Juremir Machado da Silva

Galeano, Gilberto e Martha

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Galeano, Gilberto e Martha Foto: Jessica Ruscello/Unsplash

Leio livros por pacotes. Quando eles chegam, eu os acaricio, organizo e me preparo para horas de alegria. Nada tenho a perder. Posso, inclusive, andar na contramão dos especialistas. Meu bloco mais recente envolveu, na verdade, seis volumes: Ser como eles (L&PM), de Eduardo Galeano, Dibuk, (Sulina), de Gilberto Schwartsmann, e os quatro títulos de bolso de Martha Medeiros: Fora de mim, Divã, Tudo que eu queria dizer e Selma e Sinatra (L&PM). Essa é a melhor maneira de não precisar de ansiolíticos neste mundo estressante em que o vizinho elege para presidente da república um cidadão que se aconselha com o seu cachorro morto e promete fechar o Estado e abrir a loja.

Eduardo Galeano sempre escreveu bem e com a alma nas mãos. Não compartilho o seu marxismo de centro acadêmico, mas admiro o seu olhar generoso, a sua empatia com os esquecidos da sorte, a sua perspectiva histórica, a sua capacidade de em poucas linhas apresentar personagens densos. Ser como eles reúne textos jornalísticos publicados entre 1989 e 1992. É um documento importante na medida em que mostra o escritor às voltas com os acontecimentos da época: da queda do muro de Berlim ao derretimento do socialismo soviético. Galeano não se entrega: “Em poucos meses assistimos ao naufrágio estrepitoso de um sistema usurpador do socialismo, que tratava o povo como um eterno menor de idade e o puxava pela orelha”. Persiste e dobra a aposta: “Este é o meu depoimento. Confissão de um dinossauro? Pode ser. Em todo caso, é o depoimento de alguém que acredita que a condição humana não está condenada ao egoísmo e à obscena caça ao dinheiro, e que o socialismo não morreu, porque ainda não era; que hoje é o primeiro dia de uma longa vida que tem para viver”. Aposta numa utopia que teria de se reinventar.

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Vale a leitura. Um livro forte, irônico, incisivo.

O diabo no Bom Fim

Gilberto Swhartsmann tem mostrado talento em gêneros diferentes: poesia, romance, crônica, conto. Em Dibuk, “o demônio dos judeus”, o escritor, com muito humor e desenvoltura, mescla lembranças com ficção para contar histórias saborosas vividas ou ambientadas no Bom Fim, o bairro judaico de Porto Alegre. Tem de tudo, sempre com o diabo no meio do vendaval ou espreitando a mente das pessoas mais simples e determinadas a viver às claras, ou nem tanto, de prostitutas polonesas com dotes mediúnicos a velhas judias praticando uma espécie de psicanálise intuitiva.

Como não se encantar com uma mãe judia investigadora de casos aparentemente resolvidos ou nem denunciados ou vistos como policiais? Uma comissária sem distintivo determinada a decifrar o estranho caso da morte do rabino Aron. Como não se surpreender com a sabedoria psicanalítica de Dona Rivka, essa senhora entrada em anos que paralisa o pessoal com uma frase certeira: “Não há dibuk nenhum. É só um schleper que não tem onde dormir”. Dona Rivka tinha mais verdades a revelar sobre o dibuk: “Está dentro da cabeça de vocês”. E assim o pequeno mundo de fantasias, intrigas, fofocas, ambições, invejas, distinções, alianças e poderes vai sendo desfolhado alegremente. Desde Moacyr Scliar que ninguém escrevia sobre o Bom Fim judaico com tanto conhecimento de causa, leveza e humor. O “Senhor Rudy” é um caso de escola. Como se esquivar de uma história passada num agosto, um agosto de 2013.

Tem contista na praça.

Muito em pouco

Martha Medeiros faz sucesso. Ela tem o dom de falar, especialmente com as mulheres, como quem conversa na sala, no bar, no ônibus, no parque enquanto as crianças brincam, na fila do banco, no Uber, em qualquer lugar. Tudo o que eu queria dizer, microcontos em forma de cartas, dá muitos recados. Impossível não se deixar arrastar por uma leveza que disfarça o fato de estar abordando temas profundos do cotidiano. Como diz Michel Maffesoli, citando Max Weber, “é preciso saber estar à altura do cotidiano”. Martha sabe. Em Selma e Sinatra, pequeno romance, em número de páginas, a autora conta a história de uma biografia que não sai como planejado. A jornalista e a diva da música brasileira que se enfrentam em diálogos sob medida. Camada depois de camada, gerações se revelam:

– Não. Eu saí de casa aquele dia sem ter a mínima noção do que iria acontecer.

      Se Selma queria vencer Guta pelo cansaço, estava quase conseguindo.

– Eu não falo daquele dia específico, Selma. Falo daquele momento da sua vida. Você estava na meia-idade, quando a maioria das pessoas questiona suas escolhas, corre atrás do que ainda não viveu. Você estava passando por um momento assim?

– Eu não acho que a gente precise se investigar dessa maneira. Eu sempre me realizei através da minha música, eu sempre cantei loucuras, nunca precisei fazer loucura”.

      As “narrativas” não coincidem.

Em Fora de mim, romance-monólogo, Martha Medeiros mostra que se pode ir ao fundo das aparências. Em Divã, a escritora faz a psicanálise literária da mulher madura, aquela que um dia foi chamada de balzaquiana.

Cada livro desses merece uma tese de doutorado.

Eu me contento aqui em roçá-los.

Sou um resenhista apressado.

Não me contenho depois de uma boa leitura.

Preciso contar para alguém.

Esse é alguém é o leitor.

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