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Interesse pela ciência move museus mais visitados do interior do RS

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Interesse pela ciência move museus mais visitados do interior do RS Museu Oceanográfico. Foto: FURG/Divulgação

As cinco instituições com maior público fora de Porto Alegre promovem o estudo de exemplares de plantas, animais e até de antepassados dos humanos. Mas enquanto os mais populares contam com apoio técnico e financeiros de universidades, em Taquara jaz abandonada uma das maiores coleções arqueológicas do Brasil

Antes que o coronavírus direcionasse nosso olhar de forma permanente para a ciência, cinco museus do interior do estado conseguiram se tornar campeões de visitação explorando a pesquisa, o conhecimento e a história natural do Rio Grande do Sul. É o que mostra o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) em seu mais recente levantamento de dados sobre visitação de instituições, que abrange o ano de 2019. As estatísticas de 2020 estão sendo contabilizadas e serão divulgadas no final do primeiro semestre.

Em número de frequentadores, quatro museus universitários e um jardim botânico estão no “top 5” do interior, à frente inclusive do famoso Museu das Missões. No ranking geral do Rio Grande do Sul, eles só perdem para o trio de campeões da Capital: Museu da PUCRS, MARGS e Museu Militar. Nós contamos a história dessas instituições em fevereiro.

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Essas cinco instituições estão bem distribuídas pelo mapa do estado. Há museus populares no norte, no extremo sul e na serra. E o cardápio de atrações que oferecem é bem variado, tendo a temática científica em comum.

Em Passo Fundo, está o Museu Zoobotânico Augusto Ruschi, mais conhecido como Muzar, ligado à Universidade de Passo Fundo (UPF) – o número um em público no interior do estado. A cidade de Rio Grande faz jus à sua atividade portuária e à missão da Furg de dedicar-se aos estudos marítimos colocando o Museu Oceanográfico e o Museu Náutico na segunda e quarta posição, respectivamente. Na terceira colocação está o Jardim Botânico de Lajeado, mantido pela prefeitura municipal, e em quinto, o Museu Antropológico Diretor Pestana, vinculado à Unijuí.

Se os dados de visitação do Ibram são um alento em tempos de negacionismo, eles contrastam com o fato de um dos maiores acervos arqueológicos do Brasil estar fechado à visitação desde 2009. A penúria do Museu Arqueológico do Rio Grande do Sul, em Taquara, é tanta que a construção do único banheiro da sede foi a grande vitória dos últimos anos.

Graças ao coronavírus, entretanto, todos os museus estão de portas fechadas neste momento – e os campeões de público no interior redobram a aposta na internet para manter aceso o interesse por seus acervos.

Um museu que vai até o público 

Foto: Muzar / Divulgação

Com 45.252 visitantes em 2019, o Museu Zoobotânico Augusto Ruschi (Muzar), é o mais visitado do interior do estado e o quarto no ranking geral do Rio Grande do Sul. Mais de dois terços dos frequentadores do Muzar, no entanto, não foram até as dependências do museu no campus da UPF, que o mantém. “Fazemos muitas atividades externas”, esclarece Flávia Biondo da Silva, bióloga técnica responsável pelo espaço.

O Muzar é um museu “rueiro”. Participa de todo tipo de evento, como festas municipais e feiras literárias. Monta seu estande inclusive em grandes exposições agropecuárias, como a Expodireto Cotrijal, que atrai milhões de pessoas a Não-Me-Toque. Outro trunfo para atrair atenção são as visitas às escolas – que como todas as outras atividades tiveram que ser interrompidas por causa da pandemia. “Estas estratégias sempre foram um dos pilares do nosso contato com a comunidade. Entendemos que o museu é a porta de entrada e um dos cartões postais da universidade”, explica Silva, que contava com a retomada das atividades em março, mas viu os planos serem cancelados com o recrudescimento da pandemia.

A principal atração do Muzar, no entanto, sempre esteve reservada para quem se dispõe a comparecer à sede da instituição: a Trilha Perceptiva, um caminho construído dentro de uma das salas do museu, que o visitante percorre de pés descalços e olhos vendados. Ao longo do trajeto, as pessoas são convidadas a explorar sentidos que normalmente ficam em segundo plano nesse tipo de atividade. O tato permite descobrir detalhes da textura de plantas e pedras, ou sentir o tipo de solo em que se está pisando. Também há sons da natureza reproduzidos no ambiente que despertam a audição – caso do ruído de água corrente. “Museus normalmente instruem as pessoas para que não toquem nos materiais. A trilha veio quebrar esse paradigma. A ideia é ampliar a percepção dos visitantes e fazê-los pensar em coisas do seu dia a dia, na relação deles com a natureza”, explica a bióloga.

O museu completou 45 anos em agosto do ano passado, durante a pandemia. Para compensar o período de isolamento, o site da instituição ganhou maior relevância e agora abriga a exposição Toxinas da Natureza, que ensina sobre plantas venenosas e animais peçonhentos.

A maior coleção de conchas da América do Sul

Logo atrás do Muzar em número de visitantes – com público total de 40.272 pessoas em 2019 – está uma instituição com uma fórmula bem diferente para atrair atenções: manter-se próximo de sua razão de ser, as águas onde a Lagoa dos Patos encontra o Oceano Atlântico.

O Museu Oceanográfico de Rio Grande guarda tesouros do fundo do mar, como a maior coleção de conchas da América do Sul, com 51 mil lotes. Há recriações do ambiente marinho feitas em instalações em tamanho real, em painéis e maquetes – tudo para contar como são a vida e as dinâmicas dos oceanos. Mas para as crianças – e alguns adultos também – o ponto alto do passeio é observar os animais que estão sob os cuidados da equipe nos tanques do Centro de Recuperação de Animais Marinhos. “Aqui é um hospital de guerra, recuperamos os animais e, assim que eles estão em condições, são reconduzidos ao mar”, explica Lauro Barcellos, diretor do Complexo de Museus da Universidade Federal de Rio Grande – relembre a entrevista concedida pelo pesquisador à revista Parêntese.

Museu Oceanográfico. Foto: FURG / Divulgação

A história da instituição se confunde com a da disciplina que ela hoje fomenta: “Foi no Museu Oceanográfico que nasceu a oceanografia gaúcha”, resume o diretor.

Na verdade, a instituição é o berço nacional dessa vertente de estudos. O pesquisador Eliézer de Carvalho Rios – que empresta seu nome ao museu – ao lado de Boaventura Nogueira Barcellos criou em 1953 um grupo de estudos dedicado a compreender o mar. Este seria o embrião do primeiro curso de oceanografia do Brasil, e do próprio Museu Oceanográfico, que 20 anos depois seria trasladado para o prédio às margens do canal do estuário da Laguna dos Patos, onde se mantém até hoje.

O compromisso com o estudo do mar e o desejo de envolver a comunidade com esse conhecimento foram abraçados pela universidade – e essa prioridade ficou expressa inclusive no regimento da instituição de ensino. Por isso, não surpreende que também as iniciativas museológicas tenham se multiplicado dentro da Furg, dando origem a um complexo de museus, que, além do Oceanográfico, inclui o Eco Museu da Ilha da Pólvora, o Museu Antártico e o Museu Náutico – que segundo o Ibram é o sétimo mais visitado do estado (o quarto, no interior), com 29.194 visitantes em 2019.

Museu da Ilha da Pólvora. Foto: FURG / DIvulgação

Suporte universitário é garantia de sobrevivência

Dos cinco museus mais visitados no interior do estado, quatro estão ligados a universidades. Além do Muzar e das duas instituições de Rio Grande, a lista inclui o Museu Antropológico Diretor Pestana, de Ijuí, vinculado à Unijuí, que recebeu 27.412 visitantes em 2019.

A relação com as universidades vai muito além do suporte financeiro, garantindo também a excelência da equipe técnica. “Tenho biólogos, oceanógrafos, historiadores, todos ligados à universidade. Os museus também são centros de pesquisa, estão totalmente conectados à Furg”, conta Barcellos.

No Muzar, a relação com o corpo acadêmico da UPF é de duas vias. Por um lado, os alunos e pesquisadores mantêm o acervo de 37 mil peças em contínua expansão, já que o museu fica responsável por guardar as peças e amostras coletadas em seus trabalhos de campo. Ao mesmo tempo, o Muzar subsidia as pesquisas acadêmicas dando acesso a coleções de animais, plantas, fósseis, rochas e minerais. “Um complementa o outro, e nosso desafio na montagem da exposição é tornar o conhecimento técnico e científico o mais acessível possível a toda população”, explica Flávia Biondo da Silva.

A solidão de Zé

Área deteriorada do antigo espaço de exposição do Marsul. Foto: Antônio Soares

Para quem não conta com o apoio de uma instituição de ensino superior, entretanto, a vida pode ser bem mais difícil – a ponto de um banheiro ser considerado uma vitória. A instalação de um sanitário foi uma das primeiras providências tomadas por Antônio Soares quando assumiu a direção do Museu Arqueológico do Rio Grande do Sul, em 2015. “Os banheiros estavam interditados pelas péssimas condições”, conta o diretor, que só conseguiu o recurso para a obra dois anos depois de sua posse.

O Marsul, como o museu é chamado, está localizado no interior do município de Taquara. A instituição guarda uma das mais importantes coleções arqueológicas do Rio Grande do Sul, que atrai pesquisadores de outras partes do Brasil e mesmo do mundo. “Temos um acervo qualificadíssimo. Infelizmente, depois do incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro, passamos a ser um dos maiores do país”, explica Soares, comparando sua coleção com a da Universidade de São Paulo, do Museu Goeldi e do Museu Paranaense.

Reserva técnica do Marsul. Foto: Antônio Soares

O museu também guarda uma figura famosa nacionalmente: o Zé, o único esqueleto inteiro do acervo do Marsul, que já ganhou até reconstituição facial, feita pelo designer 3D Cicero Moraes. O esqueleto foi encontrado no município de Maquiné e exumado em 1961. Embora não se saiba ainda em qual período viveu, um estudo do arqueólogo e antropólogo da Universidade de São Paulo, Walter Neves, concluiu que Zé provavelmente é descendente de Luzia, a dona do crânio que é o fóssil mais antigo do Brasil – afortunadamente recuperado dos escombros do Museu Nacional do Rio de Janeiro após o incêndio de 2018. “É um povo que está entre os primeiros habitantes da América”, vibra o diretor do Marsul.

Apesar do nome despretensioso com que foi batizado, os estudos indicam que Zé foi um homem importante: “Foi sepultado em uma gruta, em um grande arranjo de pedras. Ou seja, um sepultamento cuidadoso. Ele também tinha uma clavícula e vértebras quebradas e calcificadas, o que indica que teve uma briga ou uma queda e ficou imobilizado por muito tempo – e o grupo cuidou dele. Viveu até aos 45 anos mais ou menos, o que era muito para a época. Isso tudo indica que era um ancião muito importante dentro do grupo”, explica Soares.

Há mais de dez anos, no entanto, o Zé tem sido visitado apenas por pesquisadores, já que o Marsul está fechado ao público desde 2009. Enquanto não consegue reabrir as portas, a instituição costura um convênio com a Universidade de Copenhague, na Dinamarca, para que pesquisadores de lá possam analisar os fósseis dos humanos que habitavam o Rio Grande do Sul antes da colonização. Entre os objetivos, está entender quais vírus acometiam os seres humanos naquela época – e datar com precisão as datas em que Zé caminhava pelo nosso território.

Governo estadual retomou prédio em 2015

O Marsul fechou as portas depois que um convênio transferiu a gestão do espaço do governo do estado para a prefeitura de Taquara. Na época, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a comunidade científica reagiram, argumentando que a administração municipal não tinha uma equipe qualificada para cuidar do acervo. A situação foi parcialmente revertida em 2015, depois que o Ministério Público Federal constatou que o acervo corria sérios riscos pelas péssimas condições de conservação.

Desde então, o governo do estado reassumiu o controle do prédio principal do museu, enquanto um edifício menor, no mesmo terreno, segue em disputa com o município, que instalou ali o Museu Histórico Municipal Adelmo Trott.

Ao assumir a direção do Marsul, Soares encontrou um prédio cheio de infiltrações, sem banheiro, e com um sistema elétrico defasado. Em 2017 foram feitas reformas emergenciais. Sem espaço suficiente, diretor, secretária, secretária, estagiárias e o funcionário da limpeza se instalaram em uma mesma sala, dividindo espaço com a biblioteca e a sala de reuniões. Na falta de lugar melhor, uma vasilha que tem entre 400 e 700 anos de história, usada com urna funerária pelos tupi-guarani, foi postada junto da mesa do diretor. “Estamos apertadíssimos, e a vasilha tem um metro e meio de altura por uns 60 centímetros de diâmetro. Eu deixo ela bem do meu ladinho, para ninguém chegar perto sem autorização. Foi uma vasilha restaurada pelo fundador do Marsul, Eurico Miller”, explica Soares.

Para acomodar corpo técnico e acervo adequadamente, seria preciso requisitar o edifício anexo à prefeitura de Taquara. “Desde 2015 eles dizem que vão sair em 90 dias, mas não saem nunca”, reclama Soares. As instalações permitiram inclusive montar uma exposição modesta no prédio menor enquanto se dá sequência às obras no prédio principal. “Fazer reformas com o acervo exposto é colocar as peças em risco, com a circulação de operários que não têm o conhecimento necessário para manusear uma peça arqueológica”, alerta o diretor.

Em outubro do ano passado, a Procuradoria-Geral do Estado (PGE) ajuizou uma ação de reintegração de posse do prédio auxiliar. A liminar foi indeferida, mas segundo a PGE a decisão poderá ser revista após a manifestação do município. A prefeitura de Taquara não respondeu ao Matinal.

Abandono coloca acervos em risco

A Secretaria de Estado da Cultura (Sedac) é responsável por nove museus no Rio Grande do Sul – quatro no interior e cinco na capital –, e não faltam exemplos de precariedade como o do Marsul. O Museu Histórico Farroupilha, de Piratini, que entre outras peças abriga objetos pessoais do general Bento Gonçalves, estava às escuras quando Eduardo Hahn, assessor especial de Memória e Patrimônio da pasta, assumiu. Graças aos recursos de uma emenda parlamentar e de um fundo do Ministério Público, foi possível reformar a rede elétrica e o mobiliário. Uma exposição provisória foi montada e está pronta para receber os visitantes, assim que a região sair da bandeira preta imposta pelo avanço da pandemia.

“Nesses últimos dois anos, temos conseguido aplicar recursos em todas essas instituições para melhorar a situação estrutural. Mas como tem muitos problemas, precisaríamos de muito mais dinheiro para colocar todos em uma situação ideal. E o estado não tem”, admite Hahn.

Diante da escassez de recursos, o foco tem sido apagar incêndios – às vezes, quase literalmente. Em Porto Alegre, o Museu Júlio de Castilhos, o mais antigo do estado, teve um curto-circuito no início de 2019 que quase provocou uma tragédia. O prédio teve que ficar três meses fechado para a reestruturação da rede elétrica. Uma das reservas técnicas – espaço dedicado às peças que não estão em exposição – foi removida do porão, que alagava nos dias de chuva. Também foram comprados novos móveis para a área de exposição. “Antes a maior parte do acervo ficava na reserva técnica, porque não tinha móveis expositores. Era um museu vazio. Agora estamos conseguindo colocar mais peças em exposição, o que claramente torna o museu mais interessante”, observa Hahn.


O Museu da Comunicação Hipólito José da Costa, que abriga um dos maiores acervos de periódicos do país, no Centro Histórico de Porto Alegre, chegou a ficar fechado até mesmo aos pesquisadores entre 2016 e 2017, devido às péssimas condições do prédio. Em 2018, as primeiras obras permitiram a retomada das exposições. Segundo Hahn, as reformas foram intensificadas pela atual gestão, e hoje o prédio não tem mais infiltrações. Para uma reestruturação completa, no entanto, serão necessários R$ 7 milhões, recurso que o estado tenta conseguir através do Fundo de Direitos Difusos do Ministério da Justiça.

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