Juremir Machado da Silva

Roger, racismo e futebol

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Roger, racismo e futebol Roger Machado, treinador do Grêmio (Foto: Reprodução Facebook Grêmio FBPA)

Continua repercutindo a denúncia feita pelo treinador Roger Machado.

Sou fã do Roger.

Se ele não estivesse no Grêmio, torceria para que ganhasse tudo neste ano. Brincadeira de torcedor colorado à parte, quero que ele se dê muito bem. Uma coisa é certa: ela vai levar o tricolor de volta à primeira divisão.

Além de bom treinador de futebol, Roger é um homem consciente da situação política e social do Brasil. Futebol e política andam sempre juntos. Toda hora um dirigente esportivo se lança em disputa eleitoral. Romário, que foi craque em campo, chafurda no PL de Jair Bolsonaro. Como senador, faz poucos gols. Mas é um exemplo de como um leva a outro. Fingir que não é pura sacanagem.


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Roger quando solta o verbo faz tremer o país do racismo estrutural.

Na semana passada, depois de ter sido ofendido por torcedores do Operário do Paraná, que disseram coisas inomináveis sobre sua esposa e filhas, Roger voltou a colocar o dedo em muitas feridas deste país racista até a medula.

O racismo está solto nos estádios de futebol. Imitar macaco para ofender torcedores do adversário e jogadores voltou a ser odiosa rotina.


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Como nada acontece por acaso, ainda mais quando se trata de escala social, é preciso pensar no contexto brasileiro. Foi isso que Roger corajosamente fez ao referir-se ao momento político brasileiro: “Os indivíduos [racistas] que estavam escondidos [porque a sociedade os reprimia] se sentem autorizados a se manifestar segundo as posturas e pontos de vista do líder da nação, [porque estes] são convergentes. Temos que resistir, porque sua intenção é que retrocedamos, e isso não podemos permitir”.

Agredido, Roger atuou na esfera público como intelectual.

Saiu da sua especialidade, o futebol, para tratar de aspecto sociopolítico do contexto esportivo no qual atua. Foi além da denúncia e do desabafo: analisou, contextualizou, situou politicamente.

A réplica de muitos foi a tradicional tentativa oportunista e sorrateira de neutralização: não misturar política e esporte.

Toda vez que alguém fala em “não misturar” está a jogar para baixo de algum tapete a sujeira que finge não ver ou com a qual concorda.

*

Nunca é demais citar duas passagens da obra do grande abolicionista Joaquim Nabuco sobre o papel dos negros na formação do Brasil. De um lado, o branco ocioso; de outro, o negro operoso:

  1. “Tudo o que significa luta do homem com a natureza, conquista do solo para a habitação e cultura, estradas e edifícios, canaviais e cafezais, a casa do senhor e a senzala dos escravos, igrejas e escolas, alfândegas e correios, telégrafos e caminhos de ferro, academias e hospitais, tudo, absolutamente tudo que existe no país, como resultado do trabalho manual, como emprego de capital, como acumulação de riqueza, não passa de uma doação gratuita da raça que trabalha à que faz trabalhar”.

      O Brasil continua em dívida com quem o construiu como nação:

2) “Essa obra – de reparação, vergonha ou arrependimento, como a queiram chamar – de emancipação dos atuais escravos e seus filhos é apenas a tarefa imediata do abolicionismo. Além dessa, há outra maior, a do futuro: a de apagar todos os efeitos de um regime que, há três séculos, é uma escola de desmoralização e inércia, de servilismo e irresponsabilidade para a casta dos senhores, e que fez do Brasil o Paraguai da escravidão”.

*

O combate ao racismo é só uma parcela dessa dívida.

Uma parcela cujo pagamento não pode ser adiado.

Roger sabe disso.

Sabe e fala. Por isso provoca tanto incômodo.

Bolsonaro e o bolsonarismo têm culpa no cartório.

O vice-prefeito de Porto Alegre, Ricardo Gomes, neoliberal cuja única preocupação é privatizar a cidade inteira, aproveitou a ocasião para destilar seu reacionarismo padrão MBL: “Racismo é grave e o Grêmio se esforça para combatê-lo. Culpar o Presidente da República por isso é uma idiotice”. Bolsonaro é culpado até pelo vice-prefeito.

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