Arthur de Faria | Ensaio

A Porto Alegre da enchente de 41

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A Porto Alegre da enchente de 41 Enchente de 1941. Foto: Arquivo CP

Toda a população, incluindo dezenas de artistas em shows beneficentes, se organizou para ajudar os flagelados de 41. 

As chuvas chegaram com a Páscoa e custaram a parar. Quando finalmente o fizeram, o Guaíba continuou subindo, como agora – por causa da água que descia dos seus afluentes. Dia oito de maio a cheia alcançou seu ponto máximo: o lago, estuário, rio (ou como queiramos chamá-lo) estava quatro metros e 76 centímetros acima de seu leito.

Parou tudo: 70 mil flagelados, 50 milhões de dólares de prejuízo. 

Nada perto da desgraça atual, mas uma desgraça inédita até então.

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Vem comigo pra entender o que era essa Porto Alegre da Enchente de 41.

No censo de 1940, a cidade já estava toda grandinha: 272 mil habitantes. Destes, 132 mil homens e 140 mil mulheres – com apenas sete mil delas trabalhando fora de casa, o que dá uma boa mostra do conservadorismo local. Duzentos e trinta mil brancos, 19 mil negros e 22 mil pardos – além de, contados um a um, 92 amarelos. Dessa gente toda, 228 mil eram católicos, 21 mil protestantes, 12 mil espíritas e quatro mil israelitas (números ligeiramente arredondados pelo pouco metódico autor destas mal-traçadas linhas).

Todo esse pessoal vivia em 50 mil residências, a maioria – 29 mil – de madeira. Um terço da população era analfabeta: 60 mil porto-alegrenses acima de 10 anos. Achou ruim? Pois a média nacional era muito pior: mais da metade (55%) dos 41 milhões de brasileiros não sabia nem ler nem escrever em 1940.

Vinte e quatro mil operários trabalhavam em 675 fábricas. As principais, invariavelmente, eram de descendentes de alemães: Renner, Wallig, Gerdau, Neugebauer, Bier e Bopp. Além disso, havia 2.104 casas comerciais – somando 20 mil funcionários -, oito mil funcionários públicos, seis mil homens servindo no exército, brigada militar e polícia civil, e três mil profissionais liberais – na sua maioria advogados, médicos, dentistas e contadores.

Os cinemas trocavam a programação a cada três dias. E estamos no auge da então chamada Pequena Broadway, que era o trecho da rua da Praia entre a General Câmara e a Payssandu (futura Caldas Junior). Se um a cada 10 porto-alegrenses decidisse ir assistir a um filme na mesma hora, ninguém ficaria de pé: as 22 salas de cinema ofereciam 26.218 lugares.

Também a Era do Rádio entrava numa década áurea, com a Rádio Gaúcha (1927) e a Farroupilha (1935) começando sua briga pelo número um. Seguidas pelo terceiro lugar da Difusora (de 1934), que tinha o melhor programa de calouros, o A Hora do Bicho, apresentado pelo flautista e compositor Piratini. O mesmo que acabara de realizar o primeiro filme falado do Rio Grande do Sul, em 1940: um curta-metragem chamado Cachorricídio

Estávamos em pleno Estado Novo, a ditadura de Getúlio Vargas que foi de 1937 a 1945. O Brasil ainda não entrara na Segunda Guerra, porque nosso ditador ainda avaliava de que lado seria melhor estar.

O Correio do Povo era o principal jornal, seguido pela Folha da Tarde, do mesmo grupo. 

Na prefeitura, nomeado pelo Estado Novo, José Loureiro da Silva remodelava Porto Alegre na primeira de suas duas administrações. O cara ganhou o apelido de “O Poeta da Cidade”: abriu a Farrapos – ligando o Centro à Zona Norte -, plantou jardins, ergueu monumentos, redesenhou ruas e avenidas. Tocou o redirecionamento e a canalização do Arroio Dilúvio, o Hospital de Pronto-Socorro, o Centro de Saúde Modelo e a Prefeitura Nova. Estreou as sinaleiras e quebrou o monopólio da luz e dos bondes, que era da Cia Brasileira de Força Elétrica, subsidiária da americana Electric Bond & Share.

Isso, pelo lado bom.

Pelo mau, aproveitou-se do regime ditatorial e usou as leis de exceção do momento para desapropriar sem dó mais de 900 casas de gente pobre. Quando um coitado era visitado por “João Macaco” – o funcionário público João Pereira Duarte – já sabia que em instantes chegariam as pás e picaretas pondo tudo abaixo, mesmo quando os moradores se recusavam a sair.

Resultado: cinco quilômetros de Avenida Farrapos custaram míseros 12 mil contos, incluindo obras, iluminação e desapropriações. Para se ter uma ideia de quão mal se indenizou os antigos moradores, o Viaduto da Borges, inaugurado apenas dois anos antes, tinha custado 35 mil contos para os intendentes Otávio Rocha e Alberto Bins.

Não era jeito, era força.

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Avenida Borges, 1938

E como era um dia da classe média branca porto-alegrense desses anos? 

O programa obrigatório era o footing na rua da Praia, descrito à perfeição por um sujeito que nem era nascido na época, o jornalista e escritor Rafael Guimaraens. O mesmo que escreveu o sensacional A Enchente de 41. 

Tá lá no seu livro Rua da Praia – Um Passeio no Tempo:

Mulheres, homens e crianças, todos praticavam o footing. Mas o protagonismo é delas, das mocinhas sorridentes que desfilam pela passarela realçada de vitrines elegantes, coração palpitando sob os olhares e galanteios dos engravatados que se agrupam ao longo da Rua da Praia.

Recato e malícia marcam encontro. flirt está no ar.

Elas saem em grupos ou se fazem acompanhar por senhoras vigilantes. A programação depende do dia. Se é sábado, as lojas estão abertas. (…) Uma boa parada na Krahe, (…) Casa Louro ou a Sloper (…) perfumes importados da Casa Lyra. (…) As joias e relógios da Masson cintilam. A vitrine da bombonière convida ao pecado da gula. Diante da Livraria do Globo, senhores circunspectos passam a limpo as vicissitudes do mundo.

(…)

Poucos passos adiante, os calçados finos da Casa Seabra complementam-se com o variado sortimento de meias da Casa Coelho. Quase grudadas, a Casa Victor e a Coates disputam quem oferece as últimas novidades em eletrodomésticos. Segue o footing rumo à Praça da Alfândega, para um sorvete no Café Colombo (às vezes chamado de café, às vezes de confeitaria) ou alguma guloseima na Confeitaria Central.

Como bem lembra o Rafa, o Largo dos Medeiros foi a primeira Esquina Democrática de Porto Alegre. Afinal, nos vértices do Largo dos Medeiros estavam: a Livraria Americana; as confeitarias/cafés Colombo e Central (cujos donos eram os irmãos Medeiros que deram nome ao Largo); e o Edifício Chaves Barcellos. Foi ali que se comemorou a greve geral de 1917. Ali se concentraram as comemorações pela Revolução de 30. Ali se protestará contra o nazismo em 1942. 

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O Largo, em foto do Virgílio Calegari

E então chegava a noite, e a cidade via o florescer de uma geração de músicos boêmios que reinará até meados dos anos 1960. Por mais de trinta anos, a vida seria uma festa para nomes como Lupicínio, Johnson, Rubens Santos, Alcides Gonçalves, Luiz Telles… Uma espécie de confraria informal, com eventuais associações e dissidências, que naquele momento comemorava escondida a volta de Demosthenes Gonzales. 

Depois de várias prisões políticas em São Paulo e Rio ao longo do governo Vargas, Gonzales escapara de mais uma, no carnaval, e fugiu pra Porto Alegre, onde vai circular tão sem preocupações que no ano seguinte é preso novamente. Desta vez por sete anos. Motivo: era comunista. 

Naquele momento, Lupicínio Rodrigues – o futuro maior compositor popular de Porto Alegre – provavelmente estava pensando que seu melhor momento já tinha passado. Morava na Ilhota (que, evidentemente estava alagada), trabalhava como bedel (uma espécie de porteiro/auxiliar de disciplina) da faculdade de direito. E, aos 36 anos, tinha tido um único sucesso nacional: Se Acaso Você Chegasse, gravada por Cyro Monteiro em 1938. Há pouco passara uns meses no Rio de Janeiro tentando emplacar como compositor, mas a viagem não dera em nada concreto.

Mesmo sua popularidade em Porto Alegre, crescida a partir da segunda metade da década anterior graças ao fato de o samba finalmente estar chegando à cidade, estava em baixa. Lupi tinha então míseras cinco músicas gravadas.

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Mas se divertia, ah se divertia.

Roteiro básico da turma: Chalé da Praça XV, Gambrinus, Treviso, Hubertus, Pelotense, Bela Gaúcha e, daí para os cabarés: a Boite Marabá – que tinha, além de um jazz band e uma orquestra típica de tango, um pequeno combo de meia dúzia de figuras, liderado pelo saxofonista Marino dos Santos. O Maipú, animado por dois grandes músicos, ambos coincidentemente cegos: o multi-instrumentista Arthur Elsner e o bandoneonista Juvenal de Paula Guedes. O Istambul e o American Boite. 

Todas com ao menos dois conjuntos contratados: um jazz, que tocava música brasileira, caribenha e estadunidense. E uma típica, que só tocava tangos e milongas. Isso, até meados dos anos 1950.

Muitos músicos desses grupos iam se revezando, em diferentes horários e endereços que foram se concentrando na Voluntários da Pátria, mais conhecida como a rua do Pecado. Começando no Mercado Público, no centro, e adentrando pela Zona Norte, a rua acabou ostentando uma fila de cabarés.

Com isso, fervia de instrumentistas e cantores a noite inteira, já que a maior parte ia a pé de uma casa à outra. Se encontrando pelo caminho, botando os assuntos em dia, e dando eventuais pausas para adentrar algum dos cabarés e tirar uma das moças para dançar – se fosse só dançar, pra músico era de graça.

Outro ponto fundamental na cidade era a Livraria do Globo, que se tornara uma das maiores editoras do país. Sente o time: Mario Quintana – que estreara em livro ali um ano antes, em 1940, com Rua dos Cataventos -, Erico Verissimo (que já era uma estrela e publicaria nela suas mais de 30 obras), Dyonélio Machado, Darcy Azambuja, Vianna Moog, Athos Damasceno Ferreira. Mais as traduções, onde a editora sedimentaria sua fama de pioneira, em obras como As Vinhas da Ira, de Steinbeck e Contraponto, de Aldous Huxley – vertida ao português por ninguém menos que Erico. E ainda Thomas Mann, Virgínia Woolf, James Joyce, a Comédia Humana de Balzac. Ou Em Busca do Tempo Perdido, do Proust, aparecendo no país pela primeira vez, traduzido pelo Quintana.

Tanto quanto dos livros, a fama da editora viria também da Revista da Globo, que começa a ser publicada em 1929 e estava então entrando no seu momento auge como uma revista nacional. 

E o Carnaval?

Com o Estado Novo começara o “acariocamento” do carnaval porto-alegrense. Já em 1938, José Loureiro da Silva passa a organizar o festa da mesma forma que na Capital Federal: os governantes decidiam quem receberia apoio financeiro, obrigando todo mundo a pedir autorização na Delegacia Especial de Costumes, com censura prévia de todas as músicas carnavalescas. Em troca disso, concorriam a prêmios bem pagos.

Em 1939 os irmãos Nelson e Joaquim Lucena, vindos do Rio de Janeiro, fundam com amigos a primeira escola de samba da cidade, a Loucos de Alegria. Que já em 1940 terá a concorrência da Gente do Morro, fundada pelos mesmos Lucena, agora brigados com seus ex-amigos. 

Por fim, as grandes estrelas musicais deste momento, hoje totalmente esquecidas: o pianista Paulo Coelho e seu Jazz, cujos prinpicais crooners eram os cantores mais populares da cidade: Horacina Corrêa e Alcides Gonçalves (o responsável pelas primeiras duas músicas gravadas de Lupicínio, em 1936).

Paulo morreria pouco depois da enchente, de um enfarte em plena rua, aos 31 anos. Infelizmente, deixou apenas um disco gravado, em Buenos Aires. Nele está a canção mais importante dessa época sem gravadoras em Porto Alegre: Alto da Bronze, uma das suas parcerias com o letrista Plauto de Azambuja Soares, jornalista da Folha da Tarde que atendia pelo apelido de Foquinha. Que também morreu jovem e tragicamente – aos 23 anos, durante uma reportagem, participativa demais, sobre corridas de automóvel. 

O irônico é que a canção, em 1938, já falava da melancolia de um tempo bom que não volta nunca mais. 

Virou um dos hinos informais da cidade, homenagem àquele canto da colina onde Paulo e Porto Alegre nasceram – perto da Praça da Matriz, rumo à Usina do Gasômetro, de onde se avista… o Guaíba:

Alto da Bronze, cabeça quebrada, praça querida
Sempre lembrada, a Praça 11 da molecada
Praça sem banco, do rato branco e do futebol
Da garotada endiabrada das manhãs de sol
És a eterna lembrança
Do tempo feliz em que eu era criança
Tempo em que essa era, da minha infância, a grande quimera
Hoje, eu, pobre profano, me lembro de ti e dos meus desenganos
Oh, meu Alto da Bronze dos meus oitos anos…

Paulo e seu Jazz ao vivo na Rádio Farroupilha, direto do Cine Apollo, em 1937. Foto: Acervo Alberto do Canto.


Arthur de Faria nasceu no ano que não terminou, é compositor de profissão (15 discos, meia centena de trilhas) e doutorando em literatura brasileira na UFRGS por puro amor desinteressado. Publicou Elis, uma biografia musical (Arquipélago, 2015).

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