Ensaio

A vida e a vida de Áurea – Capítulo 9

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A vida e a vida de Áurea – Capítulo 9 Foto: Theo Tajes

O que mais um homem precisa fazer?

No capítulo anterior: para não perder a mulher, o Larry sacrificou seu orgulho e foi com a Áurea à estreia de Luiz Suárez na Arena. Foi como tirar todas as desavenças do casal com a mão. E a felicidade dela no campo chegou, enfim, à cama dos dois.

Olhando para trás, o Larry não conseguia pensar em outra época tão feliz como a de agora no casamento.

Teve o começo, claro, tudo era novidade, ele e a Áurea apaixonados. Mas o brilho dela, esse ele não lembrava de ter visto assim, tão forte. Parecia que ela estava vivendo outra vida. Os filhos até debochavam, diziam que o Grêmio havia salvado a relação dos pais. 

E não deixava de ser verdade.

O Larry foi em pessoa levar a Áurea para se associar na Arena. Poderia ser pela internet, mas ela fez questão de ir in loco e já passar na lojinha. Se ele se sentia bem andando por aqueles ambientes carregados de azul? Absolutamente. Mas o que até o surpreendia era que fazia as vontades da mulher sem sofrer, como se fossem uma pequena oferenda pela recompensa do olhar amoroso dela.

Não só o olhar.

Depois de anos se queixando de cansaço e de falta de vontade para o sexo, a Áurea vivia um apogeu. Em quantas noites o Larry queria dormir e a mãozinha dela desbravava o pijama para encontrar o que já estava no terceiro sono? Depois de algum estímulo, o Larry até reagia. Mas em um já não tão raro exercício de empatia, entendeu a Áurea nas incontáveis vezes em que interrompia o sono dela, cutucando-lhe as costas com o que então chamava de meu celular de carne.  

Se pudesse voltar atrás, não seria tão insistente. Já que não podia, a Áurea tinha crédito e ele não iria decepcioná-la.

A Áurea passou a ir a todos os jogos na Arena. O Miro, que até o começo da adolescência pendia para o lado do Grêmio, desenrustiu de vez e se associou também, levando de contrapeso o filho caçula, Theodoro. A mais velha, Carolina, era colorada como o avô e o tio Paulinho.

A família, enfim, estava dividida em um perfeito equilíbrio.

Quando o Luisito fazia gol, isto é, quase sempre, a Áurea ficava até tarde da noite ouvindo todos os comentários e entrevistas. Depois, queria transar. Se o Inter perdia, ela prontamente consolava o Larry com uma jantinha especial e uma transa mais caprichada ainda. Mesmo que ele, desanimado, preferisse apenas virar para o lado e dormir.

Em favor da Áurea, é preciso dizer que às vezes ela acompanhava o Larry ao Beira-Rio para tomar uma Budweiser no Sunset ou para passar a mão na estátua do Fernandão. O Larry fazia isso todo o início do mês para dar sorte nos jogos que viriam.

A vida era boa.

Numa tarde em que o Suárez não jogou e o Grêmio perdeu, a Áurea voltou irritada para casa. Agora ela ia aos jogos com duas amigas que tinha conhecido nas cadeiras superiores, a Zuleikinha e a Maritza. Compreensivo, o Larry a esperava com um arroz de leite quentinho. A Áurea olhou o panelão e, de cara amarrada, falou para o Larry que os dois precisavam conversar. Ele sentiu como se voltasse no tempo.

– Conversar o quê? O que foi que eu fiz de errado? Eu faço tudo o que tu quer!

Ela só olhou para a Cadeira do Papai dele e falou, sem sorrir, sem brincar:

– Senta.


No último capítulo: A tabela da felicidade


Claudia Tajes é escritora e roteirista.

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