Juremir Machado da Silva

Podemos, ou gato por lebre

Change Size Text
Podemos, ou gato por lebre Senador Alvaro Dias (Podemos-PR) (Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado)

Analista independente é aquele que pode falar de defeitos de todos os lados. Não pertence a ninguém. A sua sina é desagradar a todos. Mas essa é também a sua força: liberdade, autonomia e vara.

O Podemos é o típico partido lacerdista. Carlos Lacerda foi o Olavo de Carvalho dos anos 1950 e 1960. Melhor, foi uma inspiração para o guru de Jair Bolsonaro. Lacerda era chamado de corvo. A corrupção era o tema favorito de sua pregação contra o comunismo.

O senador Alvaro Dias é o grande cacique do Podemos, partido que não se interessa muito por temas como desigualdade social. A sua obsessão é a moral, os bons costumes e o combate à corrupção.

Como muitos partidos de direita, o Podemos apaixonou-se pela Lava Jato e por Sergio Moro, que entrou e saiu da sigla sem bater.


Publicidade Publicidade

Na época em que o lavajatismo triunfava, o Podemos fingia que era uma terceira via encarnada, anticomunista e antiextremismos.

Tudo tagarelice. O Podemos tem o direitismo na alma.

Por que se interessar por um partido tão nanico?


Publicidade Publicidade

Pela simples razão que chama a atenção o seu percurso.

O Podemos lembra o pessoal do MBL, que derrubou Dilma Rousseff fazendo de conta que era apartidário e apolítico, antes de entrar em agremiações oriundas da ditadura militar, como o União Brasil, mutação do DEM, variante do PFL, cuja cepa original era a Arena.

O sonho durou pouco. Com Moro no time, a turma já gritava “sim, nós podemos” tomar a presidência da República e moralizar o país. Moro deu o cano, mudou-se de mala e cuia para a extrema direita que, na maior cara dura, intitula-se agora centro democrático. O Podemos ficou a ver navios e estuda lançar o general Santos Cruz, outro dissidente do bolsonarismo, como candidato ao Planalto. Se lançar uma pedra, ou um poste, dará no mesmo. O potencial eleitoral do homem é nulo.

O jornal Folha de S.Paulo traduziu o desejo de parte do Podemos, que é sair do armário e apoiar Bolsonaro: “Na visão de dirigentes partidários, o Podemos tem bandeiras similares às do chefe do executivo e uma base eleitoral que dialoga com o bolsonarismo”.

Pronto: o Podemos é de direita ou até de extrema direita. O resto era teatro. O lacerdismo, em qualquer variação, é radicalmente de direita. O Podemos precisa fazer como o Republicanos, que andou com Lula, e agora confessa na televisão que é conservador. Finalmente.

Sergio Moro achava que seria presidente da República pelo Podemos. Foi para o União Brasil disposto a ser, ao menos senador. Talvez concorra a deputado federal como puxador de votos, o que, conforme disse um colunista nacional, fará com que ajude a eleger candidatos que gostaria de colocar na cadeia. Moro é uma caricatura.

Fotografia da direita brasileira, que é quase sempre extrema, o Podemos tenta se vender como moderado. Se uma das suas alas “pesa, pondera”, outra parte mais do que delira: clama pelo capitão.

Bolsonaro é talvez a mais nítida descrição do direitismo brasileiro: capitalismo de compadres, tetas estatais, socialização dos prejuízos, moralismo de ceroula, preconceitos explícitos e o comunismo como ferramenta para assustar tolos. O Podemos não passa de uma correia de transmissão do bolsonarismo, linha auxiliar do pior.

Sim, nós podemos, não comprar gato por lebre.


Contato: [email protected]

ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.
ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.