Ensaio

8M 2024 em Buenos Aires

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8M 2024 em Buenos Aires Foto: Fernando Seffner
Vibrante e contagiante, além de multitudinária, são palavras corretas, mas ainda de pouca intensidade para descrever a experiência do 8M 2024 em Buenos Aires. Mas comecemos do início. Ter o feminismo como inimigo é uma constante dos governos da extrema direita. Vivemos isso no Brasil, acompanhamos tal cartilha nos Estados Unidos de Trump, na Hungria de Viktor Orbán, na história recente da Polônia e em outros países. Esse é o contexto no qual a realização do 8M aconteceu na Argentina, particularmente em Buenos Aires, onde pude acompanhar. O governo Milei revela absoluta necessidade em ser antifeminista. O discurso do presidente é violento e agressivo com as feministas, utiliza palavrões como forma de humilhação, é repleto de manifestações misóginas, e de preconceitos diversos, que atingem não apenas as mulheres, mas as pessoas com deficiência, os pobres, a diversidade de orientação sexual, os moradores das províncias. Suas falas apoiam-se em uma visão de mundo religiosa fundamentalista, onde a boa mulher é aquela subordinada ao homem. A despeito disso, seu gabinete de governo incorpora mulheres de destaque em muitos cargos, inclusive na vice-presidência, e sua irmã atua como chefe de gabinete e primeira-dama. Tais mulheres são todas antifeministas e de extrema direita, com uma disposição para a atuação midiática que guarda semelhança com a do presidente, à exceção de sua irmã, que parece agir de modo mais silencioso.  A Argentina tem um conjunto de leis que protege a expressão da diversidade de gênero e sexualidade, que busca combater o assédio e a violência de gênero, que assegura o casamento igualitário, que implantou a educação sexual integral nos currículos escolares há muitos anos, que acolhe a linguagem inclusiva na prática de governo, que assegura direitos à população de travestis e transexuais, e tem uma lei que garante a interrupção voluntária da gravidez. Não é pouca coisa em termos de garantias legais. A Argentina é um país de lideranças políticas femininas fortes, com nomes como Eva Perón e Cristina Kirchner. Para a minha geração, a cantora Mercedes Sosa ecoa as lutas de emancipação da esquerda latino-americana. E é um país de movimento feminista de grande reconhecimento mundial. Aqui se criou a marca dos “pañuelos verdes”, que se popularizou por toda a América Latina e daqui ganhou o mundo, como símbolo da luta pelo direito ao aborto. Sua inspiração foram os “pañuelos blancos”, marca das Madres de Plaza de Mayo, outro movimento de mulheres, ligado aos temas da memória, verdade e justiça, que têm reconhecimento mundial. Desde o final de janeiro acompanho a preparação do 8M, via notícias de jornais, pertencimento a redes sociais, participação direta em reuniões e conversas com colegas. A primeira coisa que me deixou fascinado foram os esforços nos muitos encontros para responder à questão: o que devemos colocar na mesa neste 8M? Quatro estratégias se desenharam e se interconectaram. A primeira diz respeito à preocupação em garantir o aparato legal já existente no país nas questões em gênero e sexualidade, impedindo que ele seja destruído nas investidas do atual governo. A […]

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