Ensaio

A Porto Alegre dos transformistas profissionais

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A Porto Alegre dos transformistas profissionais

Desde o Império, ao menos dos anos finais da segunda metade do século XIX, tanto os teatros mais requintados como o Teatro São Pedro, em Porto Alegre, quanto os de menor capacidade de público e de estrutura menos imponente anunciaram shows de transformismo. Salas cinematográficas como o Recreio Ideal, inaugurado em 20 de maio de 1908, na rua da Praia, em frente à praça da Alfândega, foram locais em que essas apresentações eram bem-vindas.

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Desde o Império, ao menos dos anos finais da segunda metade do século XIX, tanto os teatros mais requintados como o Teatro São Pedro, em Porto Alegre, quanto os de menor capacidade de público e de estrutura menos imponente anunciaram shows de transformismo. Salas cinematográficas como o Recreio Ideal, inaugurado em 20 de maio de 1908, na rua da Praia, em frente à praça da Alfândega, foram locais em que essas apresentações eram bem-vindas.

O que se entende por transformismo, hoje, é confuso, fruto do imaginário contemporâneo, talvez formado por rememorações de programas em que se espetacularizavam shows de transformistas, a exemplo do Clube do Bolinha, na TV Bandeirantes, e do Show de Calouros, no SBT. Dublagens de cantoras nacionais e internacionais, roupas extravagantes (ou a falta de tecido) e maquiagens elaboradas levavam figuras ambíguas para as salas das residências – um chiste, considerando que a expulsão de casa era uma constante. Tudo em horário nobre.

Com certa recorrência, com seus modos peculiares, Sílvio Santos perguntava se eram atores ou pessoas que utilizavam roupas femininas cotidianamente. As respostas davam a entender que alguns atuavam, outros se reconheciam como pessoas travestis ou transexuais, essas se afirmando com mais ou menos liberdade para assumir a identidade de gênero no dia a dia. Entrevistas regadas ao humor controverso do apresentador, que vem sendo interpretado – para o caso – de forma divergente. Há quem, no meio trans, o defenda como um grande incentivador, porque havia poucas possibilidades de trabalho e reconhecimento/visibilidade para elas. Outros o veem como machista, homofóbico e transfóbico. Dois extremos entre os quais muito se diz, que não é o tema aqui.

Certo é que o transformismo como expressão artística foi muito comum no exterior, no Brasil e no Rio Grande do Sul muito antes do televisor. Personagens e espetáculos, do final do século XIX até a metade do século XX, costumam ser, na maioria, associados à atuação cômica, representações feitas por homens ou mulheres heterossexuais, que fizeram do travestir um ganha-pão. Por hora, não cabe entrar na cizânia atual sobre a escassa presença de atrizes e atores trans no teatro, cinema e televisão, terreno que vem sendo requisitado pela militância – com razão, mas com estratégias que causam estranhamento para muitos nesses setores. 

Para início de conversa, interessa que os porto-alegrenses, assim como os frequentadores de espaços culturais de várias cidades do interior, eram entusiastas do transformismo. Os periódicos repercutiam recepções calorosas, especialmente para os que vinham em companhias de outros estados e países, muitas vezes precedidos de fama que gerava ansiosa espera. O transformista Arcos Filho foi festejado. Fluente em cinco idiomas, um dia antes da estreia foi propagandeado como alguém “muito elogiado pela imprensa do sul, onde exibiu os seus trabalhos, sempre aplaudido” (A Federação, 21/06/1901, p. 2). O sucesso foi o mesmo em Porto Alegre, reconhecido pelos que o assistiram e pela crítica. 

O transformista italiano Alberto Pellerano, por sua vez, estreou no Teatro São Pedro, em 10/10/1903, um sábado. Com numeroso público, ovacionado, repetiu a encenação no domingo. Conforme sucinto parecer, ele “conseguiu agradar a plateia, sendo bastante aplaudido em seus trabalhos de transformismo e sortes de prestidigitação” (A Federação, 13/10/1903, p. 2). 

Do São Pedro, seguiu para o teatro Polytheama, construído, em madeira, na esquina da Voluntários da Pátria com a Pinto Bandeira. Naquele tempo, era comum os artistas irem até as sedes dos jornais em busca de divulgação. Por isso, A Federação registrou Pellerano deixando com eles uma habanera, composição de sua lavra – os transformistas eram, em geral, profissionais multifacetados, não vinculados apenas às dublagens e às imitações, como as performances de lip sync, no reality Ru Paul Drag’s Race, podem fazer deduzir. A canção, denominada Morir amando!, foi dedicada aos porto-alegrenses (A Federação, 21/11/1903, p. 3). De início, a audiência no novo teatro foi bem menor. Uma alternativa para trazer mais pessoas, a mais prática, era diminuir o preço dos ingressos. Logo veio o reconhecimento: “Esteve concorrido o espetáculo ontem realizado […] não faltando aplausos ao transformista” (A Federação, 23/11/1903, p. 2).

Quando outro de lavra italiana, Leopoldis, chegou, em 1915, no Cine Teatro Avenida (provavelmente o espaço que foi destruído por um ciclone em 1928, deixando mais de duas dezenas de pessoas feridas enquanto estavam assistindo O barqueiro de Volga), “todas as sessões estiveram extraordinariamente concorridas” (A Federação, 08/06/1915, p. 6). Darwin, outro renomado desse repertório, foi recebido com “fortes aplausos” (A Federação, 19/07/1915, p. 3) no Cine Teatro Coliseu, que foi erguido no local em que estava o Polytheama, que fora demolido, em 1908, depois de ter a estrutura condenada. E por aí vai.

Para muitas coisas, passada a novidade, o interesse esmaece. Mas a sobrevida desse tipo de manifestação artística foi relativamente longeva – ainda mais se considerarmos as ressignificações futuras, quando “ressurgiram” como transformistas à Sílvio Santos, quando se mesclaram às travestis, às trans e às drag-queens – quando atingidos pelas altercações identitárias “quentes” hoje em dia.

Mas, de volta à capital gaúcha, no fim dos anos 1930 e início dos anos 1940, onde ainda havia quem se atribuía a profissão transformista. A função de registrar os artistas era feita pela Divisão de Censura, nas delegacias. Em Porto Alegre, no Museu da Polícia Civil (onde pesquisei graças à lembrança de Cláudia Cristina Santos da Rocha Crusius, delegada aposentada da polícia civil, e à presteza do analista Robson da Silva Dutra Lima, que coordena o espaço), remanesce um livro de identificação com anotações de 1937 até meados dos anos 1943: Registro de Artistas do Gabinete de Censura Theatral e Cinematográfica de Porto Alegre

Nesse tomo, estão formalizadas as solicitações para a expedição de carteiras de licença para o exercício das ocupações declaradas. Trata-se de pequenos formulários em que se anotavam dados básicos: Nome, cognome (nome artístico), nacionalidade, data de nascimento, profissão e um campo para observações. Em seguida, espaços para três assinaturas: do requerente; do funcionário que preenchia os dados, chamado de encarregado de registro; e do Diretor de Gabinete – esse, em geral, era o Inspetor-Chefe do setor de Censura. 

Entre atores comediantes, bailarinas de salão, cantoras de rádio, ilusionistas, malabaristas, violinistas e ventríloquos, há três transformistas: Bertinni ou Darly (Francisco Honório Silva, registrado em 03/08/1938, aos 37 anos, e, novamente, em 07/10/1942); Rosito Castello (Almo Saraiva da Silva, 33 anos, registrado em 16/09/1938); e Sartorelli (Salomão Sartori, 40 anos, registrado em data desconhecida da primeira vez, com renovação em 19/07/1940). Um trio brasileiro entre os tantos transformistas estrangeiros que estiveram no Sul.

Francisco e Salomão passaram duas vezes pela triagem, evidenciando que a carteirinha vencia depois de algum tempo, provavelmente um ano, conforme se pode ler em uma das fichas.

Livro Registro de Artistas, Porto Alegre, p. 3.
Livro Registro de Artistas, Porto Alegre, p. 28.

As fotos não desvelam, não há sequer indício dos diversos personagens incorporados no exercício da atividade teatral. Tampouco do ilusionismo, ventriloquismo, canto e dança – das habilidades em si. Alguns chegaram a registrar como gênero artístico o termo “variedades”, garantindo uma gama de exibições possíveis. No formulário de Rosito Castello, por exemplo, nota-se que era, também, equilibrista.

Livro Registro de Artistas, Porto Alegre, p. 4.

De Sartorelli, existe uma provável imagem e informações complementares no jornal O Estado, de Santa Catarina. Embora não esteja identificado com legenda, o que tiraria qualquer dúvida, parece a mesma pessoa estampada no periódico (1933) e no Registro de Artistas (1940), considerando-se haver um lapso temporal considerável entre as referências (contem-me o que acharam).

Sartorelli? O Estado, 25/08/1933, p. 2.
Livro Registro de Artistas, Porto Alegre, p. 2.

Sartorelli fez parte da Cocktail Troupe (às vezes denominada Troupe Jeca Ratão), que contava com o comediante Jeca Ratão, com Formiguinha, a “deusa dos sambas e marchas”, e com o ator/cantor Ubirajara Teixeira. Em 26 e 27 de agosto de 1933 subiram ao palco do Teatro Álvaro de Carvalho, em Santa Catarina. Apresentado também como “cançonetista moderno” ou “chansonier moderno”, o transformista deve ter se afastado do staff, porque, pouco tempo depois, quando foram para Curitiba, deixou de constar nas divulgações (O Dia, 12/10/1933, p. 8).

Contratados pelos donos de casas de espetáculo, bem recebidos pelas plateias, foram representantes de um fenômeno complexo, de significados não engessáveis como os que, na atualidade, se costuma ver atrelados à mera menção da palavra “transformista”.  Não somente a troca de papéis sexuais – embora essa fosse frequente e uma das que mais atraíam curiosos – era denominada de transformismo. Nem há correlação obrigatória com orientação sexual homossexual. Muitos deles constituíram famílias – naquele tempo um conceito restrito aos heterossexuais. Decerto alguns cultivavam a ambiguidade sexual, inerente ou forjada, ganhando com a abelhudice do povo e com o desejo (esse sempre surpreendente aspecto da vida humana), tornando-se chamarizes entre uma gente sempre ávida pelas “novidades”. Mas isso fica para a próxima.


Jandiro Adriano Koch, ou Jan, nasceu e vive em Estrela, RS. Graduou-se em História pela UNIVATES e fez especialização em Gênero e Sexualidade. Com quatro livros lançados, dedica-se a estudar e mostrar vivências LGBTQI+, especialmente em sua região, o Vale do Taquari. Na Feira do Livro de 2019, lançou um novo livro, pela Libretos, Babá – Esse depravado negro que amou.

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