Juremir Machado da Silva

Ulisses fez cem anos

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Ulisses fez cem anos Imagem: Reprodução
Mundo, mundo, vasto e imundo, a literatura é uma vida, não uma solução, com a licença do poeta para mais um desvio dos seus versos. Mas como viver sem ela? “Ulisses”, de James Joyce, fez cem anos. Foi lançado em 2 de fevereiro de 1922, em Paris, pela Shakespeare and Company. A história toda se passa durante dezenove horas do dia 16 de junho de 1904, comemorado por toda parte como o “bloomsday” em referência ao personagem do livro, Leopold Bloom. Foi, portanto, na quinta-feira passada que os apaixonados por Joyce festejaram a sua obra fetiche. Houve até quem pensasse que era feriado por isso.

Tudo isso qualquer pessoa culta, como os meus leitores, sabe. Mais comentado do que lido, “Ulisses” é uma epopeia moderna. As más línguas dizem que o tradutor brasileiro Antônio Houaiss tornou o livro dez vezes mais incompreensível. Experimentei em francês e achei bem mais fluente, o que não é surpresa, pois até Kant e Heidegger ficam legíveis nas traduções francesas, o que deve depor contra elas.

Como poderiam ser descritas dezenove horas na vida de um Leopoldo qualquer, em 16 de junho 2022, na valorosa cidade de Porto Alegre, à beira do rio que não é rio, sendo que por ser lago agrada mais aos que têm para as suas margens projetos imobiliários faraônicos, com a devida desculpa pelo exagero? Fiquemos com a pirâmide menor. Seria esse Leopoldo um homem amargurado pelos destinos do país? Teria a mente carregada de palavrões e o coração até aqui de mágoas? Que mania de citar ou de espalhar referência em cada linha. Coisa de pós-moderno devolvido à pré-modernidade. Cantaria esse Leopoldo a última canção de Chico Buarque? Que tal um samba, um sambinha, um caipirinha ou um mate amargo? Levaria no peito as decepções impostas aos que se contrapõem aos destinos políticos da nação sob o comando do imbrochável? Como se sabe, essa alcunha não vem de uma mente joyceana obscena, mas da lavra do próprio indigitado.

Falando em dor, seria como diz Chico Buarque nesse mais novo samba “uma dor filha da puta”? Em “Ulisses” é assim: “Cantava. Esperando ela cantou. Eu virava as páginas. Voz plena de perfume de quê perfume usa sua lírios. O colo eu via, ambos plenos, garganta gorjeando. Primeiro a vi. Ela me agradeceu. Por que ela me? Fado. Olhos espanholantes. Sob um pátio de uma só pereira esta hora na velha Madrid um lado à sombra Dolores eladores. Gorgeio. Ah, imã. Imantante”. Não é belo? Quantas vezes os revisores me perguntaram: “É isso mesmo?” Quantas vezes corrigiram? Puta que o pariu! Joyceano.

Criticar, neste sombrio ano 2022, o estilo moderno de James Joyce é tão ousado quanto aplaudir o comentário do tiozinho diante de uma instalação em exposição de arte contemporânea:

– Que merda é essa?

Escrever é como Joyce é tão antigo quanto ser moderno.

Tudo isso me faz lembrar daquele senhor tão aferrado aos livros que, no leito de morte, implorou ao médico que se despedia:

– Por favor, Doutor, pelo amor de Deus, faça alguma coisa, não posso morrer hoje. Ainda não terminei de ler Ulisses.

Continua...

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