Juremir Machado da Silva

David Coimbra sessentão

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David Coimbra sessentão

Meu amigo David Coimbra fez 60 anos ontem. Liguei para ele. A nossa amizade resiste ao tempo (já são 42 anos), à distância (morei muitos anos na França, ele passou vários anos nos Estados Unidos), a empresas diferentes (ele é estrela da RBS, eu fiquei 21 anos na Caldas Júnior) e até a visões de mundo em algum momento diferentes.

Eu me lembro de quando nos conhecemos, em agosto de 1980. Eu estava de cabeça raspada (maldade de meus amigos por eu ter passado no vestibular). Ele riu da minha cara. Ficamos logo amigos. Pegávamos juntos o T1. David morava no IAPI. Eu espichava até o Sarandi.

Nos trajetos, fazíamos revoluções.

No Maza, bar na Bento Gonçalves, em frente à PUC, vivemos horas de glória, de grandes discussões e de paixões mal resolvidas regadas a cerveja e a martelinhos de “pingado”, cachaça com limão, bem mais acessível aos nossos bolsos de estudantes de jornalismo. Ali discutíamos as leituras indicadas pelo Irmão Mainar: “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector; “Magra, mas não muito, as pernas sólidas, morena”, de Antônio Carlos Resende; “Quarup”, de Antonio Callado; “Um novo animal na floresta”, de Carlinhos de Oliveira; “Encontro marcado”, de Fernando Sabino; “Maíra”, de Darcy Ribeiro.


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Muita gente boa fazia parte dessa turma de sonhadores com pressa de viver e de amar: O saudoso Ricardo Carle, Telmo Flor, Sergio Bueno, Chico Camboim, Zé Trindade; e a bela Rosane Aubin, com seus olhos verdes e seu corpo esguio, seu andar flutuante, minha vizinha na Vila Elisabete e companhia no linha 13, musa do David na faculdade.

Nunca esqueço de quando fomos para Tramandaí juntos. Conseguimos nos perder um do outro durante a noitada. Eu, só de calção, sem camisa, sem dinheiro e sem documentos, acabei dormindo na areia, onde acordei feito um camarão. No dia seguinte, fiquei doente. Ele me levou ao hospital e esperou pacientemente que me atendessem. Foi longo.

Temos, David e eu, uma paixão em comum: a história.

David sempre gostou dos bastidores da grande história. Lia Will Durant. Eu me apaixonei, na Faculdade de História, por desconstrução. Ver o outro lado das grandes narrativas. Ao longo da vida, temos praticado a crônica, o radio, a literatura, entrevistas e humor.

Sim, humor, cada um de um jeito.

Uma coisa nos separa: ele é gremista. Eu sou colorado. Mas tive um intervalo gremista quando, repórter de Zero Hora, cobria o Grêmio.

David e eu nos vemos muito pouco. Sou bicho do mato. Não visito as pessoas. Uma vez, quando ele adoeceu, fui vê-lo. De resto, mantemos a chama da amizade acesa por mensagens e referências no que escrevemos. Sou fã do David. Ele escreve bem demais. Tem estilo.

Há quem pense que somos opostos em política. Julgo que não. Somos da mesma escola, a da independência. Ele foi para Santa Catarina trabalhar em jornal. Entrei na Zero Hora e saí para morar na França. Lá, fui recontratado como correspondente internacional. Quando retornei ao Brasil, durei pouco na “firma”, derrubado por uma polêmica juvenil com Luis Fernando Verissimo. A esquerda pediu a minha cabeça. Levou. David voltou para fazer história na RBS. Eu tinha saído para sempre. Caminhos paralelos, desencontros, amizade sempre mantida.

Cada um de nós, em jornalismo, teve quatro demissões. David teve as dele na juventude. Eu, mais briguento, duas em cada ponta da vida.

Em 2019, recebemos o Prêmio Açorianos, cada um numa categoria. Deveríamos ter dividido o prêmio maior, de livro do ano. Mas, jornalistas de destaque no Estado, sempre fomos diminuídos no campo literário. Ele, grandioso, nunca se queixa dessas ninharias.

Se eu fosse poderoso faria dele Patrono da Feira do Livro de Porto Alegre de 2022. Mas só tenho poder a sudoeste de Palomas.

Talentoso, David tem um dos melhores textos que conheço.

Se escrevesse em veículo do centro do país, seria rei do Brasil.

Entregarei uma: gostávamos de Roberto Carlos, o Roberto de “detalhes”, “outra vez”, “estrada de Santos”, “negro gato”, etc.

Por isso posso dizer, David, meu irmão camarada.

Ou cantar os velhos tempos: “O que foi felicidade me mata agora de saudades/velhos tempos/belos dias”.

Há muito, porém, a viver.

Avante, pois!

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