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Cine Esquema Novo explora o streaming

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Cine Esquema Novo explora o streaming O artista convidado Welket Bungué em cena de "Mudança". Foto: Divulgação CEN

Um dos projetos culturais mais longevos de Porto Alegre, o Cine Esquema Novo – Arte Audiovisual Brasileira (CEN) é conhecido por explorar a pluralidade das imagens sonoras em movimento. A cada edição, o festival reúne manifestações oriundas de diferentes campos: do cinema às artes visuais, passando pela performance e pelas projeções em espaços urbanos. Diante de mais um ano de pandemia, os organizadores do CEN colocaram o foco experimental a serviço do próprio formato do evento, que em 2021 acontece totalmente online e gratuito, de 10 a 15 de abril, viabilizado pela Lei Aldir Blanc.

“Foi desafiador reformular uma lógica de produção que já estava bem sedimentada”, conta Ramiro Azevedo, coordenador de programação do festival – confira a seguir a entrevista com ele e Jaqueline Beltrame, diretora e integrante da curadoria do festival, ambos sócios do CEN ao lado de Alisson Avila e Gustavo Spolidoro. O desafio persiste desde o primeiro ano da pandemia, quando o festival optou por uma proposta mais enxuta, o Cine Esquema Novo de Janelas Abertas, realizado em dezembro de 2020, com projeções em 16 cidades de 10 países – um formato que evitava aglomerações e salas fechadas.

“Em 2021, nossa preocupação segue a mesma. Em nenhum momento consideramos fazer um projeto presencial. Mais uma vez, as projeções surgem para fazermos algo para fora das janelas e das nossas casas, sem que as pessoas precisem estar juntas”, explica Beltrame, fazendo menção às projeções que acontecerão em quatro locais de Porto Alegre, com imagens de performances dos slammers Bia Machado, Bruno Negrão, Jamile e Jovem Preto Rei.

As projeções, com curadoria da poeta e MC Tiatã e intervenção da VJ Janaína Castoldi (VJana), serão exibidas no sábado (10/4), às 20h, e transmitidas nas redes sociais do Cine Esquema Novo.

Dentro de casa, o público poderá assistir por streaming, no site do festival, em qualquer horário dos seis dias de evento, a 49 obras divididas em três mostras: Competitiva Brasil, Outros Esquemas e Artista Convidado Welket Bungué – criador transdisciplinar nascido em Guiné Bissau.

Entre os filmes em exibição de Bungué, três estreiam no Cine Esquema Novo: cacheu Cuntum, sobre o primeiro porto de partida de escravizados da Guiné Bissau para o continente americano – em première internacional; e as estreias nacionais de Bustagate, documentário sobre violência policial em Lisboa, e Mudança, recentemente exibido na mostra Forum Expanded, da 71ª Berlinale.

Uma novidade da edição deste ano – pensada para manter o espírito de uma experiência que vá além da exibição das obras em si – é o Caderno de Artista. O site do festival reúne conteúdos dos participantes da Mostra Competitiva Brasil com o objetivo de proporcionar uma imersão no universo criativo de cada artista.

A ampla programação do evento contempla também o seminário Pensar a Imagem – com o tema Repertórios e afetos: espectatorialidades e olhares opositores e curadoria da pesquisadora Gabriela Almeida – e ainda quatro oficinas: três delas em parceria com o Macumba Lab, coletivo de profissionais negros do audiovisual gaúcho, e o projeto Câmera Causa, dos realizadores Gustavo Spolidoro e Lucas Heitor.

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Somam-se a Gustavo Spolidoro e Jaqueline Beltrame na curadoria do 14º Cine Esquema Novo o artista visual Dirnei Prates e o realizador Vinícius Lopes. O júri da Mostra Competitiva Brasil é formado pela curadora Fernanda Brenner, pela documentarista Flávia Guerra, pela realizadora Graciela Guarani e pela cantora Linn da Quebrada.

A programação completa das mostras e demais iniciativas do festival podem ser consultadas no site do Cine Esquema Novo.

Confira a entrevista com Jaqueline Beltrame, diretora do festival e curadora, e Ramiro Azevedo, coordenador de programação do festival.

Como foi pensar a edição deste ano em meio à pandemia?

Ramiro Azevedo: A concepção do festival online foi imposta pela pandemia e pelo edital da Lei Aldir Blanc, que financia esta edição. Foi desafiador reformular uma lógica de produção que já estava bem sedimentada no núcleo de sócios do festival. A receita do bolo estava pronta e vínhamos aprimorando-a ano a ano, acrescentando detalhes e novidades. Na hora de pensar online, em meados de 2020, já tínhamos acompanhado alguns festivais. Identificamos algumas questões e fizemos uma pesquisa sobre formatos de exibição, plataformas, fazer isso no nosso site ou fora e como bloquear acesso por localização – impedindo o acesso de IPs de fora do país, uma estratégia de divulgação que é importante para filmes que estão começando a circular. Além da parte tecnológica, pensamos em como trazer novidades, algo que a gente sempre busca. Aí surgiu o Caderno de Artista.

Falem um pouco mais sobre essa iniciativa.

Jaqueline Beltrame: Surgiu nessa edição do CEN para poder gerar essa experiência do audiovisual para além do filme. Quando é presencial, temos experiências diferentes: sala de cinema, videoinstalação, performance dentro e fora do cinema, projeções urbanas… No online não teríamos tudo isso. Cada caderno é composto por conteúdos que os artistas nos forneceram. É uma experiência única de acesso a todo esse universo de criação de cada artista, de se aprofundar nesses processos individuais. O que a gente espera é que realmente seja uma fonte de pesquisa para o público – para aquela curiosidade de saber mais sobre referências, outros trabalhos, de onde surgiu aquele projeto…

Gostaria que vocês comentassem a composição da equipe curatorial, com a entrada do Dirnei Prates e novamente com a participação do Vinicius Lopes.

Jaqueline Beltrame: Uns anos atrás, a equipe curatorial era formada ainda pelos sócios do CEN. O Alisson saiu do grupo de curadores da Mostra Competitiva, e sentimos a necessidade de convidar alguma pessoa em que a gente identificasse o mesmo diálogo audiovisual que temos com as obras, esse mesmo olhar para filmes com narrativas diferentes, que usem experimentações em suas linguagens – não necessariamente experimentais, mas filmes que experimentam algo diferente. Convidamos o Vinicius Lopes, que já tinha trabalhado com a gente numa edição anterior e exibido filmes na mostra – ele integra o grupo curatorial pela 3ª edição.

Convidamos também o Dirnei Prates, que é artista visual e já teve obras exibidas no CEN, para a curadoria da Mostra Competitiva Brasil. Buscávamos alguém com olhar das artes porque nesse grupo de curadores eu era a única pessoa ligada às artes visuais. Desde 2019 temos acesso a filmes dele. Isso é algo a se destacar quando falamos de curadores convidados que não são sócios do CEN, são pessoas com trabalhos autorais que nós acompanhamos.

Como surgiu o convite a Welket Bungué para uma mostra individual?

Jaqueline Beltrame: Acompanhamos há alguns anos o trabalho do Welket Bungué. Em 2020, ele estava na Berlinale com Berlin Alexanderplatz, tendo muito destaque internacional como ator, mas a gente já acompanhava o trabalho dele como realizador e autor desde 2019, quando exibimos dois trabalhos realizados por ele. Ficamos muito impactados com a força da presença dele e o diálogo com a câmera, algo muito natural e com expressão corporal muito intensa, trazendo questões políticas e sociais, usando o corpo como ferramenta. Começamos a conhecer mais sobre o universo dele e ficamos muito surpresos com tudo que ele produz. Ele é um artista transdisciplinar que produz muito.

No ano passado, entramos em contato, ele enviou alguns filmes, e percebemos que gostaríamos de uma mostra especial tendo ele como artista convidado. Ele representa muito essas várias vertentes do audiovisual, que pode ser um filme mais experimental, com performance, questões políticas… Fica muito clara essa diversidade, essa eterna busca e pesquisa do fazer audiovisual.

As projeções na cidade foram um caminho que vocês encontraram para marcar presença com o CEN em 2020. Como foi essa experiência e de que forma ela se reflete com as projeções que serão realizadas neste ano?

Jaqueline Beltrame: Em 2020 a gente não quis fazer o CEN simplesmente transpondo uma lógica de mostras e sessões para o ambiente digital. Não tínhamos elaborado ainda como seria esse formato de uma experiência audiovisual diferente no online, que é o CEN deste ano. Em 2020, as únicas atividades possíveis eram as projeções urbanas, por não ter aglomeração. Era também algo que podíamos fazer a partir de contatos pessoais, chegando a uma rede de projecionistas em várias cidades e países.

Em 2021, nossa preocupação segue a mesma. Em nenhum momento consideramos fazer um projeto presencial. Mais uma vez, as projeções surgem para fazermos algo para fora das janelas e das nossas casas, sem que as pessoas precisem estar juntas. Também queríamos trabalhar com slam, já que estavam registrados como audiovisual. Veio essa ideia de juntar a vontade de exibir vídeos de slam com as projeções urbanas.

Outra novidade desta edição são as oficinas com o Macumba LAB. Como se deu essa parceria e qual o objetivo dessa proposta?

Ramiro Azevedo: A parceria com o Macumba Lab começou a ser construída ainda em 2020. Acompanhávamos o surgimento do coletivo antes disso, identificávamos uma ação muito positiva para o audiovisual gaúcho e brasileiro. Fizemos uma aproximação com alguns membros e, aos poucos, fomos afinando essa conversa, achando pontos de confluência, e assim surgiram espaços de intersecção. É um primeiro passo de uma troca. Nos sentimos motivados a trazer essa parceria de uma forma que ajudasse a todos, para ampliar a diversidade no cenário audiovisual gaúcho e brasileiro e, de alguma forma, tentar somar forças às iniciativas do Macumba Lab.

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