Ensaio

1935, o ano que não terminou para Dyonélio

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1935, o ano que não terminou para Dyonélio

O ano em que foi publicado o romance Os ratos jamais teve fim para o seu autor. Dyonélio Machado teria que lembrar por toda sua vida o que foi e significou 1935. Ele foi preso por “delito de opinião”, sem acusação formal e muito menos alguma evidência. Foi submetido a uma detenção que teve como consequência sequelas que carregaria vida afora. A privação de liberdade e o Prêmio Machado de Assis ao mesmo tempo. 

Trata-se do livro mais conhecido dentro da obra dyoneliana. Os ratos e Dyonélio ainda são vítimas de desinformação, leituras e revisões apressadas e mal feitas.

As perseguições políticas para cima do doutor Dyonélio o marcariam por muito tempo. A mídia, as editoras, a academia e o público leitor parece que também decidiram condenar o autor de Um pobre homem (1927) a um ostracismo imerecido. Mesmo em outros livros, em outras editoras, em publicações mais contemporâneas, a “maldição” o alcança. É o caso de O louco do Cati, lançado originalmente pela Editora Globo em 1942. Quando saiu pela Editora Planeta, em 2003, apesar da bela edição, uma obra de Iberê Camargo na capa e a reprodução do mapa desenhado por Dyonélio que mostra os deslocamentos dos personagens, traz na orelha o seguinte: “Dyonélio Machado nasceu em Porto Alegre em 1895”. Ele foi um guri de fronteira, que veio ao mundo em Quaraí.

Outro exemplo: em seu pequeno e importante livro Matéria e Invenção – Ensaios de Literatura, o professor Flávio Loureiro Chaves, ao comentar e saudar o livro de Dyonélio comete um equívoco sobre o personagem principal; “assinalou um momento decisivo do romance brasileiro moderno narrando a antiepopeia de Naziazeno Barbosa, pobre desempregado, vagando pelas ruas em busca da solução que lhe assegure no horizonte do amanhã o pagamento do leiteiro, nada mais nada menos”. Na narrativa Naziazeno é reles funcionário público mas não um desempregado. Não chega a ser um grande erro, mas é uma inconsistência. Até mesmo na chamada grande imprensa há disparates. O jornal Folha de S. Paulo de 3 de janeiro de 1999 publicou, no seu caderno Mais!, uma edição dedicada aos “100 Melhores Romances do Século”, dos quais destacou trinta brasileiros. Colocou esta obra de Dyonélio na 20ª posição: 

Os ratos (1936) – Dyonélio Machado (1895-1985) Ática (R$ 8,80). Psiquiatra de profissão, o escritor gaúcho perscruta com argúcia psicológica a consciência de Naziazeno, que, com quatro filhos e sem dinheiro para pagar o leiteiro, é vítima de um gradual processo alucinatório”. 

O livro é de 1935, e Naziazeno e sua mulher Adelaide têm apenas um filho.  Que seja feito o seguinte reparo: o júri que elencou a lista dos 30 romances brasileiros contava, entre outros, com Moacyr Scliar e Carlos Heitor Cony, os dois únicos a destacar o livro de Dyonélio.  

Rara é a síntese de um mestre, como é o caso de Antônio Cândido: “Menos famoso foi Dyonélio Machado (1895-1985), em cuja obra se destaca o romance Os ratos (1935), que nada tem de regionalismo. Construído com grande economia verbal e um perfeito domínio da narrativa, ele situa bem acima da média da ficção brasileira, contando a história de um dia na vida de um pobre homem à busca de dinheiro, no meio da insensibilidade opaca da grande cidade”. Está em Iniciação à literatura brasileira. Os fatos singelos de Porto Alegre, 1935: a cidade preparava a inauguração de um evento comemorativo do centenário de uma derrota, a Exposição Farroupilha. O estado era governado pelo interventor Flores da Cunha. Vivia-se o primeiro lustro da Era Vargas. Neste cenário, um jornalista, que apenas queria fazer o seu trabalho, conversava com Dyonélio Machado na noite do comício da Aliança Libertadora Nacional (ALN), que acontecia no Theatro São Pedro. Encontro do repórter Paulo Koetz e Dyonélio, que de fato estava liderando o evento. Este acontecimento acabaria na prisão do escritor. Isso tudo está no excelente livro de Rafael Guimaraens, 1935, da editora Libretos, publicado em 2020.


José Weis é jornalista.

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