Juremir Machado da Silva

O golpismo do Estadão em 1964

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O golpismo do Estadão em 1964 Tanques em frente ao Congresso Nacional após o golpe de 1964 | Arquivo Público do DF

Se fosse organizada uma antologia universal da infâmia no jornalismo, ou do ridículo e do patético, nela teria de figurar o texto da página 3 do jornal O Estado de S. Paulo, de 2 de abril de 1964, sobre o golpe militar desfechado contra o presidente João Goulart dois dias antes: “Essa revolução eterna dos homens e das nações que decidiram viver livres alcançou uma vitória espetaculosa, dramática e comovedora no Brasil. O otimismo e a confiança no futuro pode encher os corações dos homens no mundo inteiro. Abriram-se de novos os caminhos para as grandes alianças democráticas (…) Essa é a página que o Brasil escreveu para a história da humanidade”.

Em 14 de março, um dia depois do comício da Central do Brasil, o jornal O Estado de S. Paulo vociferava na sua página 3: “Afirmávamos há dias que o País estava já vivendo um regime pré-totalitário. O comício de ontem, na Guanabara, veio confirmá-lo. Depois do que se passou na Praça Cristiano Otoni, depois de tudo o que ali foi dito, depois da leitura dos decretos presidenciais que violam frontalmente a lei não tem mais sentido falar-se em legalidade democrática como coisa existente. Quando o chefe do Executivo se permite, nas praças públicas, fazer a apologia da subversão e incitar as massas contra os poderes da República que lhe estorvam a marcha para o czarismo, pode-se afirmar que a ditadura, e embora não institucionalizada, é uma situação de fato”. Jango atropelava a Constituição por que resolvera defender uma função social para a terra? Ou por querer emendar a Constituição para eliminar a obrigatoriedade do pagamento à vista, em dinheiro, das terras desapropriadas para fins de reforma agrária?

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O Estado de S. Paulo responde? “Não nos enganávamos quanto às intenções do grupo que promoveu a concentração de ontem. A revolução foi pregada com uma insistência, uma agressividade e um calor que ultrapassaram tudo o que até a data se havia verificado em atos semelhantes. A tônica dos discursos foi a mesma, com pequenas variações de acordo com as necessidades da estratégia e da tática revolucionárias. Pouco importa saber se o sr. Brizola falou pela boca do sr. João Goulart ou vice-versa. O que não sofre dúvidas é que, para além do radicalismo verbal que os separa, o acordo entre ambos é perfeito. Um e outro demonstraram lutar por um objetivo comum, que inspira toda a política do Palácio da Alvorada, e explica a demagogia torrencial com que o Executivo vem bombardeando o País. Esse fim estimado, essa meta que perseguem com igual ardor, é a supressão do regime constitucional, a abolição da Lei Magna da República”.

O diário da oligarquia paulista via o Brasil de Jango às portas da Rússia de 1917 e, embora ressalvando a retórica menos radical de Jango, em comparação com a de Leonel Brizola, fulmina o presidente no que se refere à reforma agrária: “O chefe do Executivo foi mais comedido na linguagem. Mas talvez mais claro na definição dos objetivos. Não liga importância de maior ao decreto da SUPRA. Classificou-o modestamente de ‘primeiro passo’. Apenas isso. A reforma agrária é outra coisa. Sobre ela se alargou em considerações confusas, exibindo uma falsa erudição sobre os problemas agrários em relação aos quais nada sabe. Tudo isso como introito a uma declaração, a de que considera um negócio (sic) toda reforma no campo em que a expropriação das terras tenha como contrapartida ‘a prévia e justa indenização em dinheiro’. Para Exa só a espoliação pura e simples dos proprietários legítimos da terra é moral, só o roubo do solo em troca de títulos sem valor poderá salvar o Brasil. E como a Constituição se interpõe entre a sua pessoa e a realização desse desígnio criminoso, não vê, exatamente como seu cunhado, outro caminho que não seja o ataque frontal à Carta Magna”. Apelo ao golpe.

O ataque à Constituição denunciado é uma proposta de emenda a ser votada pelo Congresso. A artilharia pesada termina com uma briga com os fatos. O “Estadão” garante que “a população da Guanabara ficou em casa”, não compareceu ao comício, “esse simples fato tem um grande significado para todos os democratas brasileiros”. Somente “pelegos” e massa de manobra teriam comparecido. Entre 150 mil e 200 mil pessoas acotovelaram-se para ouvir Jango, Brizola e outros aliados do governo. O governador Carlos Lacerda encomendou uma pesquisa de opinião com os presentes: “O resultado estarreceu os próprios patrocinadores da pesquisa. Ali não estavam, como se supunha, uma maioria de janguistas e comunistas atuando como claque. Esses, na verdade, compunham apenas 5% do público. O restante, os 95%, demonstrava um pensamento legalista, reformista e portador de um alto grau de politização: queria eleições presidências em 1965, bem como as reformas de base, mas não admitia o fechamento do Congresso nem a reeleição de Goulart” (FERREIRA, 2011, p. 421). Para o “Estadão”, no entanto, deu-se o contrário: “Os fatos são esses (…) O não comparecimento do povo à concentração, a que foram somente os arregimentados, vale por uma manifestação de repúdio do País ao presidente-caudilho. Os ambiciosos cálculos do Estado-Maior comuno-nacionalista foram desmentidos”. Ledo engano. Na guerra ideológica, entretanto, a verdade de um jornal influente é quase sempre mais forte, mesmo quando se trata de mentira.

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