Após denúncia do Matinal, Brigada Militar e Conselho de Medicina investigam uso de proxalutamida em hospital da Capital

Reportagem revelou que remédio foi testado em pacientes com Covid internados no Hospital da BM sem autorização da Anvisa nem da Conep
O comando da Brigada Militar e o Conselho Regional de Medicina do RS (Cremers) determinaram nesta quarta-feira a abertura de sindicâncias internas para investigar as denúncias de experimentos com proxalutamida no hospital da polícia militar gaúcha. O caso foi revelado em reportagem do Matinal publicada na véspera, que denunciou experimentos em seres humanos com proxalutamida, um antiandrogênico sem aprovação comercial de uso em nenhum lugar no mundo. Sem autorização para a importação do medicamento e testá-lo em pessoas, os médicos Ricardo Zimerman e Flávio Cadegiani rodaram o estudo em pacientes internados com Covid-19 no Hospital da Brigada Militar de Porto Alegre, com autorização do comando-geral da Brigada.
Em nota à imprensa, o comando da BM disse que determinou a abertura de sindicância apesar de “informações preliminares do Departamento de Saúde” da instituição “darem conta” de que o estudo teria obedecido às exigências dos órgãos competentes, como a Anvisa e a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). A nota da BM vai na contramão de declarações do próprio coordenador da Conep, Jorge Venâncio, à imprensa: “Neste caso, não houve nenhum pedido de realização de estudo nesse hospital com essa droga, a proxalutamida. Então nossa avaliação é que o estudo está inteiramente irregular”, disse Venâncio, em entrevista à Band RS sobre o caso.
Ao G1, a Conep também confirmou a informação revelada pelo Matinal, de que a Comissão desconhecia a realização dos estudos e que só soube do caso após a publicação da reportagem. Já a Anvisa ainda não se manifestou sobre o caso.
O Ministério Público Federal também abriu um inquérito para investigar as denúncias nas esferas cível e criminal.
Conselho médico apura infração ética
O Cremers, que é o responsável por fiscalizar o exercício da medicina no estado, afirmou que abriu uma sindicância “para investigar as graves denúncias e a existência de ilícito ético” reveladas pelo Matinal. A partir de agora, o órgão colherá mais informações nos próximos seis meses, prazo-limite para uma eventual denúncia.
“A sindicância abrange todas as pessoas denunciadas e informações relatadas na matéria, e vai eventualmente enquadrar, se confirmados indícios mais robustos, a abertura de um processo ético-profissional”, disse Eduardo Trindade, vice-presidente do Cremers. Por lei, esse tipo de apuração corre em sigilo e pode ter consequências que vão de sanções confidenciais até a cassação do registro médico, o que é raro e só ocorre com chancela do Conselho Federal de Medicina.
Com isso, o infectologista Ricardo Zimerman, coordenador do experimento com seres humanos denunciado pelo Matinal, pode responder a processos nas esferas cível e criminal, com base em representações do Ministério Público, e na esfera ética-profissional, por meio da apuração do Conselho Regional de Medicina.