Juremir Machado da Silva

Livros para ler e reler

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Livros para ler e reler

Nossos brancaleones

Era uma vez uma época em que os jovens queriam mudar o mundo. Não se contentavam, porém, com coisa pouca. Queriam mudar tudo, a começar pelo Brasil, que vivia numa ditadura. Há vidas que valem um livro. Há livros que só podem ser escritos por quem viveu. “A guerrilha brancaleone”, do gaúcho Claudio Weyne Gutierrez, acaba de ganhar uma segunda edição pela Sulina. A primeira saiu em 1998. Eu morava na França e não fiquei sabendo. Perdi uma bela leitura. É a história de uma gurizada e da sua geração decididos a derrubar ditaduras e a implantar socialismo com uma metralhadora sem cano.

Para quem possa não saber, “O Incrível Exército de Brancaleone” foi um filme do italiano Mario Monicelli que fez muito sucesso nos anos 1960, cuja história é bem resumida por Gutierrez: “O filme é uma sátira ambientada na época medieval e conta as desventuras de um cavaleiro desastrado, Brancaleone de Norcia, que vai atrás de um reino com um grupo de malucos andrajosos”. O jovem Flávio Koutzii, nome hoje tão conhecido da esquerda gaúcha, batizou a organização dos seus amigos de “Guerrilha Brancaleone”. Estudantes do Julinho, o colégio Júlio de Castilhos, de Porto Alegre, que ficou famoso como espaço de resistência e de estudantes politizados, foram deslizando para a aposta na luta armada como meio de enfrentar o regime militar de 64.

Claudio Weyne Gutierrez foi um deles. Com humor, honestidade e consistência, ele faz o balanço das grandes aventuras da sua vida de militante: “A maioria de nós não sabia atirar, e fugíamos do serviço militar como o diabo da cruz. De minha parte, desde já declaro, fui um guerrilheiro absolutamente desastrado nas artes militares”, escreve. No prefácio, o grande historiador Enrique Serra Padrós, que infelizmente faleceu no final de 2021, definiu: “A Guerrilha Brancaleone nada mais é do que a síntese da possibilidade da construção de um projeto de convivência coletiva em épocas duríssimas, e onde, apesar de tudo, havia um horizonte de expectativa de que a felicidade e a igualdade social poderiam ser objeto de conquista para as gerações futuras, o que, obviamente, contrasta terrivelmente com aquilo que encontramos nos dias de hoje”. Eram tempos de revolução.


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Ao menos, de revoluções desejadas. As ideias eram boas; os meios, de eficácia duvidosa. Os fins… Gutierrez faz a crítica do caminho que escolheu: “Se o marxismo e seus partidos já foram caracterizados como grandes religiões laicas, o guevarismo, teoria que pregava a organização de focos guerrilheiros ao estilo caribenho, produziu seitas pentecostais que vicejaram em todos os países”. O teórico do foquismo era o francês Régis Debray, de quem me tornei amigo em Paris e fiz vir a Porto Alegre para palestrar na Famecos em 1998. Ainda o visito em Paris. Confesso que é difícil pensar nele como teórico da guerrilha e como prisioneiro na Bolívia. Eis a vida.

Certo é que Gutierrez reconstrói a Porto Alegre de 1968, as manifestações estudantis, as mudanças comportamentais sopradas pelo meio francês, a repressão, as organizações clandestinas, as ações para obter armamentos, a começar pela que “desapropriou”, no coração do Bom Fim, uma metralhadora sem cano do apartamento de um militar que estava na praia, as prisões de ativistas, a clandestinidade e depois o exílio. O autor andaria pelo Uruguai, pelo Chile e pela Bolívia. Só não andaria pela Noruega, onde seria visto por um espião do regime.

Um dos seus parceiros desde as primeiras escaramuças seria Luiz Eurico Lisboa, irmão do cantor Nei Lisboa. Luiz Eurico seria assassinado em São Paulo pela ditadura e dado como desaparecido por décadas. Parece inacreditável que jovens tenham tido tanta coragem e tanta ilusão ao mesmo tempo: derrubar ditaduras, vencer o capitalismo, mudar tudo com tão poucos recursos e armas. Gutierrez não tapa sol com peneira: “Nossas ações foram uma sequência de trapalhadas. Poderia relatar mais de uma dezena de operações bem ou malsucedidas em que não faltaram situações que fugiram ao nosso controle”. Guerrilheiros improvisados com grandes apostas e metas: “A história de nossas armas é significativa do grau de improvisação e amadorismo que nos caracterizava”. A metralhadora seria abandonada num ônibus de Viamão para Porto Alegre quando a Brigada Militar deu as caras.

Nem sempre o planejado podia ser executado. Gutierrez não foge do humor retrospectivo sobre tropeços: “Os petardos, graças a Deus ou à inabilidade do técnico chinês, não explodiram”. Melhor para todos. Bancário aposentado, sempre militante de esquerda, defensor da democracia, um dos fundadores do PPS (Partido Popular Socialista), não alimenta ilusões sobre o que foi o guevarismo: “Não temos, porém, como esconder o primarismo político de muitos dos seus postulados, o voluntarismo que desprezava dados da realidade objetiva e o militarismo de suas posturas”. Eis um homem tranquilo em seu balanço.

Inventário crítico: “Não questiono a legitimidade daqueles que usaram a violência contra o terror do Estado, como no caso brasileiro ou da Frente Patriótica Manoel Rodriguez contra a ditadura chilena. Apenas constato a sua trágica inutilidade”. Tem mais: “O socialismo autárquico de partido único, do estado presente em tudo e da ausência de liberdade civis transformou-se de sonho em pesadelo”. É assim que alguns ainda não perceberam. Cada um com o seu tempo de compreensão. Para Gutierrez mesmo o PT tem duas almas: “Por um lado, é um partido que rompeu com as estruturas esclerosadas e convive na pluralidade de opiniões”. Na “outra alma”, porém, “uma parte do PT vê com desconfiança aquilo que chama de democracia burguesa”. Eis o ponto.

Previsão com alto teor reflexivo e autocrítico: “A democracia na forma que a conhecemos deverá ter modificações com o devenir histórico. Negar, porém, princípios como a separação de poderes, o respeito aos direitos humanos, a liberdade de manifestação e de expressão, a livre organização partidária e eleições é um erro que tende a reproduzir experiências fracassadas e, não raro, trágicas”.

Subscrevo.

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