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Recuperação de espaços municipais de cultura deve custar mais de R$ 5 milhões, estima secretaria

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Recuperação de espaços municipais de cultura deve custar mais de R$ 5 milhões, estima secretaria Teatro Renascença afetado pela enchente de maio. Foto: Ricardo Romanoff

A Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa (SMCEC) estima em pelo menos R$ 5 milhões o valor necessário para recuperar os espaços culturais geridos pela prefeitura que foram impactados pela enchente de maio. Devido à dimensão dos danos e à relevância para o trabalho da comunidade artística, o Centro Municipal de Cultura, Arte e Lazer Lupicínio Rodrigues (CMC), na avenida Erico Verissimo, é prioridade da prefeitura.

“Temos muita preocupação com a cadeia produtiva, fazer girar a roda da economia na cultura, atender os grupos e a comunidade artística para que possam trabalhar e se recuperar”, afirma o secretário da SMCEC, Eduardo Paim, que acompanhou a reportagem da Matinal em visita ao CMC. Ele destaca a possibilidade de cobrança de ingressos em parte dos eventos do espaço, fundamental diante da paralisação do setor no RS.

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Os espaços mais impactados do CMC foram o Teatro Renascença e seu subsolo. A água atingiu aproximadamente 1,20 metro na área entre palco e plateia e inundou oito fileiras de poltronas – contando a partir do palco –, carpete, cortinas e as pernas de um piano. Tábuas do palco também foram danificadas, além de todo o porão do teatro – com dois níveis que totalizam cerca de 5 metros de altura e abrigam subestação elétrica e caixa d’água. A previsão é de que nos próximos dias, com iluminação alimentada por gerador, seja concluída a limpeza do subsolo. Na parte superior, o mofo é evidente nas poltronas. Também se nota a ondulação de parte do palco.

Antes da enchente, conta Paim, a prefeitura estimava os custos de uma ampla reforma no Teatro Renascença em R$ 1,5 milhão. Hoje a secretaria parte desse número para a estimativa inicial de quanto custará a recuperação do teatro, já prevendo um montante maior devido às avarias e às dificuldades logísticas enfrentadas pelo estado. 

Para cobrir os mais de R$ 5 milhões da estimativa para a recuperação dos espaços culturais do município, Paim explica que a SMCEC busca parcerias com empresas para agilizar o processo, sem depender exclusivamente de licitações municipais. Além de recursos do município e doações, a secretaria dialoga com o governo estadual para possíveis aportes e tem a expectativa de usar emergencialmente valores já depositados da Política Nacional Aldir Blanc, que totalizam R$ 8,8 milhões, o que depende de autorização do governo federal.

O CMC, que chegou a funcionar como centro de triagem de desabrigados da enchente, teve que ser desocupado no dia 6 de maio, quando ruas da Cidade Baixa e do Menino Deus começaram a inundar – após o desligamento da Estação de Bombeamento de Água Pluvial 16 –, com orientação para evacuação imediata de quem estava alojado no espaço, voluntários e equipes da prefeitura. Nos porões, a água começou a invadir pelo solo, enquanto no Atelier Livre Xico Stockinger a inundação veio da avenida Ipiranga, segundo relatos da equipe da SMCEC. A primeira inspeção municipal ocorreu no dia seguinte à evacuação.

No porão da Biblioteca Pública Municipal Josué Guimarães, a entrada de água pelo piso já havia sido observada durante outras chuvas, mas de modo superficial, diz o coordenador de prédios públicos e culturais da SMCEC, Renato Wieniewski. Dessa vez, a inundação teve pico de 2,5 metros, inundando mobiliário, DVDs e cerca de 200 livros. Não foram impactados os materiais situados no térreo e mezanino, incluindo um acervo de cerca de 30 mil livros e as fichas de usuários, informa um relatório de 31 de maio do comitê criado pela SMCEC para coordenar a recuperação dos equipamentos culturais. O porão necessitará nova pintura e impermeabilização.

No Atelier Livre Xico Stockinger, a cheia provocou danos nas salas de escultura, cerâmica, xilogravura, litogravura, biblioteca e em espaços administrativos. O acervo histórico de vídeos e fotografias, computadores, arquivos, mobiliário e ferramentas foram comprometidos. Os fornos de cerâmica foram atingidos de modo superficial, sem danos elétricos. Vinte cursos regulares e 12 cursos extras, com cerca de 400 alunos, além de palestras, foram cancelados. Uma parceria com o Instituto de Cultura da PUCRS e outras instituições deve viabilizar o retorno de parte das aulas, diz o secretário da pasta.

“Para além da economia e do sustento da classe artística, para as outras pessoas a cultura é beleza, autoestima e saúde mental para sairmos desse estado de luto que a gente vive e que é natural, mas precisamos reagir para não cairmos numa grande depressão mental e econômica”, afirma Paim.

Como a Sala Álvaro Moreyra e o saguão do CMC não sofreram danos, assim como o térreo e mezanino da Biblioteca Josué Guimarães, situados em níveis mais altos, a SMCEC espera retomar atividades nesses espaços “o mais rápido possível, ainda esse ano”, segundo Paim, tão logo seja recuperado o abastecimento de água e luz.

No entanto, ainda não há previsão de reabertura do centro, especialmente do Teatro Renascença. A programação de editais de ocupação está sendo transferida para o Teatro Túlio Piva, atualmente administrado pela Opinião Produtora. Conforme o secretário, serão necessários ajustes para contemplar os espetáculos, já que a prefeitura responde por 50% da agenda do teatro – que sofreu danos na área entre palco e poltronas.

Veja a situação em outros espaços culturais geridos pela prefeitura

No Museu Joaquim Felizardo, na rua João Alfredo, parte significativa do acervo arqueológico foi afetado pela enchente. “No térreo, estavam cerca de 300 mil fragmentos arqueológicos que remontam à história da ocupação indígena anterior à colonização portuguesa, como louças, cerâmica, vidro, metal, couro e pedra. Parte disso ficou submerso”, informa o comitê da SMCEC, que trabalha em colaboração com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e outras instituições para o remanejo das peças alagadas. Segundo a secretaria, foram preservados 12 mil fotos e 1,5 mil objetos do acervo.

Conforme a Matinal mostrou semana passada, em reportagem sobre os espaços culturais do Centro Histórico de Porto Alegre, a Pinacoteca Aldo Locatelli, localizada no térreo do Paço Municipal, ficou a salvo do avanço das águas. Já o porão, que acolhe obras e exposições, inundou. A limpeza foi concluída e agora a prefeitura trabalha na reinstalação elétrica. Antes do alagamento, uma equipe do município retirou obras que estavam no local.

Permaneceram no espaço somente peças que não puderam ser removidas por conta do peso dos materiais: uma maquete em aço corten do Monumento aos Açorianos, de Carlos Tenius, três esculturas em bronze de Xico Stockinger e outras três em cimento de Vasco Prado. O técnico em cultura do município, Luiz Mariano Figueira, afirmou que será necessário limpar e realizar reparos nas obras, que não sofreram danos graves.

Em relação à Usina do Gasômetro – que, antes da enchente, tinha reabertura prevista para junho –, o secretário municipal de Obras e Infraestrutura, André Flores, relatou danos em banheiros, aberturas de portas, quadro elétrico e paredes. Os contratos com as duas empresas que realizam a reforma do centro cultural foram suspensos no começo da enchente. A secretaria solicitou às empresas um cronograma para reparos necessários e continuidade das obras. Eventos vinculados à Bienal do Mercosulsem previsão de nova data – e ao Noite dos Museusadiado para 14 de setembro – foram cancelados no Gasômetro.

A Casa Torelly, na avenida Independência, onde trabalham a Equipe de Patrimônio Histórico e Cultural (EPAHC) e a Direção de Patrimônio e Memória do Município, passa a acolher definitivamente a SMCEC, que atuava no Paço, e necessita de recuperação em todo o telhado, por conta das chuvas.

A Casa da Coordenação de Música, na rua da República, teve estragos no piso, mobiliário e em equipamentos. A Casa D, na rua Santa Terezinha, não teve prejuízos e abrigou 50 pessoas do Quilombo do Areal. A Pinacoteca Rubem Berta, o Arquivo Histórico Moysés Vellinho e a Casa de Cultura Plauto Cruz não sofreram danos, segundo a SMCEC.

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