Reportagem

“Foi ruim para nós”, diz secretária sobre leilão da Carris

Change Size Text
“Foi ruim para nós”, diz secretária sobre leilão da Carris Leilão da Carris teve apenas uma empresa credenciada a apresentar proposta | Foto: Cesar Lopes / PMPA

Em entrevista à Matinal, a secretária de Parcerias da prefeitura de Porto Alegre, Ana Pellini, admite frustração com o baixo número de interessados na compra da Carris e explica como a prefeitura chegou ao lance mínimo de R$ 109 milhões. A concessão das linhas da Carris, que ficará por conta da empresa Viamão por 20 anos, não entrou na conta. Foi oferecida por um valor simbólico de 1 real – os coletivos da companhia pública transportam 230 mil passageiros por dia. E a centenária marca Carris estimada em R$ 20,9 mil.

Leia a entrevista a seguir:

Publicidade

Como se chegou na conta de 109 milhões como lance mínimo?

Temos duas datas nesta planilha, setembro de 2022 e julho de 2023, que é o ajustado para fins de avaliação. Temos os ativos e o passivo. Os ativos são todos os bens, o dinheiro em caixa, os valores a receber. Tem terrenos e até o nome da Carris ali no intangível (o nome Carris foi avaliado em R$ 20,9 mil). Em ativo permanente, estão os ônibus e o terreno, avaliados 133 milhões. Também tem R$ 8,74 milhões em depósitos judiciais para garantir a execução de causas. Esse somatório que a Carris tem é de R$ 155 milhões. É tudo que ela tem de bens e valores a receber. 

Mas a Carris tem dívidas. Ela deve R$ 45,7 milhões. Para quem: fornecedores, salário, rotativo etc. Eles (as empresas) recebem a passagem antes de prestar o serviço. Isso é do sistema de transporte e não sei bem como funciona. Esses R$ 155 milhões descontado os R$ 45,7 milhões sobram R$ 109 milhões, é o valor líquido. O valor que ela efetivamente vale. Tu não podes avaliar uma empresa só por aquilo que são os bens dela, tem também os compromissos a serem pagos, as dívidas. 

Todas essas dívidas que estão aqui roladas passarão a ser do comprador. Então, R$ 109 milhões é o valor líquido, o valor que resta depois de descontado tudo que ela deve.

Mas por que houve essa depreciação de R$ 185 milhões de patrimônio, que constam nos documentos da venda, para R$ 155 milhões em dois anos

A defasagem (disponível em Anexo IV – EVTE Carris 20230626.pdf) entre a avaliação dos ativos de 2021 (R$ 185 milhões) e a de 2023 (R$ 155 milhões) decorre da subtração veículos que não mais integravam a frota ou que estavam em final de vida útil, entre outras situações de depreciação ocorridas no período. 

É bom salientar que, dos 109 milhões, 69 milhões, quase 70%, são terrenos. Uma empresa de transporte coletivo privada não tem isso. Ela investe em quê? Em ônibus, não investe em terreno. Então, é muito atípico ter uma empresa em que os terrenos representam quase 70% do patrimônio porque não são de utilidade. Não rende nada para uma empresa de transporte coletivo. Ela precisa comprar ônibus. A Carris tem esses terrenos porque ela é muito antiga, porque foram cedidos pelo município há 70 anos. São terrenos maiores que a necessidade operacional.

Mas isso faz a Carris perder competitividade. ‘Ah, eu não vou botar 70 milhões em terreno quando vou ter que gastar 50 (milhões) para comprar 60 ônibus novos’ (uma das cláusulas de venda prevê que o comprador precisa comprar 60 veículos novos). Eu tenho que botar mais R$ 50 milhões para comprar ônibus com ar-condicionado em toda a frota. Como vou gastar todo meu dinheiro no terreno​​?’. Então, para tornar mais atrativo, o edital criou três hipóteses, dando a opção da compradora querer ficar com o terreno ou não.

A prefeitura não perde nada nisso porque podemos vender o terreno, podemos até ganhar mais vendendo para construção civil, para fazer um belo condomínio residencial. Não perdemos nada se ficarmos com o terreno. Demos a opção também de a empresa alugar o terreno.

Esgotamos todas as alternativas para ter mais empresas interessadas. O Tribunal de Contas (TCE) nos ajudou muito nesse modelo. 

Por que a concessão das linhas não entrou nesta conta dos R$ 109 milhões? Em dias de semana a Carris transporta 230 mil passageiros por dia, conforme consta nos documentos da venda, e há subsídio do sistema que garante o valor mínimo das passagens.

Não. O fato dela levar tantos passageiros não muda nada o faturamento dela, porque isso é distribuído no sistema, né? A forma de cálculo da remuneração em Porto Alegre não leva em conta o número de pessoas que entram no ônibus. Um ônibus tem que passar na parada mesmo que seja para pegar só uma pessoa, com o mesmo custo. Realmente ela transporta muita gente, mas isso não traduz mais dinheiro porque o ônibus pode estar vazio ou cheio, o pagamento tem que ser igual. 

Por isso, nós separamos o leilão da Carris e o contrato de concessão de linhas, com valor simbólico de R$ 1. Saiu por R$ 100 mil.

O leilão decepcionou a prefeitura?

Sim, foi ruim para nós. A gente preferia ter maior número (de interessados). Mas sabíamos que o transporte coletivo é um negócio difícil no Brasil inteiro. Tem um monte de licitação dando deserta, quando ninguém aparece. É difícil, mas conseguimos uma oferta válida.

Gostaríamos que tivesse aparecido mais interessados. Fizemos de tudo para isso. Passamos um ano fazendo propaganda da Carris, tentando achar estratégias para ter mais empresas interessadas. Mas a Carris tem déficit há 10 anos. Tu não consegue convencer (o empresário).

Tanto que vieram 10 empresas visitar. Veio a Trans Leve, a mais forte empresa do mundo. Veio o Constantino da Gol em pessoa (Nenê Constantino, fundador da Gol), e não quis. Veio a Itapemirim de Minas Gerais (a empresa teve a falência decretada pela justiça em 2022), olhou tudo, fez um monte de pergunta, não quis também. Veio a Maxlog, a HP. 

Quando chegou na hora do leilão, ninguém quis. Não é um negócio da China, não é mesmo. A gente entende por que não vieram.

Ficamos com uma oferta só. Agora torcemos para que tudo dê certo. Nós vamos ficar em cima dela (Viamão). Ah, vamos ficar, para ela fazer um bom serviço. 

Mas haveria outra forma de a prefeitura viabilizar a Carris sem privatizá-la, já que a venda estava se mostrando um caminho difícil

Ainda no governo Marchezan foi contratada uma consultoria Valor&Foco para dizer o que era melhor a fazer. Como estava, não dava para ficar. A Carris tem um custo muito elevado, em torno de 20% maior do que as privadas. Isso encarecia o preço da passagem como um todo, porque o cálculo é uma média. Elevava o custo total para todo mundo.

O município teve de colocar R$ 500 milhões em 10 anos numa empresa de transporte por ser deficitária. Todo mundo sabia que isso não podia continuar assim. Tinha de arrumar solução. Foram estudadas várias alternativas, até a liquidação total da Carris e distribuição das linhas para as outras operadoras. Mas optamos por vender a Carris como foi feito. Porque liquidar é horrível, não ganha nada.

A opção mais favorável para o município e para o cidadão foi tentar vender. Temos agora que fazer a empresa ser boa para o cidadão. 

Mas os ativos de R$ 155 milhões incluem os ônibus novos comprados em 2020? Só essa nova frota custou à época R$ 45 milhões.

Não são mais novos, não. São os ônibus da Volvo comprados há quatro anos (foram comprados, em 2020, 98 ônibus). Ela nunca comprava ônibus e, quando dava, tinha de comprar 100 de uma única vez. Esse era outro problema que o pessoal apontava. Tem um terreno que vale muito e que não é útil para atividade final dela, e a frota sucateada.

As empresas privadas vão comprando aos poucos, vão renovando a frota, em vez de comprar tudo ao mesmo tempo.

Mas isso não é um problema de gestão?

O sistema público não permite uma gestão eficiente. Nem Jesus Cristo conseguiria. Ia também fazer igual. É difícil ter orçamento, é difícil fazer a licitação. Às vezes, os melhores não querem fornecer para o setor público. 

Fale com a repórter: [email protected]

Gostou desta reportagem? Garanta que outros assuntos importantes para o interesse público da nossa cidade sejam abordados: apoie-nos financeiramente!

O que nos permite produzir reportagens investigativas e de denúncia, cumprindo nosso papel de fiscalizar o poder, é a nossa independência editorial.

Essa independência só existe porque somos financiados majoritariamente por leitoras e leitores que nos apoiam financeiramente.

Quem nos apoia também recebe todo o nosso conteúdo exclusivo: a versão completa da Matinal News, de segunda a sexta, e as newsletters do Juremir Machado, às terças, do Roger Lerina, às quintas, e da revista Parêntese, aos sábados.

Apoie-nos! O investimento equivale ao valor de dois cafés por mês.
Se você já nos apoia, agradecemos por fazer parte da rede Matinal! e tenha acesso a todo o nosso conteúdo.

Compartilhe esta reportagem em suas redes sociais!
Share on whatsapp
Share on twitter
Share on facebook
Share on email
Se você já nos apoia, agradecemos por fazer parte da rede Matinal! e tenha acesso a todo o nosso conteúdo.

Compartilhe esta reportagem em suas redes sociais!
Share on whatsapp
Share on twitter
Share on facebook
Share on email

Gostou desta reportagem? Ela é possível graças a sua assinatura.

O dinheiro investido por nossos assinantes premium é o que garante que possamos fazer um jornalismo independente de qualidade e relevância para a sociedade e para a democracia. Você pode contribuir ainda mais com um apoio extra ou compartilhando este conteúdo nas suas redes sociais.
Share on whatsapp
Share on twitter
Share on facebook
Share on email

Se você já é assinante, obrigada por estar conosco no Grupo Matinal Jornalismo! Faça login e tenha acesso a todos os nossos conteúdos.

Compartilhe esta reportagem em suas redes sociais!

Share on whatsapp
Share on twitter
Share on facebook
Share on email
RELACIONADAS
;

Esqueceu sua senha?

ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.
ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.