Ensaio

A astúcia brasileira (Parte 2)

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A astúcia brasileira (Parte 2) Joaquim Nabuco (Foto/Reprodução)

Joaquim Nabuco

A certa altura da vida, pode-se dizer que o fervor de reparação moral, o desejo de correção política, a disposição para a persuasão estratégica perdem grande parte da sua consistência e mesmo pertinência, abrindo espaço para o amor à quietude do espírito, às formas sedimentadas da tradição e ao universalismo do sentimento envolvido pela razão. Não se pode prever o momento, muito menos a forma. Se é na maturidade, na velhice. Muitas vezes pode se aventar, como prefiguração, a infância, os momentos de formação da intimidade, as ancoragens do pensamento na imaginação solta e desprendida dos vícios do sonho de reconhecimento social da idade adulta. 

Em grande medida, o livro Minha formação, de Joaquim Nabuco (1849-1910) apresenta este estado d’alma e é dele que trataremos aqui, deixando em segundo plano textos mais aguerridos e, mesmo, radicais da sua juventude, como “O abolicionismo”, de uma fase aliás repensada, ou melhor, maturada em “Minha Formação”. O livro remete à primeira variação da astúcia brasileira, aquela que vê a presença de ganhos civilizatórios e a criação de uma cultura popular vigorosa, a despeito ou em relação com a modernização conservadora. A ambivalência, o impasse sem solução dessa variação ressoam em toda sua complexidade no texto de Nabuco neste livro, mais do que em qualquer outro. 

Nabuco é demasiado conhecido de todos nós, havendo uma série de estudos sobre a sua obra e sobre o papel do autor na política brasileira da segunda metade do século XIX, em diferentes perspectivas, do ensaio cultural a um conjunto de teses acadêmicas. Seria repetitivo e mesmo cansativo fazer uma enumeração deles aqui. Seus textos e reflexões foram também objetos do trabalho de um conhecido artista da canção brasileira, especialmente os associados a este livro. O prefácio para uma edição posterior do livro, escrito por Gilberto Freyre, traz à tona seus principais sentidos, seja no que diz respeito à singularidade da forma textual autobiográfica para o campo intelectual brasileiro da época, seja no que diz respeito mesmo ao seu interesse sociológico para a formação do Brasil. 

Minha formação tem como tema central a reconciliação de Nabuco com a Cristandade. Isso significa, no fundo, uma reconciliação com o Espírito, a civilização Europeia e o Universalismo. A própria causa abolicionista estaria diretamente vinculada a isso, pois se trataria de uma causa de emancipação da humanidade. O interesse de Nabuco pela Monarquia constitucional como forma política diz respeito também a este recuo para formas de historicidades que se situam no limite do mito e, mesmo, do divino. E isso, por uma recusa à “política menor” e, por extensão, à produção da vida social de caráter excessivamente contextualista, particular, de feição regional. São assim estas dimensões que perpassam o seu texto profundamente reflexivo: reconciliação com a Cristandade, o Espírito e o Universalismo europeu, tendo como expressão central a luta pela emancipação radical da humanidade, cujo marco se situaria na abolição da escravidão no país. 

A estes elementos deve se somar a sua infância, como formação íntima de si, e o seu amor ao Brasil, como lugar de concentração do sentimento e do coração. É o que se pode ver em Massangana. Este texto une a questão da infância, como cintilação primeva da vida humana, com a causa de emancipação da humanidade no abolicionismo. Esta emancipação da humanidade teria uma dupla singularidade: trata-se da questão da luta pelo fim da escravidão negra e, ao mesmo tempo, trata-se da afirmação amorosa da forma como escravos e escravas moldaram a sociedade brasileira. E aqui se situa uma dimensão muito importante do pensamento de Nabuco, pois a escravidão expressaria tanto os horrores e monstruosidades do comércio de pessoas no período colonial quanto o fato de que estas pessoas, ainda que envolvidas de forma hierárquica na sociedade, deram à cultura brasileira uma contribuição vital e originalíssima. 

Quem sabe se não estamos aqui diante de uma imaginação que prefigura um lugar possível para a realização do Brasil no concerto das nações como possível espaço de concentração do espírito do mundo através da emancipação de pessoas negras e a afirmação de uma nova humanidade? Exagerando um pouco, ou talvez nem tanto, não é disso que tratam hoje intelectuais mais novos, ao dizerem que precisamos evidenciar a identidade racial – e, por extensão, todos os problemas do racismo – para superá-la e, com isso, quem o sabe, fundar um novo Universal? Tal qual, aliás, antevia Darcy Ribeiro?

Em “Atração do mundo”, o amor à sedimentação histórica e às formas sociais materializadas nas construções arquitetônicas, nas obras de arte e, mesmo, nos tipos de sociabilidade faz com que Nabuco apresente diferenciações entre o mundo novo, associado mais propriamente ao Brasil, e o velho mundo europeu, em especial ao sentido da forma com que o espírito humano habita o mundo. O tipo social do novo mundo teria uma duplicidade na formação da sua sensibilidade. De um lado, a relação com o país de origem e nascimento, baseada no sentimento e no coração; de outro a relação com a origem do país, no caso do “novo mundo” a Europa, o Ocidente, em suma, o pensamento. Ora, o Brasil e o novo mundo teriam àquela altura uma história ainda por fazer, com suas amplas e belas paisagens desvinculadas da tradição e da vanguarda do espírito, diferentemente da Europa. 

No entanto, nada o impede de pensar que os volteios do espírito humano podem ter o Brasil e o Novo Mundo em algum momento como o centro de sua irradiação, luminosidade e expressão. A luta pela abolição da escravidão teria sido justamente um destes momentos em que o Brasil seria o ponto da terra para onde estaria “apontado o dedo de Deus” e significou, em grande medida, uma ação de emancipação da humanidade. 

No texto “Influência dos Estados Unidos”, mostra fina argúcia ao tratar da formação do tipo social estadunidense, muito mais impulsionado para a afirmação da vida prática do que propriamente para a contemplação estética ou intelectual. Ao mesmo tempo em que ali se prenunciava, embora sem negar a Europa, o que poderíamos chamar verdadeiramente de “mundo novo”, na medida em que tudo levava a crer que os EUA se transformariam na vanguarda da modernidade e do capitalismo no século XX. 

Já em “Londres” o impulso para a vida prática não é necessariamente da mesma ordem. Em primeiro lugar, Nabuco situa a capital britânica no contexto da Europa. Londres seria uma espécie de “China” da Europa, por conta do seu isolamento e da sua grandiosidade, quase como se ali se constituíssem formas de vida muito singulares em comparação com o cosmopolitismo de Paris, por exemplo. Uma ilha, tanto real quanto metaforicamente, que, curiosamente, ocuparia uma centralidade equiparável às grandes cidades da história, por sua vitalidade e energia nos meandros do dinheiro, nos espaçamentos e perspectivas arquitetônicas, junto à calmaria, às pausas silenciosas, à autoconsciência de sua grandeza de feição imperial. 

No último texto, “Os últimos dez anos (1889-1899)” a aquietação do espírito encontra refúgio no universalismo da cristandade, na beleza das formas simbólicas da religião. Entre o Brasil, expressão do mundo novo, do sentimento, e a Europa, expressão do mundo das formas históricas e estéticas sedimentadas que concentra a própria forma do Espírito, poderia haver um outro lugar que enlaçaria sentimento, imaginação e pensamento e que teria no seu núcleo de sentido a religião cuja forma simbólica Universal se expressaria de forma mais aguda e, mesmo bela, na Cristandade. Mas um sentimento religioso que vai ao encontro com as formas do espírito sedimentadas pela história e pelas letras, como mostra Nabuco numa das mais belas passagens do livro, com a qual damos por encerrada a nossa breve apresentação:

Foi a necessidade de cultivar interiormente a benevolência o que, talvez, me dispôs a trocar definitivamente a política pelas letras, a dar minha vida ativa por encerrada, reservando como vocação intelectual o saldo de dias que me restasse para polir imagens, sentimentos, lembranças que eu quisera levar na alma…


Marcos Lacerda é sociólogo e ensaísta, com doutorado em sociologia pelo IESP-UERJ. Foi Diretor nacional de Música da Funarte, de 2015 a 2017. No âmbito da sociologia e teoria social, publicou os livros “A sociedade das tecnociências de mercadorias: introdução à obra de Hermínio Martins” (2020) e “Sociologia das tecnociências: ensaios de teoria social portuguesa” (2020, com André Magnelli). No âmbito da crítica e do ensaio cultural, publicou como organizador o livro “Música: Coleção ensaios contemporâneos” (2016) e como autor “Hotel Universo: a poética de Ronaldo Bastos” (2019). Atualmente, faz uma pesquisa sobre a obra de Vitor Ramil e um estágio de pós-doutorado em sociologia no PPGS/UFPEL. 

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