Reportagem

Porto Alegre tem aumento de casos de dengue em 2023 e Saúde admite preocupação

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Porto Alegre tem aumento de casos de dengue em 2023 e Saúde admite preocupação Saúde destaca importância de conscientização da população contra a dengue | Foto: Cristine Rochol/PMPA

Afetada por chuvas no segundo semestre, capital teve aumento de infectados, apesar da queda de diagnósticos em nível estadual em 2023. Ministério anunciou ontem incorporação da vacina contra a dengue no SUS

A Vigilância Sanitária de Porto Alegre observa com preocupação o cenário endêmico da dengue para o verão 2024. Com a predominância do forte calor e passada uma temporada mais intensa de chuva – que deverá ocorrer dentro do previsto ao longo do verão –, a preocupação é que haja um aumento brusco de casos da doença no início do ano. 

Depois de o Rio Grande do Sul viver uma disparada de casos em 2022, o número de diagnósticos caiu em 2023. Entretanto, Porto Alegre está em rota contrária, com os casos ainda em crescimento. Até 21 de dezembro, os registros aumentaram 10%, saltando de 5.142 para 5.693, ainda que o número de óbitos tenha caído de quatro para três no período. 

Rio Grande do Sul e Porto Alegre passaram por um salto enorme de casos de dengue em 2022. Enquanto 2021 terminou com 16.601 casos no estado, o ano seguinte teve 67.326 registros, que baixaram para 37.224 neste ano. No período, Porto Alegre passou de 85 para 5.142 e, atualmente, com 5.693 casos.

Se os verões de 2022 e 2023 ocorreram num ambiente marcado pela estiagem, o ano que se inicia tem outra situação. O verão de 2024 começa após meses de chuvas históricas em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul. Água parada e calor formam as condições ideais para o Aedes aegypti se reproduzir. 

“O que podemos pensar para as próximas semanas e o período de verão, infelizmente, não é o melhor cenário”, afirmou a diretora-adjunta da Vigilância em Saúde do município, Juliana Maciel, que cita o patamar mais elevado da doença como um outro motivo de preocupação. “Não deixamos de ter casos de dengue ao longo deste ano. Conseguimos diminuir bastante o número de casos a partir de julho. Mesmo assim, continuamos com casos ativos. Agora, no período de calor, esperamos um aumento no número de casos.”

Juliana atribuiu a mudança recente do estágio da dengue em Porto Alegre a três fatores. O principal é o clima, com o aumento da temperatura. “Não tivemos uma temperatura inferior a 18°C ininterruptamente por mais de uma semana. Então, os mosquitos continuaram a se reproduzir”, afirmou. “E o clima é um fator global, que afeta a todos de maneira transversal.”

Vigilância aponta desafios conforme áreas da cidade

Somadas ao aquecimento global, as diferenças socioeconômicas de uma cidade como Porto Alegre, também geram desafios à Vigilância: as diferentes situações em que a água pode ficar parada – de piscinas a jardins de casas mais abastadas a depósitos de resíduos em áreas com maior vulnerabilidade. 

“Apesar de ser casos pontuais, ainda temos regiões da cidade que estão com dificuldade em receber água, que está chegando por caminhões-pipa. É muito importante que se tampe esse recipiente onde a água ficará armazenada”, complementou. 

Num cenário em que a população ainda não é imune ao vírus, essa conscientização em nome da prevenção, a partir de uma melhor comunicação, é a principal política contra o mosquito transmissor da dengue. “A gente precisa da sensibilidade dos governos, mas muito da sociedade”, disse ela, que também destacou o trabalho em conjunto dentro da administração municipal e em parceria com o governo do estado. 

Em 2023, o maior número de casos na capital ocorreu em bairros da região leste. Há, conforme ela, campanhas focalizadas nessas áreas hoje, para aumentar a prevenção à dengue. Materiais de conscientização e mais informações estão disponíveis para download no site Onde está o Aedes?, da Secretaria Municipal da Saúde. 

“Há uma dificuldade de controle ambiental deste mosquito. É preciso apenas dois fatores para que o vírus circule: um caso ativo e mosquitos”, resumiu. “Então, se a gente não cuidar do nosso ambiente, vai ter dengue. Se houver mosquito, vai ter casos.”

O ciclo de vida do Aedes aegypti, entre ovos até se tornar mosquito, é de apenas dez dias. Só que os ovos do mosquito podem ficar até 500 dias – cerca de um ano e meio – sem eclodirem em ambiente seco, aguardando algum acúmulo de água. Por isso, a importância de hábitos semanais de higiene em ambientes que potencialmente podem servir como repositórios de água.

Vacina começará a ser aplicada pelo SUS em 2024

Apesar da preocupação, os órgão de saúde vão ganhar mais um aliado na luta contra a dengue. Nesta quinta, dia 21 de dezembro, o Ministério da Saúde anunciou a incorporação ao SUS da vacina Qdenga, que combate o vírus. Ela, no entanto, não será destinada a todos os públicos, em razão de o laboratório fabricante ter capacidade restrita de fornecimento.

Segundo a pasta, a partir de fevereiro de 2024 serão distribuídas pouco mais de 5 milhões de imunizantes. O ciclo vacinal prevê duas aplicações. O Brasil será o primeiro país a incorporar o imunizante no sistema público de saúde.

“Até o início do ano, faremos a definição dos públicos alvo levando em consideração a limitação da empresa Takeda do número de vacinas disponíveis. Faremos priorizações”, explicou a ministra da Saúde, Nísia Trindade, durante o anúncio. A diretora-adjunta da Vigilância Sanitária em Porto Alegre, Juliana Maciel, havia destacado a expectativa pela vacina: “Com certeza é uma demanda nacional”.

Doença aguda

A dengue provoca sintomas, em especial, como febre alta, dores nas articulações e lesões ou manchas vermelhas na pele. “É uma doença transmissível aguda, porque o curso da doença entre a pessoa ser infectada, o vírus se replicar e o início de sintomas, com sinais de alarme ou grave, é muito rápido”, alertou Juliana. “Se a pessoa tiver que agravar, vai agravar em duas semanas no máximo, por isso é sempre bom cuidar crianças, idosos, imunodeprimidas, pessoas com dificuldade de comunicação de seus sintomas.”

Conforme a Vigilância Sanitária, hoje há dois vírus em circulação na capital, o tipo 1 e o tipo 2. Desta forma, o cuidado para evitar a introdução de outros sorotipos, além de doenças como Zika e Chikungunya – que também são transmitidas pelo Aedes aegypti –, deve ser observado também por quem viaja a regiões onde há o registro dessas doenças, como Nordeste e o Sudeste, especialmente o Rio de Janeiro.


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