Crônica | Juremir Machado da Silva

Crônica de uma demissão anunciada

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Crônica de uma demissão anunciada

Gabriel García Márquez não gostava que parafraseassem o título do seu famoso livro. Sou mais um a desobedecer. Entrei no Correio do Povo em 1º de setembro de 2000. Fui demitido em 3 de janeiro de 2022. Foram mais de 21 anos como colunista. No começo, uma vez por semana. A partir de 2004, duas vezes por semana. De 2007 até a última segunda-feira, todos os dias. Quatorze anos sem uma só falha. Nesse meio tempo, trabalhei na TV Record-RS, na Rádio Guaíba, onde fiz, com a Taline Oppitz, o programa Esfera Pública por dez anos e atuei também no esporte e no Bom Dia, matinal apresentado por Rogério Mendelski. Eu me imaginava muito velhinho ainda trabalhando ali. Até 2019, fui feliz. Havia liberdade e pluralismo. Eu me sentia muito vivo e forte.

Ser demitido tem sempre algo de humilhante. É a minha quarta humilhação. Fui dispensado da Zero Hora (1995), da IstoÉ (1996), da Rádio Guaíba (2019) e agora do Correio do Povo. A gente inevitavelmente se pergunta: o que fiz de errado? Neste caso, nada. Não menti e não criei problemas para a empresa. Ah, não votei em Jair Bolsonaro! A chegada dele ao poder mudou tudo no Grupo Record-RS, proprietário da Rádio Guaíba e do Correio do Povo. Antes disso, eles permitiam fartamente que se fizesse jornalismo, com respeito ao contraditório e sem misturar religião e política com as lides diárias da rotina jornalística. Nem tudo era perfeito. Nunca é. Mas era bom. Meu salário havia melhorado bastante. As oportunidades eram muitas.

Em 2010, fui convidado a criar um programa na Rádio Guaíba. Surgia o Esfera Pública, que se tornaria uma marca de prestígio da emissora. Quando me demitiram, tínhamos audiência, faturamento e reconhecimento. Políticos de direita e esquerda aplaudiam a amplitude do programa. Nele, todo mundo falava. Era ponto e contraponto. Então, em 2020, tive Covid, peguei na primeira leva dos infectados em Porto Alegre, fui hospitalizado, fiquei com sequelas, custei a recuperar a voz, passei mais de um mês afastado e, quando voltei, ainda combalido e com um fio de voz, programei uma entrevista com o ex-presidente Lula, depois da prisão. Seria para nós um belo feito jornalístico com possível repercussão nacional pelos fatos da época. Dez minutos antes de entrarmos no ar, em meio a muita tensão, a entrevista foi derrubada por ordem superior. Nando Gross, nosso chefe imediato, mostrou-se gigante no episódio tentando garantir a entrevista. A partir dali nossas demissões eram certas. Era só questão de tempo e de desgaste.

Depois que Nando saiu, fiquei à espera da minha degola. Todo dia tínhamos de submeter o rol de entrevistados ao diretor da rádio. Nomes entraram numa lista de proibidos. Depois de uma entrevista com a deputada Fernanda Melchionna (PSOL) soou o gongo para mim. A sequência era uma entrevista com o deputado Jerônimo Goergen (PP), mas a conexão da internet falhou, a conversa ficou mais curta e cortada. Em seguida, recebi um telefonema do departamento de Recursos Humanos pedindo o atestado médico de minha liberação para o trabalho depois da Covid. A justificativa era que tudo deveria estar na minha pasta para o caso de alguma fiscalização. Na verdade, era para processar a minha demissão sem deixar alguma brecha para alegações na justiça do trabalho. 


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A demissão foi decidida numa terça-feira, mas uma regra relativa à pandemia protegia todo mundo até a sexta-feira seguinte. Então me convocaram para uma reunião na sexta. Minha última apresentação do Esfera Pública terminou ao som de “apesar de você”, de Chico Buarque. Ficavam para trás grandes amigos, profissionais fantásticos, caras que entendem muito de esporte, de política, de cultura, da vida. Ficavam para trás dez anos ao lado da maravilhosa Taline Oppitz. Sofri muito.

Sobrevida no Correio do Povo

Há pessoas que lutam em meio à tempestade. Que grande diretor de redação é Telmo Flor, o homem que toca o dia a dia editorial do Correio do Povo. Uma figura humana extraordinária. As empresas são multifacetadas. Pessoas surgem e marcam as organizações com suas escolhas particulares. A partir da chegada de Jair Bolsonaro ao poder os pastores que comandam a Rádio Guaíba e o Correio do Povo começaram a se transformar. Aos poucos eles se radicalizaram como bolsonaristas cada vez mais fanáticos. Todo pluralismo foi murchando. Para continuar no jornal, baseado na minha “teoria da trincheira”, ficar dentro para dizer coisas importantes, mesmo sem poder dizer tudo, fui aceitando dizer cada vez menos. A política tornou-se tema interditado. Críticas a Bolsonaro ficaram quase impossíveis. Virei um malabarista diário.


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A censura cresceu. Eu tinha um podcast pendurado no site do jornal. Gravei um comentário quando Bolsonaro disse aquelas asneiras sobre o feijão e o fuzil, que idiota seria quem mandava comprar feijão, etc. O podcast foi imediatamente extinto. Fui me aprofundando na autocensura. Na época da família Ribeiro como proprietária do jornal não se criticava produtor rural. Produtor de soja, nem pensar. Com os novos donos transformados em cruzados bolsonaristas a lista de interdições aumentou. Explorei mais o meu lado cronista e até a minha veia poética. Os poucos temas bons passaram a ser comentários de filmes adequados ao momento sombrio que vivemos, como o tragicômico “Não olhe para cima”. Dava para falar de negacionismo sem precisar citar Bolsonaro, com o leitor compreendendo que era sobre ele.

E assim, tendo muitos leitores, levando patrocinadores, dando lucro e prestígio ao jornal, fazendo com Luiz Gonzaga Lopes o maravilhoso Caderno de Sábado, ressuscitado depois de décadas morto, fui demitido no começo deste novo ano. O sinal veio com a alteração justamente do bem-sucedido CS. De repente, veio a ordem de mudar tudo, de criar algo curto e de entretenimento. Salvamos duas páginas fazendo concessões. Os patrocinadores manifestaram em encontros o desejo de que o caderno fosse mantido como era. O patrão fez discurso na Biblioteca Pública prometendo respeitar as demandas. Na semana seguinte, porém, o caderno mudou. Era perder os anéis ou as mãos. 

Celso Dias, amigo que me viu cair muitas vezes e sempre fez boas frases para definir meus tombos, cravou quando eu lhe disse que não havia feito qualquer provocação: “Tu és a provocação, Juremir”. O grupo Record se prepara para uma luta inglória: reeleger o negacionista e incompetente Jair Bolsonaro. Apesar de insignificante, fui visto como uma pedrinha no caminho. O bispo não se dignou a me dar qualquer explicação. Estrategicamente alegou que eles tinham o direito de querer mudar. Não detestarei o Correio do Povo, como não detesto a Rádio Guaíba nem a Zero Hora. São pessoas que decidem. E passam. O maior mal que já vi o Brasil experimentar se chama Jair Bolsonaro, com a doença correspondente, o bolsonarismo. Vai passar. Ficará o estrago.


Juremir Machado da Silva é jornalista, escritor e professor na Famecos/PUC-RS. Autor de diversos títulos, lançou em 2021 Memória no Esquecimento, pela Editora Sulina.

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