Ensaio

A ponte e o canudo

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A ponte e o canudo

Mario Quintana não gostava de padres, nem de críticos, nem de canudinhos de refresco: “Não há nada que substitua o sabor da comunicação direta”, disse.

Boa, Mario. Não consta, mesmo, que ele tenha se interessado pela carreira eclesiástica (e que belo soneto é “Se eu fosse um padre”); não sei se exerceu crítica literária ocasional… mas – e aqui é que sou obrigado a dissentir – eu sei que ele foi, sim, canudinho de refresco.

De fonte segura. Não porque ele foi um tradutor, mas pela intermediação inevitável que o escritor e o artista representam ou constroem ou, diretamente, são. 

O refresco serão as ruas que ele andou, ou as que ele nunca andará. Será um personagem campeiro fronteiriço, com ar de delírio, que diz no meio da noite a um poeta sonolento: “Não vê que eu sou o sereno” – ou será um anjo.

O pontífice constrói a ponte – e é a ponte; não entrega nada naquele talvez impossível conceito de “comunicação direta”. E quando recebemos, já não há a fonte – ou então só naquele exato instante ela existe, corre, rumoreja e refresca.

Entre-se em um estúdio de gravação determinado a registrar a voz tal como é ou como se a escuta no mundo: exata, pura. Captá-la sem nenhum recurso, nenhum efeito, jamais dará esse resultado. A técnica e a sensibilidade; a intermediação e intervenção oferecerão, buscarão ou recriarão o entorno, o ambiente, a realidade. A voz pura não soa pura? Algo assim. 

[Continua...]

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Mario Quintana não gostava de padres, nem de críticos, nem de canudinhos de refresco: “Não há nada que substitua o sabor da comunicação direta”, disse.

Boa, Mario. Não consta, mesmo, que ele tenha se interessado pela carreira eclesiástica (e que belo soneto é “Se eu fosse um padre”); não sei se exerceu crítica literária ocasional… mas – e aqui é que sou obrigado a dissentir – eu sei que ele foi, sim, canudinho de refresco.

De fonte segura. Não porque ele foi um tradutor, mas pela intermediação inevitável que o escritor e o artista representam ou constroem ou, diretamente, são. 

O refresco serão as ruas que ele andou, ou as que ele nunca andará. Será um personagem campeiro fronteiriço, com ar de delírio, que diz no meio da noite a um poeta sonolento: “Não vê que eu sou o sereno” – ou será um anjo.

O pontífice constrói a ponte – e é a ponte; não entrega nada naquele talvez impossível conceito de “comunicação direta”. E quando recebemos, já não há a fonte – ou então só naquele exato instante ela existe, corre, rumoreja e refresca.

Entre-se em um estúdio de gravação determinado a registrar a voz tal como é ou como se a escuta no mundo: exata, pura. Captá-la sem nenhum recurso, nenhum efeito, jamais dará esse resultado. A técnica e a sensibilidade; a intermediação e intervenção oferecerão, buscarão ou recriarão o entorno, o ambiente, a realidade. A voz pura não soa pura? Algo assim. 

Descartes, desconfiado como cavalo torto dum olho, disse: “…observei muitas vezes que torres, que de longe me pareciam redondas, de perto pareciam-me quadradas, e que enormes estátuas, erigidas sobre os mais altos cimos dessas torres, pareciam-me pequenas quando as olhava de baixo”. É isso, só que de propósito. Ao longo da História da Arte e da Arquitetura, muitos artistas não foram ou não são estritos ou exatos nas proporções, para que, vistas do ângulo do observador, as obras sejam exata e estritamente proporcionais. Como torres feitas quadradas justamente para que o René, ao longe, as veja redondas. Inteligentes canudos de transmissão de verdades. 

Quem escuta e se põe diante do ator e recitador argentino Golondrina Ruíz reconhece um sábio campeiro, crioulo, mestiço. Sua aparência, seu olhar, sua voz, sua fala. Mais: o ouvinte e espectador se sente, a si próprio, claramente, entre cheiros e estalidos de fogo de cerne, entre ares e sons de um lugar querido da memória ou de lugar algum e memória nenhuma, mas conhecidos. 

Muitas vezes alguém que tenhamos como autóctone, alguém de um isolado fundo de campo, que nunca conheceu outro meio e outra vida, não nos passará uma impressão tão genuína, por paradoxal que isso possa ser ou parecer. Poderá soar como a voz colhida sem nenhum recurso. 

É neste ponto que ofereço duas reflexões, para mim já antigas. A primeira, sobre o fenômeno bastante constrangedor – o suficiente para eu me furtar a dar exemplos – do poeta, ou cantor, ou escritor, ou intérprete de linha tradicional, popular, que reconstrói sua biografia de forma a legitimar-se por uma espécie de organicidade.

Desde o lamentável momento em que quem está diante da obra só consegue conferir-lhe potência se a imaginar ligada a determinadas vivências e origens, não é nada raro que o intérprete ou criador compre o pacto – e faça pensar, ou permita pensar, que sim, viveu a vida que justificaria o que cria ou apresenta.  

Por que lamentável? Porque quem sai perdendo é nossa capacidade de conferir potência à arte ou à narrativa, confiar em seu vigor infinito. No mundo das coisas crioulas do Prata e Rio Grande do Sul, que me é mais conhecido, esse enredo é muito frequente e notável. 

Já disse várias vezes que quando alguém, emocionado, me diz algo como “só quem já partejou uma égua em um agosto chuvoso, de madrugada, em um banhado, pode entender essa música”, respondo “então, essa música não serve”. Cada vez mais, são muito poucos os que têm ou tiveram essas vivências; uma obra de arte tem que servir a qualquer pessoa, ou a muitas pessoas, de preferência em muitos tempos, em muitos lugares. Mas diante dessa terrível exigência, tão limitadora, não são poucos os artistas que simulam, em alguma medida, viver ou ter vivido contextos e experiências. 

E olha que falo de alguns grandes, não apenas de jovens que terminam, como hoje acontece tanto, por criar, de fato, uma realidade paralela, voltando-se de maneira militante para formas de vida, ambientes, linguagens, sistemas de valores que creem que tornarão legítimos ou verossímeis seu canto ou seus versos. E acho louvável tentar conhecer o melhor possível as coisas que se cantam ou de que se fala; tratei de fazer sempre isso. Refiro-me a outra coisa; uma convicção de que não há como tocar certos temas, tempos, ambientes, vivências, sem pertencer da forma mais total e orgânica a eles. E imagino a angústia. Tomar como tua única verdade constitutiva a narrativa de algumas férias passadas na campanha, os relatos de antepassados, ou mesmo tua atividade atual, deliberada, laboratorial, de recriação (e muitas vezes de recreação) de ambientes campeiros, tais como os idealizas… e a cada instante encontrar-te com os limites e as insuficiências dessa construção. Como é perceptível quando alguém se esforça permanentemente para afirmar “canto isso, escrevo sobre isso, porque isso é o que sou; juro!” 

Aí entra minha segunda reflexão antiga. Domingos Faustino Sarmiento. Facundo: Civilização e Barbárie. 

Quanta gente escreveu sobre o gaúcho, sua gênese, sua constituição, partindo daquele clássico de jovem sociologia americana. Antes de entrar na biografia anunciada no título, Sarmiento tem um primeiro capítulo magistral, “Aspecto físico da República Argentina e caracteres, hábitos e ideias que engendra”. Ali, tipifica o habitante das campanhas bárbaras daqueles meados do século XIX utilizando quatro tipos ideais, para desembocar em Facundo; esse, um Tipo Ideal, assim, com maiúsculas (e isso que Weber estava nascendo).

Os quatro personagens escolhidos para expressar a alma, o pensamento, a identidade fundacional mestiça americana são o rastreador, o vaqueano, o “gaucho malo” e o cantor. Provoco com uma só pergunta: qual restou? Desdobro-a: qual, além de restar, aumentou mais e mais sua presença, sua importância, seu espaço e a transcendência de seu espaço? Qual deles conduz, tempo afora, aquela alma, aquele pensamento, aquela identidade, quando já há tanto tempo não há rastro dos rastreadores; gauchos malos foram substituídos por criminosos sem romantismo e vaqueanos deram lugar a GPSs? 

Uma das experiências mais belas e gratas que tenho, lidando com a música e a poesia com que lido, é ser percebido e recebido como um igual, por gente que vive no campo, de forma tradicional. É a confirmação de Sarmiento, quase duzentos anos passados. O cantor era um daqueles quatro tipos – e nenhum deles carregava em si legitimidade ou representatividade maior ou menor. Que desastre seria se eu tentasse convencer aqueles campeiros observadores e inteligentes que um passado, uma origem, uma contingência pode explicar o que faço ali, naquele momento. 

Não faz falta que o cantor tenha conhecido de perto um gaucho malo; que um seu tio tenha sido um vaqueano. Não é preciso que ele se dedique a exercer, na beira do asfalto, no intervalo das atividades compatíveis com o tempo que lhe tocou viver, o antigo ofício de rastreador. Ele pontifica. Ele tem o condão de todas as transmissões. Ele não é o refresco – mas sim, é; porque sem ele, o refresco não há. Quintana sabe disso. Pontífice. No último terceto daquele seu soneto belo, Se eu fosse um padre, ele diz, clarito como água da fonte:

Porque a poesia purifica a alma
… e um belo poema – ainda que de Deus se aparte –
um belo poema sempre leva a Deus! 


Demétrio de Freitas Xavier é cantor, violonista, intérprete da obra de Atahualpa Yupanqui, e criador do programa “Cantos do Sul da Terra”, que apresenta semanalmente na FM Cultura.

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