Juremir Machado da Silva

Notícias da democracia russa

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Notícias da democracia russa Foto: Kremlin/Divulgação

Volta e meia, na América Latina, alguém fala na Rússia como elemento fundamental para a existência de um sistema multipolar de influência geopolítica no mundo, o que contrabalançaria o imperialismo dos Estados Unidos da América. Diante disso, fico muito atento ao modelo russo. Não faz muito, na Rússia de Putin, a corte suprema decidiu que o movimento LGBTQIA+ é “organização extremista”. Usar símbolos que remetam ao imaginário gay pode dar cadeia. Uma lei também foi aprovada no parlamento para proibir mudança de sexo. Além disso, está proibida qualquer alteração de gênero em documentos de identidade. A Rússia é um farol da autonomia dos indivíduos.

A última notícia dessa Rússia luminosa, comandada pelo destemido Vladimir Putin, herói da luta contra os valores corrompidos do Ocidente, é outra lei de vanguarda: permite confiscar bens de quem critique o papel da Rússia na guerra da Ucrânia ou defenda sanções contra o país por ter invadido o vizinho. Também é proibido falar mal das forças armadas russas. De quebra, Putin vai concorrer à reeleição à presidência de nação. A ideia de alternância no poder ainda não chegou nesses rincões de uma democracia de tipo muito especial.

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Em outras palavras, sem ironia, Putin é um ditador que disfarça cada vez menos o que faz. Durante muito tempo, manteve uma fachada de democracia. Depois da invasão da Ucrânia, já não faz questão de maquiar o seu paradigma de gestão. É no tranco mesmo. O apoio que recebe em várias partes do mundo tem a ver com um antiamericanismo capaz de aceitar qualquer um que se contraponha aos ianques. A censura faz parte do cardápio cotidiano servido pelo putinismo triunfante. Muita gente sonha com tamanha liberdade de ação governamental pelo bem das massas. Na Rússia é assim, discordou, dançou, vai para a cadeia.

Alexei Navalny, o mais conhecido opositor de Putin, condenado a perecer nas masmorras do regime por ousar contestar o tzar, pode tranquilamente tentar repetir os relatos de Dostoievski. Pode não ter talento literário, mas matéria para a narrativa não lhe faltará. É duro ver tanta gente que se acha bacana passando pano para um autocrata sanguinário e impassível, que, obviamente, fica bem longe das frentes de combate, protegidos nos seus palácios dourados. Na era da geopolítica gameficada o que parece menos importar são as vidas perdidas. Não passam de alvos atingidos enquanto cada parte faz o seu jogo em busca dos seus objetivos. Quem fizer mais pontos, ganha.

Sem dúvida, com o fator Rússia a multipolaridade no mundo está garantida. Afinal, a democracia burguesa é só uma ilusão, uma enganação formal a serviço do capitalismo. Bom mesmo é um ter um homem forte que invada o vizinho em nome da pátria grande e dos valores progressistas. Deve ser bem difícil alguém ser mais conservador do que Putin. Ah, tem o aiatolá do Irã. Outro baluarte da multipolaridade. Na hipermodernidade o importante é ter pegada. Putin não bate, dá coice. Não pode ser acusado de falta de atitude ou de isentão. Um show!

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