da pessoa. Em janeiro sai outro single do qual fiz a produção musical, com a Ianaê Régia, chamado Edredom

O Pretagô estará com uma programação intensa em janeiro/fevereiro, com a mostra VERAFRO, com oficinas e performances. Eu farei uma oficina com os outros músicos do grupo sobre trilha sonora para cena. No verão ainda pretendo finalizar um single meu, intitulado Deusa do Acaso, sobre a famigerada paixão à primeira vista. Também vou fazer um videoclipe, mas esse single creio que sai só em março mesmo. 

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