Juremir Machado da Silva

O que elege um presidente?

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O que elege um presidente?

Em tempos de eleições essa é a pergunta que não cala. O cientista político Alberto Carlos Almeida e o geógrafo Tiago Garrido produziram uma consistente resposta sob a forma de livro: “A mão e a luva: o que elege um presidente” (Record). O título remete ao romance de Machado de Assis em que a bela Guiomar tem três pretendentes. Ela fica com o mais ambicioso e determinante, aquele que mais se parece com ela e mais se ajusta aos anseios. Para cada mão uma luva. Qual a luva para cada mão que se elegeu presidente do Brasil desde a redemocratização, em 1989? A resposta é cristalina: aquela que se mostra capaz de frear a inflação.

Com inflação em disparada e desemprego alto ninguém se elege ou reelege. Fica a dica. Existem eleições de ruptura e eleições de continuidade. Se tudo vai bem, o eleitor quer mais. Se vai mal, quer renovação. Elementar, meu caro leitor. Os autores resumem já na entrada na matéria: “O resultado da eleição presidencial, quem vence e quem perde, é condicionado pela situação do país. Momentos de aumento do consumo beneficiam a candidatura governista, foi assim em 1994, 1998, 2006 e 2010”. Se tem mais comida na mesa, o presidente se reelege. “Por outro lado, as situações de crise marcadas por desemprego elevado e inflação crescente acabam por levar à vitória da oposição, como foi em 2002”. O grande eleitor é o controle da inflação. O resto é purpurina.

A democracia brasileira durante muito tempo não passou de um arremedo. Em 1960, apenas 18% dos brasileiros estavam aptos a votar. Depois de 1989, 49%. Almeida e Garrido, citando outro livro de Almeida, “O voto do brasileiro” (Record), detonam teorias de direita que garantem não existir mais nem esquerda nem direita: “Ficou claro que há regularidades importantes, dentre elas que as áreas mais pobres votam em partidos de esquerda e as áreas mais ricas, em partidos de direita”. Afora uma briga particular de cientistas, capazes de chegar a verdade dos fatos, com jornalistas, que se iludiriam com o efeito eleitoral de facadas, os autores fazem demonstrações daquilo que sustentam.

Quem foi responsável pela eleição de Jair Bolsonaro? Resposta categórica: “No caso do Brasil, o livro permitiu compreender que, em 2018, Bolsonaro venceu porque o eleitorado do PSDB foi inteiramente transplantado para a sua candidatura, com a adição de eleitores que votaram no PT nas eleições anteriores, particularmente nos estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais”. Quem pariu Jair que o embale.


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Se a Lava Jato turbinou o capitão, eleitores tucanos em massa levaram-no ao Planalto, com a colaboração de petistas extraviados. Mais do que favorecer quem combate a corrupção, “desde 1989, a opinião pública premiou todos os que reduziram a inflação”. A opinião pública é Guiomar, a bela que, no topo ou na base da pirâmide, vota por interesse. Quer a luva que melhor se encaixe na sua mão estendida: “A informação prática é a principal fonte se informação da opinião pública”, que não decide por fofocas, mas analisando “se a vida financeira individual melhorou ou piorou”. Eis o realismo eleitoral.

Nessa batida os autores fazem muitos elogios à inteligência dessa Guimar Opinião Pública, que atribui aos governantes os méritos pelas coisas que melhoram a sua vida e também culpa os governos do momento pelo que vai mal. A memória é curta. O livro exala um suave tucanismo ao destacar que o Bolsa Família foi mero rearranjo de políticas sociais dos governos FHC. Mas insiste que para a senhorita Opinião Pública o que conta é a última assinatura. O que, afinal, eles entendem por esquerda e direita? “No caso da economia, é sabido que governos de esquerda conferem prioridade à redistribuição de renda, gastos com saúde e educação, políticas sociais e geração de empregos, ao passo que governos de direita enfatizam medidas que geram eficiência econômica como privatizações, desregulamentação do mercado, combate à inflação e obras de infraestruturas”. Dá para ouvir o ranger de dentes de alguns.

Tem mais: “Assim, são de esquerda os que dão prioridade aos que sofrem e são vítimas de instituições injustas, repressivas e opressivas”. Por outro lado, “são de direita os que acham que há uma enorme burocracia municipal, estadual e federal que algema a livre iniciativa dos empreendedores”. Direita e esquerda entram com os candidatos com potencial de vitória. O centro entra com os votos e cobra a conta. A campanha eleitoral torna-se quase inútil na perspectiva dos autores: “…As crenças da opinião pública que importam na decisão final do voto não estão sujeitas à influência da propaganda política. Por outro lado, a propaganda política pode admitir que não há nada a ser feito contra as crenças mais permanentes – coisas como a avaliação de um governo, o desejo de mudança ou continuidade, o humor contra o sistema, as posições frente à inflação e ao desemprego – a não ser aproveitar a sua existência e tentar fazer o voto aderir a elas”.


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Em guerra com as escolhas da “cobertura midiática”, que “confere muito mais atenção aos eventos efêmeros e passageiros do que à situação da economia”, os cientistas se autoelogiam afirmando que “o modelo alternativo, da ciência política e utilizado neste livro, considera que Bolsonaro teria vencido sem a facada ou apoio evangélico graças ao fato de ele se encaixar como uma luva no sentimento de rejeição do eleitorado ao sistema político”, o que as pesquisas já mostravam “desde muito antes do início da campanha eleitoral”. Sendo assim, pode-se economizar tempo e dinheiro identificando o vencedor previamente.

Se a opinião pública é tão sábia, como afirmam os autores, como se explica que, desejando um nome alternativo ao sistema, tenha escolhido Jair Bolsonaro, deputado do “baixo clero”, expressão pura e dura do velho e carcomido sistema? “A mão e a luva” tem a virtude de dar nome à boiada. Recorda que na Constituinte “parte do MDB se aproximou da ala mais conservadora do Congresso para assegurar modificações nos artigos e parágrafos que julgavam demasiado progressistas”. Arriscam-se ao dizer que quando a política vai bem, a economia pode ou não caminhar no rumo certo; porém, quando a política vai mal, não haverá economia que ande nos trilhos”. Não é a economia quem dá as cartas? Como a exceção sempre entra de penetra, destacam que a única vez em que o favoritismo “mudou da água para o vinho faltando poucos meses para o pleito” foi em 1994. FHC derrubou Lula com o Plano Real. Nada impede que se saque um coringa, mas isso é coisa rara.

No Brasil dos exotismos, o liberal Fernando Collor “editou a medida provisória 173, que impedia recursos na Justiça contra o plano que levava seu nome”. Provocado, o STF votou a favor do governo. Em 1964, respaldou o golpe militar. Brasil, Brasil, salve a seleção! Originais, os autores sustentam que a possibilidade de reeleição “fez com que os prefeitos no exercício do primeiro mandato tivessem um comportamento fiscal mais responsável do que no segundo mandato, e também mais responsável do que os prefeitos que não disputam a reeleição”. Afirmam que FHC não precisava comprar votos para aprovar a emenda da reeleição, que lhe permitiu disputar um segundo mandato consecutivo, o que “resultou em benefícios para sociedade brasileira”. 

Por fim, uma afirmação, no mínimo, provocativa: “A opinião pública está muito distante de defender a máxima ‘rouba, mas faz’”. Outra: Lula teria eleito qualquer candidato que escolhesse em 2010. O “pensamento mágico”, segundo os autores, faz crer em “marqueteiro genial” e em “fatos isolados que supostamente mudaram o destino de uma eleição”. Eis uma conclusão definitiva: “Não havia absolutamente nada que pudesse ser realizado por Serra e seu partido que tivesse modificado o desfecho daquela eleição”. Para que tanto empenho e gasto se é possível dizer que o jogo está jogado por antecipação?

Sendo assim, há um candidato que já pode correr para o abraço.

A Guiomar de Almeida e Garrido é altiva: “Quem pensa que a opinião pública é ingênua, no fundo a desconhece inteiramente”. Como foi, então, que ela se apaixonou por certo capitão de malícias?

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