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O inquietante “Desejo de Lacrar” de Negro Leo

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O inquietante “Desejo de Lacrar” de Negro Leo Foto: Divulgação ybmusic/QTV Label

Complexo, caótico, inquietante – também reflexivo, melódico e dançante – são adjetivos que emergem da escuta dos 29 minutos de Desejo de Lacrar, novo álbum de Negro Leo, maranhense de Pindaré Mirim, com passagem pelo Rio de Janeiro e atualmente radicado em São Paulo. Lançado nas plataformas digitais pelos selos ybmusic e QTV Label, o disco é o nono trabalho solo do cantor e compositor, conhecido por sua sonoridade inventiva e transgressora de fronteiras estéticas.

O álbum começa com a faixa-título, em que a voz distorcida e sufocada de Negro Leo desafia a atenção do ouvinte a compreender versos como Sou curso lento de grande rio/ Fluindo em volumes estacionários/ Sou quimera/ Inexoráveis primaveras/ De povos/ Contadas inúmeras vezes aos mais novos/ Cada gesto incompreensível/ Que se sabe dos vivos.

Na sequência, o errático e denso monólogo de abertura dá lugar a uma Dança Erradassa em que o rico universo sonoro do álbum ganha evidência.

A seguir, o desejo de lacrar do título é conjugado em primeira pessoa na faixa Eu Lacrei – e verbalizado novamente ao longo do disco em Absolutíssimo Lacrador e Tudo Foi Feito pra Gente Lacrar.

Insolência e revolta

O verbo “lacrar”, que na comunidade LGBTQ+ tem o sentido de “impressionar”, “arrebatar”, acabou migrando para o léxico dos embates políticos – em grande medida, virtuais –, definindo comportamentos e argumentações entendidos como definitivos e irrefutáveis. Celebrada por muitos, a contundência de atitudes e declarações “lacradoras” também é objeto de crítica, especialmente quando considerada pouco produtiva para aprofundar um determinado debate.

Esse termo em disputa é reivindicado por Negro Leo da seguinte forma: “Lacrar é agir de forma insolente e revoltada. Vencer, se não de fato, virtualmente. Lacrar, na verdade, é o que nos resta”. Suas reflexões em torno do “lacre” também assumem as formas de “pulsão lacradora” e “dispositivo lacrador”. Essa potência de ação difusa, segundo o artista, teve um exemplo emblemático de expressão, seguida de apropriação, nos protestos que tomaram as ruas do país em junho de 2013 – repercutindo até hoje.

“Houve uma captura da pulsão lacradora das jornadas, que foi canalizada pela direita ultraliberal escravocrata e resultou no lacrador negativo como chefe da nação em 2018. Não acredito em coisas boas ou más, prefiro pensar em termos de força e fraqueza. Inclusive, é inegável que os governos do PT, ‘lacrados’ à esquerda e à direita, são responsáveis pela emergência das pautas identitárias, e pelo encorajamento da pessoa humana em todo Brasil. Foi um momento de liberdade sancionada, foi uma época de brilho! Inacreditável que isso tenha terminado num presidente que toma copo de leite saudando a bandeira americana”, analisa Negro Leo.

O interesse por termos que se disseminam na cultura popular com múltiplos significados é uma característica da produção do compositor. Exemplo disso é Action Lekking, seu álbum anterior, eleito um dos melhores de 2017 pela Associação Paulista de Críticos de Arte. O disco explora a gíria carioca do “lek”, derivada da palavra “moleque”. Popularizado pelo funk Passinho do Volante (Ah lelek), de MC Federado & Os Leleks, o termo é entendido por Negro Leo como “a cultura de uma juventude empobrecida que dribla e resiste em cada situação com suingue e alegria”.

Sentidos camuflados

Em tempos de ministérios transformados em cabides de fardas, a capa de Desejo de Lacrar se apropria de um símbolo do militarismo: nela vemos um homem negro, agachado, vestindo um traje camuflado que se confunde com o entorno. A fotografia abre espaço para a imaginação em torno do personagem que nos interpela com o olhar – seria um militar, um guerrilheiro? – e para as questões que o álbum aborda.

“Eu sou pragmático, o sentido das coisas é o conjunto de suas consequências e efeitos práticos, um discurso produz seus efeitos. O disco vai circular na grande imprensa, num jornal impresso de grande circulação numa grande metrópole do país, como aconteceu no Estado de Minas e no Estadão. Eu não consigo imaginar a confusão mental que a imagem do militar e o argumento podem causar a um militar da reserva, leitor desse jornal, por exemplo”, reflete o cantor.

Desejo de Lacrar tem produção musical do baterista e produtor Sérgio Machado – que assina o projeto solo Plim e já gravou com Criolo e Metá Metá – e direção de Negro Leo. Sobre o significado do álbum em sua trajetória, o artista responde cultivando o lugar de questionamento e limites imprecisos que caracterizam sua produção artística: “Ainda não entendo, tenho que esperar uns meses pra ver o que ele tá fazendo no mundo”.

Clique aqui para escutar Desejo de Lacrar nas plataformas digitais.

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