Juremir Machado da Silva

Fischer e os nossos modernismos

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Fischer e os nossos modernismos Luis Augusto Fischer. Foto: Tom Silveira / Divulgação

Nada como uma boa desconstrução para afastar o marasmo cultural. Luís Augusto Fischer, com “A ideologia modernista: a Semana de 22 e sua consagração” (Todavia), jogou um tijolo na vidraça paulista da “semana mais famosa do país”. Com muita pesquisa e cultura, mostra que antes do modernismo da “Semana” havia muitos modernismos pelo Brasil. Parte do que se atribui à Semana de Arte Moderna de 1922 é, na melhor das hipóteses, consequência dela, como a antropofagia de Oswald de Andrade. Quando algo vira mitologia, com suas pompas e circunstâncias, já não responde a fatos e argumentos. Mesmo assim, é preciso sacudir o coreto.

A Semana de Arte Moderna de 1922 teve méritos, mas não foi, no momento em que se deu, o terremoto hoje alardeado. Foi mais uma reunião de intelectuais e artistas “burgueses” patrocinados pelo dinheiro do café. A ditadura militar, nos 50 anos do acontecimento, deu um up nas memórias. Afinal, um país que vai pra frente precisa ter lá atrás coisas de que se lembrar e de que orgulhar. Claro que o ufanismo militar preferiu destacar o lado ideologicamente conservador do modernismo, que resultaria em movimentos como Verde-Amarelo e Anta.

O bom do livro de Fischer é que ele não cai numa redução como no duelo Rio-São Paulo travado eternamente por Ruy Castro, em reedição permanente do Robertão, o torneio de futebol dos anos 1960. Sim, Mário de Andrade, que falava disso com Manuel Bandeira, as rivalidades do futebol chegam na arte. Quem está de fora sabe que ninguém supera cariocas e paulistas em bairrismo. Eles se acham cosmopolitas, universais e sem sotaque. Claro que isso é dito aqui contando com a capacidade paulista de rir até de paulistas mesmos e de suas realizações sagradas. Paulista só não ri de 1930. Fischer explora outra fonte, a dos fatos deixados de lado por não servirem aos mitos.

Um ponto importante do livro de Fischer é a demonstração de que o pernambucano Gilberto Freyre era mais modernista em 1922 do que Mário e Oswald. Freyre tinha uma visão de diversidade e patrimônio que já unia preservação e mudança, enquanto parte da turma de São Paulo paradoxalmente era deslumbrada com a tecnologia e com as modernices estrangeiras, ainda que zombasse com criatividade do estilo parnasiano coberto de pó e pretendesse olhar para as nossas qualidades cotidianas. Haveria possivelmente mais parentesco com fascistas italianos no imaginário de 1922 do que de comunistas e tutti quanti. Oswald de Andrade ainda queria ser Marinetti. O seu esquerdismo viria depois. O insulto ao burguês conformista de Mário de Andrade, que recusava o rótulo de futurista que lhe pespegava Oswald, teria, na tessitura de longa duração, mais a ver com Ardengo Soffici, intelectual que se vincularia ao fascismo, do que com alguma revolução libertária.


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Menotti Del Picchia, Cassiano Ricardo, Villa-Lobos, Guilherme de Almeida e Plínio Salgado formariam nas fileiras do nacionalismo verde-amarelo, estadonovista ou integralista, cada um conforme as suas inclinações ou possibilidades. Não é de duvidar que vários modernistas de 1922 batessem continência para Jair Bolsonaro se tivessem tido a liberdade poética de viver para comemorar o centenário da semana que protagonizaram. Talvez se espantassem com o sucesso a posteriori.

Havia modernismo por toda parte. Fischer mostra como modernismos e modernistas fora da “Semana” foram transformados em pré-modernismo por Alfredo Bosi. Sem dúvida, Luís Augusto Fischer produziu uma das mais completas e demolidoras críticas à sacrossanta Semana de Arte Moderna de 1922. No fundo, indica como o marketing acadêmico funcionou como instância de consagração. O próprio Fischer pergunta: “Se o modernismo paulista não vale tanto quanto se tem dito, o que vale?”

Resposta ponderada: “O ponto zero desta conversa é, apenas simplesmente, separar o fenômeno modernista entre as criações literárias (e de outras linguagens) produzidas em seu bojo (São Paulo, basicamente anos 1920, e depois, durante a carreira dos seus protagonistas), de um lado, e a visão de mundo modernistocêntrica, que com o tempo se transformou em hegemônica no campo literário brasileiro, de outro. O primeiro lado tem direito ao sol como qualquer obra de arte escrita, com seus méritos e limitações; o segundo lado tem que ser identificado como uma ideologia que teve sua força e seu sentido, mas precisa ser confinada a seu tempo, como ocorreu com o romantismo, e vai aqui um exemplo muito representativo do que estamos falando”.


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Temo que não possa mais entrar em São Paulo sem escolta.

Adeus a Mauro Zacher

Pêsames à família de Mauro Zacher, vereador do PDT que faleceu neste domingo, em Fortaleza. Nessas horas a gente fica estupefato com a fragilidade e a fugacidade da vida. Mauro só tinha 46 anos de idade.

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