Ensaio

Armênios em qualquer lugar

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Armênios em qualquer lugar O pequeno banquete em Meghradzor. Foto de Nyiri Karakas, uma das voluntárias

Muita coisa muda em dois anos – muito mais do que se pode imaginar. O motivo do meu voluntariado, além de me filiar a instituições de pesquisa momentaneamente, era claro: a Armênia passava por um de seus momentos mais delicados. Naquela noite de dezembro em que cheguei, não fazia nem três meses que o Azerbaijão havia concluído seu processo de genocídio aos armênios de Artsakh e desalojado forçosamente 100 mil pessoas de suas terras ancestrais em cerca de uma semana1. O ar ainda era pesado. O país, dentro de minha percepção subjetiva das coisas, tentava se equilibrar entre o sentimento de luto que não termina e o seguimento da vida ‘‘ordinariamente’’ cotidiana. 

Os armênios de Artsakh, nesse ínterim, já haviam se espalhado pelo país e tentavam reconstruir sua vida, talvez sabendo, lá no fundo, que tudo que foi deixado para trás e conquistado por décadas – casas, cidades, heranças – fora definitivamente perdido. O que importava agora era o que tinha cabido no carro e o que poderia ser feito com o auxílio que receberiam para tentar refazer toda uma vida na Armênia. Mas ainda falta muito, e todos, de uma forma ou outra, sabem disso. A UGAB2 continuamente tenta ajudar e conduz ações e doações: carregam-se vans com agasalhos, aquecedores e suprimentos quase todos os dias. Começávamos cedo, passávamos o material do depósito para as vans e partíamos para as vilas país adentro, a fim de fazer as distribuições aos refugiados. Os aquecedores eram fáceis de distribuir, afinal era inverno, mas os agasalhos nem tanto: os homens armênios gostam de cores escuras – marrom já pode ser considerado claro demais – e basicamente só escolhiam os agasalhos pretos, não importava a muito boa qualidade das outras opções. 

Também não importava a vila e tampouco suas condições: ao final, o prefeito e o secretariado nos convidavam para um pequeno banquete, contendo desde damascos até tortas feitas pelos próprios funcionários. Recusar não é uma opção quando se trata da hospitalidade armênia. Os pequenos banquetes eram regados por risadas ou, pelo menos, um ar de alegria pelo momento. Eu me perguntava como aquilo seria possível, na minha mente ocidentalizada, como se permitir a ‘‘alegria’’ depois de tudo o que aconteceu e ainda acontecia – e não deixei de posteriormente perguntar às pessoas sobre isso: ‘‘valores não mudam em nenhuma situação. Vocês eram os convidados’’. 

Enquanto eu comia um pedaço de torta feita por uma das secretárias, na vila de Meghradzor3, um burburinho começou: ‘‘é o Johnny Depp armênio’’. Tudo ocorreu em segundos e, ao fim e ao cabo – e não somente em Meghradzor –, algumas pessoas passaram a pedir para tirar fotos comigo só porque queriam um registro ‘‘ao lado do Johnny Depp armênio’’. Na Armênia, as ‘‘notícias’’ não viajam rápido, viajam na velocidade da luz.

É claro que se empolgavam ao saber o meu país de origem e descobrir o que um não-armênio tinha ido fazer naquele pequeno país, ainda mais pela segunda vez. Não foi apenas em uma ocasião que me perguntaram, em 2021 e em 2023, se eu estava sendo bem tratado, ou que me deram seus números de telefone caso eu precisasse de ajuda. Talvez, em alguns países, dizer-se ‘‘brasileiro’’ traga alguma empolgação: quase todo o tempo, de modo imediato, imaginavam que eu era ‘‘só mais um russo’’4, mas depois de eu explicar minha origem e sobretudo (tentar) falar com eles em sua língua natal, as coisas mudavam – um vendedor, uma vez, me disse que se lembrava com clareza das mágicas que Pelé e Garrincha faziam em campo, mas que o melhor era, na verdade, ‘‘o Jair’’, ‘‘o homem que havia feito gols em todos os jogos da Copa de 1970’’. 

– Nós, armênios, conseguimos falar qualquer língua porque temos todos os sons possíveis em nosso idioma. Aposto que posso pronunciar qualquer coisa em português com perfeição. Diga-me a sua palavra mais difícil – foi o que o mesmo vendedor me requisitou. 

De fato, no arranjo das 39 letras do armênio oriental, cada som, ainda que absurdamente mínimo ou imperceptível aos ouvidos de um falante de português, é cuidadosamente representado e diferenciado. Quando esse desafio me foi lançado só consegui pensar em ‘‘pão de queijo’’ – o tal fonema ‘‘ão’’ nunca falha em dificultar a vida dos não-lusófonos. E, sim, trapaceei, não era só uma palavra. ‘‘Pão de queijo’’ não foi pronunciado com exatidão, mas isso lhe permitiu lançar-me uma ‘‘contra-pergunta’’: achava eu o armênio difícil? 

– Bom, acho que vocês têm muitos sons que nós não temos. Para mim, parece que existem uns cinco ‘’érres’’ diferentes em armênio. 

– Como assim? – ele respondeu. – Nós só temos dois.

Não adiantou explicar que as letras com sons mais guturais me pareciam ‘‘érres’’: pensar o mundo tendo o armênio como língua primária talvez nunca realmente possibilite a ele compreender fielmente a intriga linguística natural daquele que pensa o mesmo mundo em português. Mas já que estávamos ali, fui propriamente alertado: 

– Você ainda não ouviu o georgiano… O armênio é fácil perto daquilo.

O vendedor, por sinal, era um livreiro do qual virei cliente, dono de um sebo no centro da cidade aonde eu ia quase toda semana à procura dos grandes nomes da literatura armênia. Em armênio, existe uma palavra que pode ser traduzida como ‘‘armênio diaspórico’’ (spyurkahay), aquele que etnicamente é armênio, mas nasceu em outro lugar do mundo. Quando lhe perguntei se seu acervo detinha algum livro de Raffi, um escritor armênio do século XIX nascido no atual Irã, ele suavemente repreendeu alguém que mencionou que Raffi era um spyurkahay:

– Não gosto desse termo. Armênios são armênios em qualquer lugar. Raffi é hay5.

O que meu amigo livreiro disse fez minha mente dar um ‘‘click’’: os termos em que uma nação diaspórica pode ou não se observar – o quão profundas são atribuições, ainda que terminológicas? Qual o peso destas quando aplicadas ao histórico de uma diáspora e à sociologia dos filhos desta, já nascidos no Estado-nação ‘‘acolhedor’’? ‘‘Raffi é hay’’, em um domingo frio durante uma tarde em Yerevan, trouxe uma série de perguntas, que os estudos diaspóricos discutem e buscam entender. As respostas, todavia, não me interessavam que viessem dos livros, mas sim daquele vendedor. 

O fato de eu ter ido embora da loja sem um livro de Raffi e sem as ‘‘respostas’’ não significou, de modo algum, que saí de mãos vazias. Pelo contrário, para quem estava ali para, sobretudo, observar, ouvir a declaração ‘‘Não gosto desse termo. Armênios são armênios em qualquer lugar. Raffi é hay’’ simbolizou uma miríade de significações, as quais a aparente simplicidade de uma frase apenas falseia.


Notas
1 – Em dezembro de 2022, o Azerbaijão, que controlava os arredores do que restava da República de Artsakh, fechou a única via que a comunicava com o resto do mundo, o chamado Corredor de Lachin. Com isso, os armênios locais ficaram sem suprimentos básicos, como medicamentos e combustíveis, até setembro de 2023. Neste mês, com todas as estruturas fracas e um povo posto para morrer de fome, as forças azeris bombardearam os arredores da capital, Stepanakert, e um cessar-fogo foi rapidamente negociado, o qual decretava o fim oficial da República. Basicamente, os armênios locais sabiam que não poderiam confiar em viver sob o domínio da ditadura azerbaijana e deixaram suas terras ancestrais sabendo que ir para a Armênia seria a melhor chance de continuarem vivos. 
2 – União Geral Armênia de Beneficência, formada no atual Egito, no início do século XX. É a maior instituição de auxílio, suporte e fomento da causa armênia pelo mundo, com diversos escritórios pelo mundo, inclusive no Brasil.
3 – Juliana Nersessian, muralista residente em São Paulo, o centro da comunidade armênia no Brasil, realizou um lindo trabalho em um muro ao lado da prefeitura de Meghradzor. Meu palpite é que a pintura se tornou um ponto de destaque do vilarejo, já que todos os outros voluntários paravam para tirar e posar para fotos ali. O trabalho pode ser visto aqui
4 – Após o início da atual guerra na Ucrânia, muitos russos deixaram seu país natal e fugiram para a Armênia, alterando a curva demográfica rapidamente. Nas ruas não é difícil atestar a presença de um ‘‘não-local’’, não necessariamente pelo modo como a pessoa se parece, mas sim pelo modo como se veste – minhas roupas claras provavelmente faziam os armênios me associarem a um russo.
5 – Literalmente, ‘‘armênio’’.


Daniel Lorenzo Gemelli Scandolara nasceu em Porto Velho, Rondônia. Atualmente doutorando pela UFRGS, morou a maior parte da vida em Brasília, onde obteve graduação em Ciência Política e mestrado em História, ambos pela UnB. Posteriormente, concluiu mestrado em Direitos Humanos e Democratização pelo Campus Global em Direitos Humanos Cáucaso, tempo em que viveu na Armênia. É autor do livro Um Estopim em 1914: a política britânica em relação ao Império Otomano e sua preservação e criador do blog Torto em Linhas Retas. Gosta de histórias.

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