Juremir Machado da Silva

Suicidados de abril de 1964

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Suicidados de abril de 1964 Documentos entregues por Jair Krischke à Comissão Nacional da Verdade, em 2012

Olá, leitor. Encerro uma série de textos a partir da pesquisa para meus livros 1964, golpe midiático-civil-militar (Sulina) e Jango, a vida e a morte no exílio (L&PM). Aos fatos. Avante, pois!

A ditadura brasileira implantada em 1964 prendeu, cassou, torturou, matou, “suicidou” e arrebentou quem a ela se opusesse. Isso é sabido desde o começo. A pauleira não começou depois do AI-5, de 1968, como diz a mídia para se desculpar por ter apoiado o golpe contra Jango, mas já em abril de 1964, com a “Operação Limpeza”.

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O primeiro a documentar a tortura no Brasil foi o jornalista Marcio Moreira Alves, em reportagens que se transformaria no livro “Tortura e torturados”, que seria proibido pela ditadura, em 1967. O tema voltou em 2022 com as gravações do Superior Tribunal Militar reveladas pelo historiador Carlos Fico (UFRJ). Era a prova de algo provado desde sempre por depoimentos, cicatrizes e cadáveres.

Marcio Moreira Alves deu o primeiro sinal: “No dia 3 de abril de 1964 o ‘Correio da Manhã’ publicou, na primeira página, um editorial intitulado ‘terrorismo não!’. Era o primeiro grito de alerta contra o clima que se instaurava no Brasil e que viria a ser, nos meses seguintes, vivido por todo o povo brasileiro”. O grande jornal “Correio da Manhã”, citado por Alves, espantava-se: “Agora o Sr. Carlos Lacerda age por meio da polícia política, prendendo e espancando, como se estivéssemos em plena ditadura”. Era isso mesmo.

Jorge Ferreira, em sua biografia de João Goulart, resumiu o descalabro comandado pelos militares:  “Entre 1964 e 1966, cálculos apontam para 5 mil detidos, 2 mil funcionários públicos demitidos ou aposentados compulsoriamente; 386 pessoas perderam o mandato parlamentar e/ou tiveram os direitos políticos suspensos por dez anos, enquanto 421 oficiais militares foram punidos com a passagem compulsória para a reserva – sem contar os suboficiais. Os maus-tratos tornaram-se prática comum nos quartéis. Gregório Bezerra, por exemplo, foi arrastado por um jipe pelas ruas do Recife e, depois, surrado com uma barra de ferro. O almirante Aragão foi brutalmente espancado”.

Repórter, Marcio Moreira Alves viajou para fazer o levantamento dos atos de tortura. Escreveu: “A revelação de que membros do Exército nacional, que se gabava de ser o ‘povo fardado’, e da Marinha de Guerra, com sua tradição de cavalheirismo aristocrático, estavam torturando e promovendo a tortura de prisioneiros quebrou um preconceito, matou uma ilusão profundamente brasileira e acendeu uma geral indignação (…) Ao descobrir que alguns desses cidadãos exemplares, vizinhos tranquilos, se entregavam à flagelação de presos políticos e tinham sua abjeção acobertada e fortalecida por alguns dos seus chefes, a consciência brasileira levou uma bofetada”.

Entre os torturadores estavam Darcy Villocq Viana, Hélio Ibiapina – que tinha por lema, “nós torturamos para não fuzilar” – e Antônio Bandeiras. Márcio Moreira Alves vasculhou o Nordeste e fez o mapa da tortura. O ditador Castelo Branco escalou Ernesto Geisel para conferir a situação. O futuro ditador nada viu de anormal. A tortura continuou. Correu uma inacreditável onda de “suicídios” em 1964, que ficaria conhecida como os “suicidados de abril”. Sintetizei essa escabrosa história em meu livro “Jango, a vida e a morte no exílio”.

O primeiro caso de súbita tendência para a morte aconteceu em 18 de abril de 1964. “José de Souza, operário, sonhador, portador de algumas ideias e de poucos recursos, atirou-se de um terceiro andar para fugir às ‘averiguações do DOPS’. Uma súbita vontade de morrer. Astrogildo Pascal Viana, em Manaus, ‘se matou’ ajudado por policiais. Carlos Schirner, comerciante, ofereceu à polícia uma saraivada de balas como saudação: ‘Suicidou-se após ferir dois policiais’. Bernardino Saraiva, sargento, dado a certas leituras, quase inconsequente de tão corajoso, reagiu, na cidade gaúcha de São Leopoldo, a uma ordem de prisão ferindo quatro militares. Diante do sucesso da sua reação, achou melhor disparar uma bala na própria cabeça. Estranhos homens esses, não?” A farsa era macabra e fatal.

Não bastasse isso, “os hospícios ganharam hóspedes possuídos por uma doença terrível, uma demência precoce, a utopia de um Brasil melhor. Do coronel Hélio Ibiapina, em Recife, descobriu-se uma competência inesperada em psiquiatria: mandava internar e receitava o tratamento de choque conveniente. Ibiapiana, Villocq e Bandeiras foram homens de confiança do general Justino Bastos, comandante do IV Exército, que jamais vacilou na sua inclinação para o golpe militar.

Um médico de verdade teve a coragem de diagnosticar com um mórbido senso de humor: ‘Aprendi o que sei na Faculdade de Medicina e preconizado pela Organização Mundial da Saúde. Não tive oportunidade de cursar a Escola Superior de Guerra’. Villocq Viana inventou o passeio de homem pela coleira: saiu com o comunista Gregório Bezerra, depois de dar-lhe algumas libertadoras pancadas na cabeça, com uma corda no pescoço pelas ruas atormentadas de Recife”.

A ditadura tinha pressa em torturar.

A imaginação dos novos donos do poder era perversa. A ideia era dar exemplos que jamais pudessem ser esquecidos por esquerdistas: “No Rio, ‘perigosos amarelos’ acabaram presos e torturados, pois ‘colocariam bombas em papagaios de papel que, com o auxílio da suave brisa carioca, içariam sobre o palácio do governador’ e ‘quando os engenhos estivessem na desejada posição, algum dispositivo secreto seria desmontado, as bombas cairiam sobre o palácio e o Brasil perderia o grande defensor da sua democracia’, o corvo Lacerda”. 

A verossimilhança não era o forte dos esbirros: “Em Porto Alegre, em 1966, apareceu boiando nas águas do rio Jacuí, com as mãos amarradas, o sargento Manuel Raimundo dos Santos, um nacionalista que participara do movimento da Legalidade, em 1961, ajudando Jango a chegar ao poder que era seu por direito constitucional.

Mais um suicídio, o mais estranho de todos, o mais imaginativo, o suicida amarrando as próprias mãos às costas antes de usá-las para se matar?” Apesar de tudo isso e do que depois apareceu nas dez mil horas de gravação feitas pelo Superior Tribunal Militar, há quem jure que o tempo da ditadura foi de paz, calmaria e total honestidade.

Marcio Moreira Alves escreveu: “A revelação de que membros do Exército nacional, que se gabava de ser o ‘povo fardado’, e da Marinha de Guerra, com sua tradição de cavalheirismo aristocrático, estavam torturando e promovendo a tortura de prisioneiros quebrou um preconceito, matou uma ilusão profundamente brasileira e acendeu uma geral indignação (…) Ao descobrir que alguns desses cidadãos exemplares, vizinhos tranquilos, se entregavam à flagelação de presos políticos e tinham sua abjeção acobertada e fortalecida por alguns dos seus chefes, a consciência brasileira levou uma bofetada”.

Os mortos voltam para assombrar seus assassinos.


Tambor tribal (Babel na Biblioteca Pública do Estado)

“Babel (In)Finita Mostra de primeiras edições e obras raras da Literatura Ocidental chega à Biblioteca Pública do Estado. Babel (In)Finita é uma viagem fascinante pela história da Literatura Ocidental, com primeiras edições e obras raras dos séculos XVI, XVII e XVIII, até os tempos mais recentes, através dos olhares e textos de Jorge Luis Borges. A exposição, que reúne mais de 300 obras do acervo privado do médico e bibliófilo gaúcho Gilberto Schwartsmann, é um desdobramento da que foi apresentada recentemente na Academia Nacional de Medicina e na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro.

Em Porto Alegre, na Biblioteca Pública do Estado, a Babel (In)Finita adquire a montagem Sul (In)Finito de Borges, com curadoria de Facundo Sarmiento e ilustrações de Zorávia Bettiol”.

“A mostra, promovida pela Secretaria de Estado da Cultura, através da Biblioteca Pública do Estado e Associação dos Amigos da Biblioteca, inaugura a 9 de abril, às 19h, e abre ao público no dia 10, quarta-feira. Primeiras edições e obras raras: Decameron, de Bocaccio (1520), Tomás de Aquino (1577) Poética, de Aristóteles (1601) convivem com primeiras edições de Kafka, Proust e Joyce, e edições raríssimas de obras de Shakespeare. Entre as 300 obras que serão expostas estão edições raras da Divina Comédia de Dante (1866), Mil e Uma Noites, Bíblia Sagrada e Dom Quixote (1862). A Literatura Brasileira também terá espaço exclusivo, com edições raras de Machado de Assis, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, entre outros. Assessoria de Imprensa Balala Campos”. Em uma palavra: imperdível.

Babel (in(finita/Foto: Divulgação

Frase do Noites

Manchete do Jornal do Brasil em abril de 1964: “Pontes de Miranda diz que Forças Armadas violaram a Constituição para poder salvá-la!” O iluminista contesta. Para ele, o estupro nunca é em favor da vítima. Quem pensava assim acabou na cadeia. Era o país dos machos.


Imagens e imaginários

No Pensando Bem, que vai ar todo sábado, 9 horas, na FM Cultura, 107,7, em parceria com a Matinal, a revista Parêntese e a Cubo Play, e apoio da Adufrgs Sindical, Nando Gross e eu entrevistamos o poeta, letrista e publicitário Luiz Coronel, autor de letras clássicas do cancioneiro gaúcho como “Gaudêncio sete luas”.


Escuta essa

      Para sonhar com a vida na campanha: “Gaudêncio sete luas”, com Almôndegas.

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