Juremir Machado da Silva

Sarandi, o bairro que virou rio

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Sarandi, o bairro que virou rio Rua Laudelino Freire, no Sarandi/Fotos de Ana Claudia Rodrigues e Juremir Machado da Silva

Nas horas extremas cada um assume o papel que imagina poder desempenhar com mais utilidade. Eu me dei a tarefa de ser o cronista destas cheias de 2024 em Porto Alegre. Não por vaidade, nem por me achar o melhor, mas por acreditar no poder curativo das palavras quando salpicadas de certo jeito. Elas podem ajudar a entender momentos difíceis. Um cronista repórter, indo aos lugares para sentir a atmosfera e falar com as pessoas em busca da subjetividade que necessita de um porto onde ancorar. Nesta segunda-feira, depois de entrevistar a arquiteta e urbanista Lígia Bergamaschi Botta, junto com o parceiro Nando Gross, no “Do lado de cá”, videocast que fazemos para o Sindicato dos Bancários de Porto Alegre, fui ao bairro Sarandi.

Cláudia e eu fomos com o Everaldo, amigo motorista de táxi, leitor de filosofia, formado em História, que ocupa as horas à espera de clientes devorando livros. No momento, um Mary Del Priore. Subi no carro com três declarações de Lígia Botta repicando em minha mente: a nova orla do Guaíba, o Centro de Treinamentos do Internacional e o espaço previsto para um condomínio de luxo, perto da alagada rodoviária de Porto Alegre, estão fora da área protegida contra cheias; parte da água que invadiu o centro da cidade e os bairros Cidade Baixa e Menino Deus é puro esgoto que voltou. Cometi na mesma hora uma deselegância, exclamei: alagados na merda; por fim, a afirmação categórica dessa técnica experiente e ponderada, que acompanhou, desde 1969, a implantação do sistema de proteção à capital gaúcha contra inundações, de que faltou manutenção dos equipamentos.

Rodamos até a Assis Brasil, no Obirici. Cada vez que vou ao Sarandi fico emocionado. Tenho um grande carinho por esse lugar que me recebeu, em 1980, quando cheguei de Santana do Livramento de cabelos compridos, dinheiro curto e o sentimento de ser dono do mundo. Foram alguns dias numa pensão em Navegantes com meus valorosos primos, empregados de uma empresa de concreto, e logo dois anos no Sarandi. Quando vou até lá tenho saudades do que prometi ser e não fui. A Assis Brasil é outro mundo em relação ao Bom Fim, onde moro. Tem uma imensa circulação de pessoas e carros, um certo cinza de periferia, a força das pessoas que lutam e se acotovelam nas paradas de ônibus. Aos poucos, parece que uma Porto Alegre fica para trás e outra se aproxima, a dos meus vinte anos, aquela que se enraíza em mim.

Minhas velhas referências, numa época em que, por causa da construção do corredor de ônibus, se podia levar mais de uma hora até o Sarandi, começaram a aparecer: Hospital Cristo Redentor, sempre o mesmo, com seu amarelo pálido, Estrada do Forte, Triângulo, cruzamento que já não é mais o que era, modernizado, ampliado, irreconhecível, depois a loja Tumelero, o prédio do antigo Bailão do Cardoso, onde a população interiorana do bairro, como nós, ia alegremente ouvir estrelas internacionais do porte de Roberto Leal, que era tido por imenso, a Igreja São José, que mudou de cor, e finalmente duas ruas que nunca esqueço: Alcides Maya e Laudelino Freire. Um mundo.

Avenida Alcides Maya, Sarandi

Dali em diante a Assis Brasil estava tomada pela água. O Sarandi, bairro mais populoso de Porto Alegre, na Vila Elisabeth, tem ruas planas que vão da Assis Brasil até um fundo longo, que parece interminável, bordadas de casas e árvores, como uma cidade do interior na imensidão horizontal da metrópole. Foi entrar na Alcides Maya, a avenida principal, e a menos de uma quadra encontrar um rio a perder de vista. Pessoas discutiam em torno de um barco, a luz glauca refletia na água escura, certo clima de perplexidade pairava no ar da tarde cinza. Não demorou a cair uma chuva fria. Era como se perguntassem num silêncio de olhares furtivos: e agora? O que fazer?

Sem luz nem solução à vista

Como diz a sabedoria popular, o mundo é pequeno e o tempo nem sempre passa. Encontrei logo uma conhecida, Sinara, cunhada do Adão, primo do meu primo Eleú, os dois bravos com quem morei, há 42 anos, no doce Sarandi da minha ainda quase adolescência. Ela, que já não vive ali, tendo migrado para a Cidade Baixa, estava com uma dessas gaiolas para animais pequenos. Esperava uma carona de um barco para tentar resgatar os gatos que haviam ficado para trás na casa da irmã. Gentil, sorridente, ela disse meu nome e aquilo me produziu um efeito carinhoso: então alguém ainda podia saber o meu nome no Sarandi num dia de tristeza, espera, dúvida, indignação e sensação de cansaço?

Sinara espera um barco

Claro que alguém me conhecer ou não nada mudava em relação à tragédia, mas eu estava ali movido pelo coração, numa empatia retrospectiva, lembrando de uma noite, lá por 1981, quando a Laudelino Freire inundou e tive de descer do ônibus, o linha 13 – em que meus amigos cobradores me deixavam sair sem pagar, pois eu estava na faculdade e ia ter diploma de curso superior – com a água pelo joelho. Uma senhora, na hora em que meus pés se afundaram na água, dissera:

– Cuidado, meu filho, muito cuidado, pode ter bicho e dar choque.

E ali estava eu no Sarandi vendo o bairro transformado em rio, ouvindo vozes do passado e observando rostos do presente. Era o momento de caminhar até a Laudelino Freire, primeira paralela da Alcides Maya. Sinara alertou que era a rua mais atingida pela água. Eu ainda pensava na sua curiosa afirmação de que esperava um barco. Se eu tivesse escrito num romance que passados quarenta anos eu voltaria ao Sarandi e encontraria uma pessoa, esperando um barco, capaz de saber meu nome, seria acusado de inverossimilhança. Era a pura verdade.

Parte de Porto Alegre alagada de merda, o prefeito dizendo no Jornal Nacional para um William Bonner radicado na capital gaúcha que a culpa era das pessoas, que por necessidade, moravam onde não deviam, a chuva batendo no rosto, e eu contemplando os “canais” do Sarandi. Na única quadra seca da Laudelino Freire uma longa fila organizava os moradores em busca de ajuda, uma cesta básica.

O resto era água, um carro semi-afundado, homens com água pelo joelho, quadras intermináveis submersas. Fiquei pensando no proprietário da casa onde morávamos na Laudelino Freire, agora idoso, que saiu até sem os documentos das “profundezas” da Laudelino Freire, num ponto já longe da Assis Brasil, portanto, tomado pela água. Alguém falou assim:

– E de noite?

Sem luz, sem pessoas, abandonado às pressas, o Sarandi fica à mercê de saqueadores, protegido apenas pelas suas crenças no bem e no futuro. Barcos na escuridão, guiados por lanternas trêmulas, parece crônica, é só a nova realidade desse lugar sempre pulsante de esperanças. Voltamos. Como disse, ando em busca das subjetividades que se expressam em palavras, olhares, exclamações, filas, gestos incontidos, momentos de estresse ou de súbita reconsideração.

– Somos nós por nós – disse um homem enquanto a chuva apertava.

Um dia depois do outro

Terça-feira, 13 de maio, dia de lembrar da abolição da escravatura, e de andar pela cidade para acompanhar o ritmo das águas. Venta. O arroio Dilúvio incha com o refluxo das águas.

Dilúvio pela boca

No final da rua Riachuelo a barricada faz pensar em outros cenários, Os Miseráveis, Victor Hugo, Paris, século XIX, mas a nossa miséria, desta vez, é outra, a miséria das previdências.

 

Da Rua da Praia, que agora tem água, vê-se a Usina do Gasômetro, ainda inacessível a pé.

Usina do Gasômetro, tanto perto, tanta água

Josué, morador da quadra, observa o seu edifício, onde seis pessoas resistem, as demais partiram.

Tão longe de casa

Na Washington Luís a água passa irisada pelo vento.

Trocamos de ponto de vista. Do alto do morro Santa Teresa o Guaíba é uma massa colossal de água. Na pista da avenida Beira-Rio carros trafegam. O estádio do Internacional já respira. A inundação atinge ainda o outro lado da grande pista, onde fica o Centro de Treinamentos do colorado. No lugar onde está, ter água é obviedade.

Beira-Rio

Rodamos por vários lugares. A água baixou ou sumiu em vários deles. Na Cidade Baixa, a José do Patrocínio está livre.

O motorista reflete:

– Um dia depois do outro.

Nada de otimismo. O rio continua subindo.

No extremo sul, foi preciso evacuar a população do Lami.

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