Artigos | Marcelo Carneiro da Cunha | Série

O amor é um tipo de doença, só que outro tipo

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O amor é um tipo de doença, só que outro tipo Netflix/Divulgação

Lovesick já tem 10 anos, mas segue firme entre as minhas séries preferidas, por ser muito muito boa, e ainda por cima despretensiosa. Muitas séries são pretensiosas, estimados caros leitores, assim como quase todo o diretor de cinema que coloca nos créditos “Um filme de”, a não ser que ele seja o Scorsese ou o Kurosawa. Fica a observação.

Ela também segue na sua Netflix por todos estes anos, todas as três temporadas, à nossa disposição, e vale o seu tempo. E o curioso é que ela começou mal, com outro nome, e um relativo fracasso de público. O nome era Scrotal Recall, o que pode ser um dos piores títulos jamais pensados pra qualquer coisa sobre o planeta, se a gente pensa no assunto, e não chega a ser uma surpresa que a série tenha sido solenemente ignorada na época do seu primeiro lançamento pelo Channel 4, na Inglaterra.

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Acontece que alguém da Netflix resolveu olhar de perto e viu que a série era muito, muito legal, e que apenas sofria de falta de bom senso de quem a nomeou, e isso é bem mais facilmente corrigível do que outros problemas que o mundo do cinema nos traz. E, assim, fez-se a luz e Lovesick surgiu.

Basicamente, Lovesick é a história de um jovem romântico e sensível, Dylan, que de tão romântico e sensível acabou por contrair uma doença sexualmente transmissível, e agora recebe a missão dada pela médica do SUS inglês de ir atrás das suas últimas relações amorosas/sexuais para o agradável dever de contar para suas parceiras que, veja bem, ela foi muito especial e agora eles precisam tomar esse remedinho. Quem nunca?

Entre as muitas formas de ter essa conversa difícil com seus ex-amores, Dylan escolhe a alfabética, em particular por que uma das conversas mais difíceis deverá ser entre ele e uma moça chamada Tasha, que deve ter sido particularmente difícil, imaginamos. E assim vamos, pela estrada que leva Dylan a essas garotas, iniciando por Abigail e indo e indo.

A história acontece em Glasgow, na Escócia, que parece marcar o seu lugar no mundo pelo charme de suas ruas e falta de pessoas que aparecem por todo lado. O povo é tão branco (na maioria) e fisicamente desatraente que a gente tem a impressão de ver um grande encontro de flans humanos.

Mas, isso é apenas na aparência. Nas falas, nas ideias e nas ações, a série esbanja gente interessante, e não é à toa que a Escócia foi um dos centros da
Revolução Industrial, apesar do clima horroroso. Glasgow, entre 1870 e 1914, foi uma das mais ricas cidades da Europa. Séries, caros leitores, também são cultura.

Dylan segue na sua saga de autopunição e tentativa de entender os seus fracassos amorosos apoiado pelos amigos, o absolutamente superficial e fútil Luke e a gracinha da Evie, por quem, óbvio, Dylan nutre sentimentos especiais e melancólicos, já que foram arremessados pelo destino para o território insípido das amizades mais ou menos assexuadas.

Além deles, um outro amigo completa a trupe e rouba as cenas, o ingênuo e insuportavelmente simpático Angus, que inicia em um relacionamento tóxico, mas em compensação encontra a paternidade com uma desconhecida. Mesmo em Glasgow, estimados leitores, a vida é uma doideira.

Lovesick é encantadora, inteligente, muito bem escrita e aproveita os destroços do nosso cotidiano para construir momentos de ótima comédia. Querer mais é exigir muito da vida, e, portanto, aproveitem.

Fica a dica.

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