Juremir Machado da Silva

A volta da mosca volante

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A volta da mosca volante Foto: João Matos

Houve um tempo em que eu acreditava na utilidade da crônica. Não me sentia roubando o tempo de ninguém ao me dedicar de corpo e alma a esse gênero. Em tempos de redes sociais, porém, quando todo texto com mais de três linhas é textão, já não sei. Em todo caso, não posso deixar de anunciar solenemente a volta da minha mosca volante. Quando a vi pela primeira vez, há mais de dez anos, fiquei louco. Andava pela rua dando tapas no ar. No chuveiro, dava tabefes na água. Limpava as lentes dos óculos freneticamente. Por fim, o médico me disse que era dentro do meu olho, algo como um fiapo que se desprendera. Assim.

Então pensei que não poderia conviver com a mosca volante. Outro médico me disse que operava. Marquei a cirurgia. Não tive coragem de ir até o fim. Refuguei. Eu já tive zumbido no ouvido. Um médico francês operou e liquidou a fatura. Parei de andar com uma buzina na cabeça. Quanto à mosca volante, não tive coragem. Aos poucos, me acostumei. Ou ela se assentou. Por anos, não a vi mais. Pois agora ela voltou. Primeiro, vi um ponto preto na lente esquerda. Limpei. Em seguida, um fio, um filamento, um fiapo, depois um chumaço. Era a mosca de retorno.

Por que ela voltou? Eu me faço essa pergunta muitas vezes ao dia. É verdade que ganhei um assunto a mais com meu amigo Luís Gomes, com quem falo todo dia por telefone. Ele também passou a ser hospedeiro de uma mosca volante. Parece que não é tão incomum assim. Caro leitor, já viu uma mosca volante? Tem uma para chamar de sua? A mosca volante retornou no exato momento em que eu lia sobre a morte de Danuza Leão. Li muita sobre Samuel Wainer, cuja vida me jornalista sempre me fascinou: do nada ao tudo e do tudo ao quase nada. Ele foi casado com Danuza, que o traiu com Antônio Maria. Samuel a traía com a Última Hora, o grande amor da sua vida. Assim são as coisas, misturadas.

Não tenho gato, não tenho cachorro, não tenho carro, nem sei dirigir, não tenho caixa de ferramentas, só tenho livros e a lembrança de uma quarta-feira de cinzas. E uma mosca volante. Espero que ela se aquiete, que retorne para o seu exílio, que desapareça assim como veio, silenciosamente, sem fazer alarde, talvez quando eu leia sobre o nascimento de uma estrela. Não a quero como bicho de estimação. Muito menos como bengala. Eu canto: “Quero que vá tudo pro inferno…” A mosca também? Não, basta que ela se deite no fundo do meu olho. Por que estou falando disso? Porque é da vida que precisamos tratar, “pois se não chega a morte/Ou coisa parecida/E nos arrasta moço/Sem ter visto a vida”. Eu só queria ter a alegria de rir de minha mosca como outrora.


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Um homem é ele e sua mosca volante. É isso que Ortega y Gasset queria dizer quando falava em circunstância. Enfim, tenho visto muita coisa, até essa mosca, ou essas moscas, que se desprendem do fundo de mim, mas não me abandonam. Durante 30 anos, somando jornais e revistas, vi meu nome impresso todo dia. Era como tomar café. Às vezes, a mosca se interpunha entre mim e a página salpicada de manchas. Hoje, tudo tremula no cristal líquido. Sou eu e minhas circunstâncias.

Lançamento de A Amante de Proust

Sucesso total o lançamento do romance A Amante de Proust (Sulina), de Gilberto Schwartsmann, no Foyer do Theatro São Pedro, nesta quarta-feira à noite. Lotação completa. Pluralismo absoluto: de Gerdau a Olívio Dutra. Entre os autógrafos, uma charla (como mostra a foto de João Matos que ilustra este post), entre o psiquiatra Pedro Guimarães, o autor e este que vos escreve estas linhas enquanto se aquece ao sol de quase julho.


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