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“Livro Verde” convida à imersão na floresta ficcional de Michel Zózimo

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“Livro Verde” convida à imersão na floresta ficcional de Michel Zózimo "Embrionários", de Michel Zózimo. Foto: VivaFoto

Inaugurada na última terça-feira (2/7), no Instituto Ling, a exposição Livro Verde, do artista Michel Zózimo, convida o visitante à imersão em uma densa floresta ficcional, na qual seres e paisagens se confundem nas cores e formas de 15 desenhos, uma colagem e um livro.

A partir de poucos elementos, a expografia da mostra remete a um ambiente de estudos, com uma mesa de leitura acolhendo o livro de artista que integra a exposição e o revestimento marrom das paredes, até a altura de aproximadamente 1 metro do chão, inspirada em salas de aula dos anos 1960 e 1970. Em conjunto com os desenhos – feitos em lápis aquarela e nanquim sobre papel algodão – e a colagem de recortes de enciclopédias, o espaço se torna uma espécie de portal para a poética do artista.

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Foto: Maciel Goelzer

“Usei como referência imagens das enciclopédias Conhecer, Barsa, Delta e Britânica. Depois inseri animais de amigos, a partir de fotos. Na pandemia, comecei a desenhar as minhas plantas”, conta Zózimo, que chega a levar seis meses para concluir desenhos de tamanho médio, como os expostos no Ling – todos apresentados pela primeira vez ao público.

Foto: VivaFoto

“A técnica dos desenhos é mais antiga, remete a de ilustradores viajantes e tenta reproduzir as retículas de livros dos anos 1950 e 1960. O acúmulo de pontos de nanquim preto sobre o lápis cria volume”, descreve o artista, citando ainda a estética da tatuagem tebori, de origem japonesa, como referência.

O pontilhado mencionado por Zózimo é fruto de horas consecutivas de batidas com pontas de caneta nanquim, de diferentes espessuras, sobre áreas preenchidas por cores de lápis aquarelados. “Um tempo atrás, acordei de madrugada achando que estavam batendo na porta de casa. Mas o tã-tã-tã-tã era na minha cabeça, em função das batidas, recorda o artista, que chegou a sentir incômodos na mão por conta dos movimentos repetitivos. “É quase um processo de meditação, de transe, que eu acesso através do desenho.”

Foto: VivaFoto

A combinação de pontos, cores e formas dos desenhos de Livro Verde estabelecem diálogo com as pinturas de Jaider Esbell (1979 – 2021), com quem Zózimo planejava se encontrar pouco antes da morte do artista Makuxi: “O Jaider é uma referência muito importante. O trabalho dele tem algo de mágico, do fantástico dado pelo natural, mas da perspectiva de um indígena, que acessa coisas que a gente não acessa”.

Na estética de Zózimo, segundo a curadora da mostra, Gabriela Motta, as imagens naturalistas das enciclopédias “são lidas, destrinchadas pelo artista até transformarem-se em bestiários, estes sim mais próximos da complexidade da vida”. Motta faz menção às criaturas de publicações que se difundiram na Idade Média em que se dava “uma espécie de classificação indiferenciada entre o que existe e o que não existe”, conforme a definição da curadora no texto que apresenta a exposição.

“O desenho abismal de Michel Zózimo engendra um espaço antes do tempo, onde um animal habita o outro, um olho de cavalo sai de uma folha, um sorriso surge no escuro da mata”, descreve Motta, chamando atenção para a indistinção frequente entre figuras e fundos nos desenhos do artista. “Esses trabalhos parecem vindos do avesso de um livro raro, onde o desenho não se separa da mão que o fez, e o olho que vê é o corpo inteiro”, completa a curadora.

Foto: VivaFoto

O olhar pelo avesso, apontado por Motta, diz respeito também ao modo como Zózimo busca o que há de artístico em ilustrações científicas. “Não são desenhos fidedignos do real, eles ressaltam as características principais do objeto retratado”, afirma o artista, que se entrega ao desenho sem saber onde vai parar.

“Começo fazendo um bicho, um ser, uma planta, e a partir dali faço outro elemento. Não sei muito bem como vou finalizar. Assim como uso referências desses bichos e plantas, também faço de memória”, conta o artista, que nasceu em 1977, em Santa Maria, é doutor em Artes Visuais pela UFRGS e professor do Colégio de Aplicação da UFRGS.

Além dos 15 desenhos e do livro de artista, a exposição apresenta a obra Embrionários, uma colagem feita a partir de centenas de recortes – de animais, plantas e uma infinidade de seres – retirados de 25 volumes de uma enciclopédia. “O processo de colagem e justaposição dos indivíduos de papel organiza-se como uma trama indistinta e inviolável. Um caramujo desliza de trás de uma folha, um colibri farfalha as asas para voar, um guaxinim espia entre aves. Ao mesmo tempo que tudo vira uma coisa só, as finas antenas, a pena de uma asa, uma folha dentada, elas nos lembram da sua condição de papel”, descreve a curadora.

“Embrionários”, de Michel Zózimo. Foto: VivaFoto

No dia 19 de agosto, às 19h, no auditório do Instituto Ling, o catálogo de Livro Verde será lançado, com distribuição gratuita, em uma conversa do público com Michel Zózimo e Gabriela Motta. As inscrições para participar do bate-papo estão abertas no site do centro cultural.

Exposição “Livro Verde”, de Michel Zózimo – curadoria de Gabriela Motta
Onde: Instituto Ling (Rua João Caetano, 440 – Três Figueiras – Porto Alegre)
Visitação: até 11 de outubro de 2024
Horários: de segunda a sábado (exceto feriados), das 10h30 às 20h
Entrada franca

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