Reportagem

Os casos de Covid-19 que a prefeitura excluiu sem aviso

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Os casos de Covid-19 que a prefeitura excluiu sem aviso Prefeitura diz que sumiço de notificações são erros humanos ou casos duplicados. Foto: Anselmo Cunha/Prefeitura de Porto Alegre

Uma análise dos dados epidemiológicos entre março e maio mostra que ao menos 160 casos sumiram sem explicação, uma soma que aumentaria em 30% o total de notificações do período

No dia 1º de abril, uma idosa de 76 anos recebeu a confirmação de que havia testado positivo para Covid-19. Ela se consultou no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, e entrou na contagem oficial da prefeitura como a paciente nº 206 infectada com o coronavírus. Mas, no final de abril, esse caso sumiu da lista divulgada diariamente pela prefeitura e usada como um balanço público da pandemia – e cujas estatísticas guiavam as ações do poder público no combate à crise sanitária. Primeiro, mudou de número: de 206, passou para 210. Em seguida, desapareceu da lista de infectados, junto com outros dois casos. Após um par de dias, reapareceu na contagem sob o número 209, e voltou a sumir em 29 de abril. O que aconteceu com esse registro não foi uma exceção.

Um levantamento do Matinal identificou pelo menos 160 casos de Covid-19 excluídos da contagem oficial entre março e início de maio, quando as estatísticas da doença em Porto Alegre ainda estavam na casa das centenas. Na época, a prefeitura publicava a lista completa de casos nos boletins epidemiológicos. Ao todo, os registros excluídos aumentariam em 28% o número total de casos de coronavírus confirmados até o dia 11 de maio, última vez em que a contagem foi anexada aos boletins – momento-chave em que o prefeito Nelson Marchezan Júnior (PSDB) ensaiava as primeiras medidas de reabertura da economia, depois de mais de 30 dias de imposição de normas rigorosas de distanciamento social. Em 20 de maio, shoppings, restaurantes e igrejas reabririam pela primeira vez – mais tarde o prefeito reviu essa flexibilização. 

O Matinal identificou também outros problemas: 41 registros tiveram informações alteradas de uma dia para outro – geralmente, a fonte de notificação. Situação curiosa como a das pacientes 345 e 347, notificadas originalmente em 14 de abril pelo Hospital Moinhos de Vento, que atende planos particulares. Em 25 daquele mesmo mês, o local de notificação delas foi trocado para o Hospital Nossa Senhora da Conceição, que atende pela rede pública; um dia depois, voltou a ser o Moinhos de Vento.

A prefeitura não foi capaz de justificar as mudanças nas estatísticas. O secretário adjunto de Saúde de Porto Alegre, Natan Katz, supõe que possam ter ocorrido erros, “porque tem pessoas preenchendo essas bases de dados, então elas se confundem”. Segundo ele, a equipe conjunta da prefeitura com a Vigilância em Saúde revisa o endereço do paciente e seria comum, durante essa revisão, casos caírem fora da contagem por ter domicílio em outra cidade. “Todos os dados são instáveis enquanto não forem fechados”, acrescenta. O secretário adjunto, porém, disse não haver um prazo definido para “fechar os dados” porque isso depende de algumas variáveis, como a eventual transferência de pacientes para outras unidades. 

Em 19 de agosto, a prefeitura anunciou a inclusão de mais de 6 mil casos de Covid-19 nas estatísticas de Porto Alegre – o que fez o total de notificações da Capital aumentar em mais de 50%. Segundo Katz, o acréscimo foi feito para corrigir uma falha técnica na integração das bases de dados, que não computaram milhares de registros desde a metade de julho. Atualmente, a notificação dos casos de Covid-19 é feita em três bases de dados diferentes: o Sivep e o e-SUS, usados pelos governos estadual e federal respectivamente, e o Gercon, usado pela prefeitura na rede pública e em algumas instituições privadas. Porém, diferentemente desses casos que não haviam sido acrescentados até agosto, os casos reportados pelo Matinal foram retirados da contagem. 

Segundo a assessoria de imprensa da SMS, foram retirados apenas casos duplicados da lista. Porém, no levantamento, encontramos somente nove exclusões que poderiam ser explicadas como casos duplicados – sabemos disso porque os registros contêm dados como idade, local de notificação e gênero que permitem individualizar cada notificação, mesmo sem saber o nome das pessoas. Mas há outros 71 casos retirados dos boletins entre 26 de março e 8 de maio, sem explicação. Também encontramos uma diferença de 79 casos a menos entre a nova planilha que passou a ser usada pela prefeitura e a última contagem de casos disponível no formato antigo, em 11 de maio. Ao contrário da lista que era divulgada nos boletins anteriores, a nova planilha não permite comparar as diferenças na contagem com dias anteriores, porque é publicada somente no dia, sempre no mesmo link.

Diante das negativas do poder Executivo, pedimos ao Hospital de Clínicas de Porto Alegre, referência no tratamento de coronavírus na cidade, os registros detalhados de todos os casos de Covid-19 notificados pela instituição, a fim de compará-los com as tabelas da prefeitura. Mas a assessoria do HCPA não disponibilizou os registros porque entendeu que a divulgação dessas informações “fere o sigilo do paciente”. Esse conjunto de informações – idade, sexo, local de notificação e data de notificação – eram de acesso público até o começo de maio. O Matinal também tentou obter, por meio da Lei de Acesso à Informação, a versão atualizada da tabela de casos que aparecia nos boletins da prefeitura. Dessa vez, a SMS argumentou que a lista com as informações solicitadas deixou de ser produzida porque exigia “trabalhos adicionais de análise e interpretação” e era de “pouca relevância no contexto de ações de controle da pandemia”:

Erros constantes

As notificações diárias são consideradas cruciais para avaliar o comportamento da pandemia e traçar estratégias na visão de especialistas. “Como estamos sempre 15 dias atrasados em relação ao vírus, as notificações diárias são fundamentais para entender a taxa de crescimento da pandemia”, aponta o epidemiologista Ricardo Kuchenbecker, professor de medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Kuchenbecker se refere ao comportamento do coronavírus. Ao infectar alguém, ele tem um tempo médio de incubação de cinco dias, mas que pode demorar até duas semanas. E é mais ou menos nesse período que ocorre a transmissão da doença para os outros. Até a pessoa ir ao médico, ter a amostra enviada ao laboratório e obter a confirmação ou a negativa do teste para Covid-19, o vírus já viajou para vias respiratórias alheias.

A precisão dos dados diária é também fundamental para entender em que ponto da curva estamos. Não à toa os lugares que têm se saído melhor na condução da crise – como Uruguai e Nova Zelândia – são aqueles que rastreiam, testam e atualizam os números de casos e mortes com agilidade. 

As confusões nos boletins tornaram difícil dimensionar a crise em Porto Alegre. Além das tabelas com o total de casos de Covid-19, os boletins da prefeitura traziam o número de novos casos confirmados em relação ao dia anterior. Contudo, os documentos apresentavam dados que não batiam entre si. Durante dois meses, 57 boletins apresentaram, em texto, uma quantidade de novos casos diários menor do que informavam as tabelas publicadas nos próprios boletins. Ou seja, quase todos continham erros nesse período.

Um exemplo disso é o que foi informado no dia 3 de abril: segundo o documento da prefeitura, havia apenas quatro casos a mais em relação ao dia anterior. Nessa mesma data, nove registros de pacientes tinham sido excluídos da tabela publicada no mesmo documento. Como o total de casos havia subido de 227 para 233 naquelas 24 horas, significa que o aumento “real” seria de 15 novos casos, e não de quatro.

O mesmo aconteceu no dia 8 de abril. A prefeitura informou no início do boletim daquele dia que havia 12 casos a mais em relação à noite anterior. Mas, tinham sido incluídos 29 casos, conforme a tabela no próprio boletim atestava. 

Apenas as atualizações dos dias 4, 17 e 25 de maio informaram um aumento que condizia com os próprios dados da prefeitura. A partir do dia 27 de maio, o governo Marchezan parou de divulgar, nos boletins, o número de novos casos diários, passando a informar só o total acumulado.

Ciência excluída da gestão da crise

O Conselho Municipal de Saúde fez críticas à gestão da crise pela prefeitura. “Em Porto Alegre, o comitê de enfrentamento da Covid-19 não tem composição científica, participação das universidades e nem da sociedade civil e de entidades profissionais. Não tem controle social”, diz Ana Paula de Lima, coordenadora adjunta do Conselho Municipal de Saúde. “O CMS nunca foi chamado para nenhuma discussão sobre o tema. Solicitamos a criação de um comitê científico, mas isso nunca foi contemplado”. Partiu do CMS a recomendação para que a prefeitura sistematizasse todos os dados relacionados ao combate da Covid-19 em painéis online, algo que só começou a ser feito em julho.

Os erros de matemática e a falta de transparência nas atualizações diárias fazem parte de um caldo de confusões relacionadas à crise sanitária. No dia 31 de março, três semanas depois da confirmação do primeiro caso de Covid-19 na cidade, o governo de Nelson Marchezan Júnior decretou estado de calamidade pública. A série de medidas aparentemente restritivas no comércio e na circulação de pessoas, porém, não vingou. Ainda em abril, houve redução dos horários de ônibus e aumento na lotação máxima de passageiros, no sentido contrário às orientações da Organização Mundial da Saúde. A tentativa de agradar comerciantes e profissionais da saúde provocou a rejeição de ambos numa série de abre e fecha que só gerou confusão na população. Embora o Brasil tivesse virado epicentro da pandemia no mundo em maio, no fim de julho a prefeitura comemorava o menor índice de infectados por habitante em relação às demais capitais brasileiras, “mesmo com o aumento no número de óbitos”. 

Passados seis meses de pandemia em Porto Alegre, o fim da crise por aqui ainda é uma miragem. Com números de casos pouco confiáveis, restou acompanhar a lotação dos hospitais. A taxa de ocupação dos leitos de UTIs – dado que também apresentou erro recentemente – beira os 90% em três dos quatro hospitais de referência para o tratamento da Covid-19 na cidade. Os índices da pandemia por aqui até têm se mantido estáveis nas últimas semanas – mas esses dados preliminares não significam que a disseminação do coronavírus e sua letalidade estejam sob controle mas, sim, que o avanço da pandemia desacelerou.

Apesar dos sinais de estabilização, a reabertura mais recente da economia acende o alarme. Se o limite de leitos for ultrapassado, os médicos da linha de frente contra a Covid-19 serão obrigados a escolher quem deve ocupar o leito e quem não, quem usa respirador e quem aguarda na fila, quem vive e quem morre. As mortes, ainda que apresentem uma pequena queda nos últimos dias, também estão em um patamar elevado para uma cidade de 1,5 milhão de habitantes. Cerca de 600 pessoas com coronavírus morreram no município. Apenas a nível de comparação, o Paraguai soma pouco mais de 200 mortes, embora tenha o quádruplo da população. O Uruguai, exemplo de sucesso no combate ao vírus no continente, já fala em reabrir fronteiras para os turistas europeus e construir um memorial da pandemia – quase como quem diz “já são águas passadas”. Tendo mais que o dobro da população de Porto Alegre, os uruguaios sequer chegaram a 50 óbitos.

*Colaboração de Juliana Coin

Como foi feito o levantamento

Nossa análise partiu de uma tarefa rotineira: ao procurar atualizar dados de uma reportagem publicada em abril, percebemos que muitos registros simplesmente desapareciam de um dia para o outro dos boletins epidemiológicos da prefeitura. A lista com o total de casos confirmados de Covid-19 constava em uma tabela no final de cada arquivo – porém, essa contagem detalhada parou de ser anexada antes da metade de maio. Não havia qualquer explicação sobre o sumiço de casos nos próprios boletins. Todas as 50 tabelas disponíveis eram referentes ao intervalo entre 23 de março e 11 de maio. 

Comparamos a lista de cada dia com o dia anterior e anotamos todas as alterações feitas nos registros, com exceção da inclusão de novos casos. Ao final, compilamos todos os registros divergentes em uma planilha e contrastamos os resultados com a tabela do último dia. Foi assim que a gente descobriu casos semelhantes ao da paciente 206, que saíam, voltavam e saíam de novo. 

Além disso, calculamos a diferença do número de casos entre a última tabela disponível nos boletins e a nova contagem divulgada pela prefeitura. Essa planilha mais atual está disponível para download no rodapé do Painel Saúde, o portal criado a partir de julho para reunir as principais métricas de Covid-19 na cidade. Como as duas contagens não contêm as mesmas informações dos pacientes, consideramos apenas a diferença do número total de casos entre as duas listas. Possivelmente, o número de registros excluídos é ainda maior, porque houve a inclusão retroativa de notificações, o que eleva a soma geral de infectados.

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