Ensaio

Aos 80, com muita cancha por diante

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Aos 80, com muita cancha por diante

Lembro de um amigo fronteiriço “puro de pedra” (parece que essa maravilhosa expressão vem de como os campeiros ouviram “puro de pedigree”, quando chegaram os primeiros touros ingleses); lembro da graça que lhe causava a gurizada urbana aficionada ao gauchesco, quando se cumprimentava com um “E aí, baguau???” Engraçado mesmo era ouvi-lo tentando imprimir a isso um acento do Bonfim – mas o principal da gozação era o fato de que gente campeira jamais se saudaria assim… e essa pronúncia urbana do L, que o transforma em U. 

Próximo a esse amigo, congênere, semelhante como dois tentos da mesma lonca, da mesma fronteira, o poeta Eron Vaz Mattos, dos Olhos D’água, em Bagé, me fez refletir sobre essa diferença fonética. Falava-me na beira de um fogo, fogo mesmo – mas Eron sempre fala na beira de um fogo, esteja em uma cabine telefônica, dentro de um carro ou ao lusco-fusco da brasa da coronilha. 

Falava de um seu admirado amigo, alguém que foi muito importante no meu caminho musical e artístico e a quem não conheci pessoalmente. Noel Guarany: “O Nüellll??? O Nüellll era muito meu amigo, mas nunca foi de laçar com sovéu curto…”, e por aí desfia histórias, sempre saborizadas pelo seu talento impressionante de imitador, que reserva aos mais chegados. Sua performance de Glênio Fagundes, por exemplo, deixaria confuso o próprio Glênio, de tão genuína.

Mas eu fiz o que pude, aí acima, com essa grafia corrompida, para buscar a pronúncia campeira, dali de perto dos marcos de pedra antiga da divisa com o Uruguai. O ditongo é obrigatório. Qualquer poeta ou pajador sabe disso, sob o risco de errar no heptassílabo. Quem é de Cachoeira ou quem encilha um gateado sabe que, como no espanhol platino, a “correta” pronúncia abole o hiato. Não se encilham gate-ados; ninguém vive em Cacho-eira.

Não sei escrita fonética e não sei quantos dos que lerão saberiam… então, vai aquele u tremado. E esses Ls, ao final? Ah, esses querem que vocês pensem nos seus avós, palanqueando firme a língua no céu da boca, lá atrás, feito castelhano. Ls antigos, de dizer “Bento Amarallll”. Mas eu não sou tão antigo, sou da Cidade Baixa e aos 16 anos descobri No-éu. 

“E se não entendem meu canto neste país muito grande, hei de cantar o Rio Grande, pedaço de Continente…” Pois é, mas esse missioneiro, claramente inspirado em uma expressividade platina, mas com sua própria luz interpretativa e nas melodias sempre belíssimas, não pode ser apontado como quem não quisesse ser entendido ou não se importasse com isso. Se nesses versos ele fala em barreiras regionais (e eu o descobri no álbum chamado justamente “Sem Fronteiras”), também foi capaz de enfrentar as microrregionalidades e o teimoso fantasma da oposição rural x urbano ou cidade pequena x cidade grande. 

Vitor Ramil botou a gurizada universitária a ouvir versos campeiríssimos, que ela muito dificilmente leria, de João da Cunha Vargas. Mas vinte anos antes Noel o fazia com uma importante diferença: ele não oferecia, ao menos de forma evidente, uma passagem ao contemporâneo e ao urbano, por meio da forma de cantar, dos arranjos e melodias. Vitor foi magistral nisso, mas Noel cantava da forma mais “autóctone” – e ganhou esse mesmo público. 

Por quê? Quando se explica um êxito de artista pelo contexto sempre pode ser pouco e frequentemente soa injusto. Noel tem excelências. Mas teve contexto, teve seu tempo – e era o tempo de tantas experiências latino-americanistas, claramente associado ao final da ditadura. Mercedes Sosa, grupos, solistas e duos identificados com esse discurso combativo continental surgindo no Rio Grande do Sul e em São Paulo, com gente imigrante da América Espanhola ou brasileira identificada, ou a junção de ambos… O contra-fogo da integração digna, real e de fundamento histórico – oposto ao fogo da “integração” a um tempo burocrática, criminal e sádica de uma Operação Condor. 

Noel tragara muito do estilo solista “gaucho y guitarra” platino e percebera, como seu amigo e parceiro Cenair, que a feição dócil, saudosista e ufanista de grande parte do “gauchismo” brasileiro dava lugar, a sul e a oeste, a um canto reivindicativo, interessado em utilizar a referência campeira como potência contemporânea de resistência e transformação. Creio que isso explica em parte o interesse da juventude universitária em seu canto, seja no seu auge, seja agora, passados vinte e poucos anos de sua morte.

Reconhecer esse papel não implica – e me parece erro comum – ver em Noel um artista militante, com a articulação ou o método ou a consistência que esse adjetivo supõe. Noel captou e representou algo que eu poderia chamar aqui de “espírito orelhano”. Uma rebeldia – e lembro Olívio, declarando em 1998 que o cantor recém-desaparecido era um “guri rebelde” – desordenada ou, vá lá, anárquica (por favor, não no sentido da doutrina, que de desordenada nada tem); intuitiva. Buscadora de referência na liberdade “pura” do indígena (que ele já reivindica em seu nome artístico) e do gaúcho do tempo dos campos indivisos e da ausência da Instituição por estas terras de ninguém. 

Serafín J. García, o grande uruguaio, me fornece aqui um exemplo e um parêntese: seu poema “Orejano” é uma bela mostra de um caráter indomesticável (orelhano é o animal que não foi marcado como propriedade de alguém) – mas muitas vezes me parece que os tantos militantes que o recitam no país vizinho deixam de perceber o que tem de individualista, descolado e até oposto a uma idéia de programas e saídas coletivos. O excelente poema afirma, em suma” “eu não aceito marca, como toda essa gente aí…” “Entre as corticeiras estorva um quebracho”. 

Mesmo aqui e agora – época e território de metáforas políticas, digamos, pecuárias – pouco resta, nessa proclama heróica ou narcísica, de maior utilidade programática. O lenho das corticeiras é demasiado macio, moldável? Bueno, formemos, agrupemos, congreguemos os quebrachos, com seu cerne duro… algo assim. O argumento do orelhano, a propósito, não raro suporta grandes conservadores, justamente por ignorar forças coletivas, populares, mais verossímeis do que espartanas. Certamente não é o caso de Noel, mas valha a observação.

Quem recorda o cantor da Bossoroca costuma contar na mesma tarca e apartar no mesmo lote uma tirada sua de brigão, pavio-curto, em um festival, ao lado de algo que declarou, por exemplo, em uma atuação para um movimento grevista. Apontar essa característica não pretende diminuir sua importância como referência de resistência, que permanece. Mas pessoalmente gosto mais do que vai aparecendo em sua obra, de forma, digamos, mais natural. 

Evito, neste meu depoimento, mencionar autorias e parcerias, no que provavelmente cometeria equívocos, principalmente por omissão. Falo então no cantor, no canto de Noel Guarany. Então, falo dos meus grandes e antigos encantamentos com ele. Claro que alguém que trazia Yupanqui, Aníbal Sampayo, Millán Medina, Damasio Esquivel, Orozco… já estava na minha praia de guri castelhanista, que fundia influências familiares a vivências musicais recentes. (E o que não é recente, quando se tem 16 anos?) Mas não foi só isso e nem o foi principalmente. 

Para quem nasceu no meio dos anos 60, Noel foi uma – quem diria que eu usaria essa maltratada expressão… faço-o ligeiro, antes de me arrepender – terceira via, entre o que chamávamos, diretamente, “grossura” e a nova linguagem dos festivais. Era música crioula, que fornecia algo para quem não o encontrava (a esse algo) em Teixeirinha ou Gildo, por mil razões de mercado, indústria, código e até classe, emponchadas nas representações do universo conceitual enorme e impreciso da “cultura”. 

Já os festivais tinham como grande contribuição – algo que mais tarde se perde, infelizmente, ao menos como movimento – justamente a leitura claramente universalizante e urbana dos objetos regionais, com mais ou menos elementos autóctones. 

Aqui talvez caiba apontar algo que sempre achei que merece estudo. Por mais multitudinária que fosse a proposta dos festivais e seu alcance, parece que sempre houve, para muita gente, uma sedução ou uma demanda por um pouco mais de “cheiro de pasto”. Há nomes brotados naquele movimento que se consagram por serem mais “crioulos” – e há o exacerbamento que se verificou ao longo do tempo, em que se abandonou o que poderia ser uma criativa forma rio-grandense de fazer música popular e se abraçou o cheiro de pasto ao ponto de comprometer ou definir uma nova dieta. 

Mas e o Noel? Passava ao largo disso e o fazia com estilo único. Criava uma necessária confusão entre o que era autoral e o que era folclórico. Pode não ser cômodo, mas é, afinal, o que os cantores realmente populares sempre fizeram! 

E as melodias! O que é “Milonga missioneira”; o que é “Gaudério”! Simples, mas bordadas – e uso a imagem do bordado para ressaltar delicadeza em seu sentido mais imediato; não por oposição ou contraste, como aquele incrível “deixei o baio bordado de tanta espora e mangaço”. Não como aquele inesquecível e desconcertante “um lírico manotaço”, que pode pintar Noel como alguém que se encontra – e, por que não, às vezes se perde – entre a rusticidade e a doçura. 

E aí, justamente, na minha opinião, está o que tem de mais reativo, do ponto de vista social. A “Chamarrita da costureira” e a “Lavadeira do Uruguai”, junto com “Maneco queixo de ferro”, mas mais do que ele, afirmam a força popular; a força do popular, sem panfletos ou mesmo sem denotações reivindicatórias. 

Este é o grande cantor que chega aos oitenta anos de nascimento ainda com o cavalo descansado e muita cancha pela frente, para além de alguma inconveniência, como o fato de ter morrido há 23 anos. 

Revelador do rigoroso e formal Aureliano e do Folclore mais genuíno; “pocas pulgas”, como se diz dos brigões mais invocados; reivindicador indócil de um gaúcho que também o fosse… guitarreiro cantor criativo e orgânico, de bordados melódicos portugueses, mas castelhano e guarani… Recordado com a naturalidade agradecida de todas as prosódias e todos os sotaques deste e outros “pedaços de continente”; desta “querência flor”; “rincão guarani” – deste Sul da Terra.


Demétrio Xavier é cantor, violonista, intérprete da obra de Atahualpa Yupanqui, e criador do programa “Cantos do Sul da Terra”, que apresenta semanalmente na FM Cultura.

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