Ensaio, Memórias emocionadas

As diversões ópticas na Porto Alegre do século XIX: os Cosmoramas

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As diversões ópticas na Porto Alegre do século XIX: os Cosmoramas

Em seu filme La nuit de Varennes (FR/ITA, 1982), que no Brasil ganhou o título “Casanova e a revolução”, Ettore Scola, diretor e autor do roteiro, em parceria com Sérgio Amidei, conta-nos uma história ficcional a partir de um fato real, a tentativa fracassada de fuga de Luis XVI e família da Paris revolucionária de 1891 em direção da fronteira francesa, a fim de encontrar aliados monarquistas. A narrativa começa com a câmera a nos conduzir até um espetáculo público que acontece sob uma das pontes do rio Sena. Ele é apresentado por um grupo de saltimbancos e atrai diversos espectadores curiosos, que ouvem uma versão de fatos recentes da Revolução Francesa. A narrativa oral é ilustrada por vistas coloridas impressas, dispostas dentro e ao fundo de uma caixa fechada, que podem ser espiadas por oculares, desde que o interessado pague para vê-las. O filme desenvolve-se a partir dessa deixa, que é retomada ao final, quando a narrativa termina, embora o espetáculo continue.

Na Itália, o filme foi lançado com o título Il mondo nuovo, que foi justamente uma das denominações com que o aparato visual utilizado pelos artistas ambulantes ficou conhecido naquele país. A escolha, que enfatiza o modo de contar, ainda que também chame a atenção para os novos horizontes abertos pelas imagens, valoriza tanto a diversão óptica, popular entre os contemporâneos, quanto, e sobretudo, a importância social das imagens na época, seja para fins de entretenimento e informação, seja como meio de legitimação simbólica do poder. A questão, por sinal, é central no filme.

Quanto às caixas ópticas, que foram denominadas pelos franceses Boîte à vues d’optique e pelos ingleses e estadunidenses Peep-show, eram um aparelho de observação individual de vistas a partir do exterior. Relacionadas à descoberta da perspectiva e das propriedades dos espelhos e lentes, elas surgiram na Europa no final do século XVII, juntamente com as lanternas mágicas e suas vistas. Tratava-se de novas formas de diversão resultantes da apropriação das descobertas científicas para fins de entretenimento, às quais se somariam, já no século XIX, novidades como as fotografias estereoscópicas e o próprio cinema.

Após espalharem-se pela Europa, as caixas ópticas ganharam o mundo. O interesse crescente pelo dispositivo levou ao desenvolvimento de modelos profissionais e também portáteis, sendo os primeiros destinados à exibição pública, com fins comerciais, e os segundos ao consumo privado, familiar ou de salão. Confeccionadas em madeira, as caixas ópticas apresentavam variadas dimensões. Os exemplares de uso doméstico dispunham de uma ou duas oculares e eram frequentemente mais sofisticados e ornamentados. Já os modelos exibidos pelos ambulantes em feiras, mercados, praças e gabinetes podiam dispor de até dez visores em sua face frontal, permitindo, assim, a observação simultânea das vistas por tantas pessoas quantos fossem as oculares disponíveis. 

Caixa de óptica. Gravura, Roma, 1815. Apesar da inscrição, equivocada, trata-se de uma caixa de óptica com múltiplas oculares, que costumava ser exibida nas ruas por demonstradores itinerantes. Coleção Cinemateca Francesa. Fotografia: Stéphane Dabrowski.

Através de um visor munido de uma lente biconvexa, o observador via uma gravura impressa e colorida ampliada, enquadrada e desenhada de modo a provocar determinados efeitos de profundidade de campo e relevo. Denominadas vistas ópticas ou de perspectiva, tais ilustrações costumavam representar visões panorâmicas de cidades, seus logradouros públicos, edificações e monumentos, inclusive os já destruídos e míticos, assim como acontecimentos históricos, paisagens e desastres naturais. 

Vista de óptica do Hotel de Ville, em Amsterdã. Impressa na Inglaterra. (Domínio público). Disponível aqui.

Certos modelos de caixas de óptica possuíam tampas laterais, superiores e traseiras, que permitiam ver as imagens com efeitos de iluminação. Para tal, as vistas recebiam perfurações no verso, sobre as quais eram colados papéis transparentes coloridos, que eram retroiluminados por velas. Tais intervenções, destinadas ao embelezamento e incremento dos efeitos ópticos e luminosos, eram responsáveis pela surpresa e pelo deslumbramento que as vistas provocavam nos observadores. Como exemplo, foi comum proporcionar a visão de uma mesma cena com aspecto diurno e noturno. Além do mais, foi de praxe que as exposições das vistas contassem com acompanhamento musical e oral.

Tal gênero de diversão pública passou a ser apreciado pelos porto-alegrenses a partir de 1841, trazido e exposto temporariamente na cidade por exibidores itinerantes que rebatizaram suas caixas ópticas como Cosmoramas e Cicloramas. Em abril daquele ano, um anúncio foi publicado nos jornais para divulgar a abertura, na rua da Bragança, atual Mal. Floriano, no trecho já calçado da quadra entre as ruas dos Andradas e José Montaury, de “um rico Cosmorama com dez vidros de grande aumento, onde se verão as principais cidades e grandes guerras da Europa” (O Commercio, Porto Alegre, 16/04/1841, p. 6). As famílias que quisessem conhecer o “novo divertimento” deveriam se dirigir ao local “das Ave-Marias em diante”, ou seja, a partir das 18 horas. O ingresso custava 400 réis para adultos, e as crianças pagavam meia-entrada.

O Cosmorama reapareceu em Porto Alegre em 1869, 1873 e 1882. Nessas oportunidades, a designação parece ter nomeado tanto o aparelho quanto o estabelecimento onde foi exibido como atração. Entre 1847 e 1869, porém, outras diversões ópticas foram instaladas temporariamente na cidade por exibidores itinerantes, sendo divulgadas sob denominações que identificavam claramente estabelecimentos especializados no gênero: em 1855, funcionou o “Gabinete Óptico”; em 1861, o “Salão Mecânico” e, em 1863, o “Grande Salão Óptico Mecânico”. Tais nomes remetem aos gabinetes de curiosidades dos séculos XVII e XVIII e ao dinâmico complexo das invenções e novidades que representava a Europa na época, fundados na natureza técnica de suas atrações e artifícios.

O “Gabinete Óptico” que visitou a cidade em 1855 esteve instalado no beco da Ópera, atual rua Uruguai. Os seus programas de imagens em exposição eram renovados semanalmente. Ali puderam ser apreciadas vistas como “As esquadras aliadas em Constantinopla”, “Vista total de Sebastopol”, “Palácio de Madri”, “Os jardins de Versailles”, “Alexandria do Egito”, “Barcelona na Catalunha”, “Palácio do Doge de Veneza” e “Quarta vista do Rio de Janeiro” (O Mercantil, Porto Alegre, 29/11/1855, p. 4).

Em 1861, os porto-alegrenses teriam outra oportunidade de povoar o seu imaginário com imagens das cidades e fatos do Velho Mundo, visitando o “Salão Mecânico”, que funcionou durante muito tempo e sempre com boa frequência, no “Armazém Torre de Malakoff”. Nesse local, cuja localização não foi identificada pelo nosso informante, Athos Damasceno Ferreira, em sua obra Palco, salão e picadeiro em Porto Alegre no século XIX (Globo, 1956), foram exibidas “atraentes vistas em relevo” ao som de “bonitas músicas tocadas por harpa e rabeca”.

Como seus congêneres anteriores, o “Grande Salão Óptico Mecânico”, que funcionou em 1863 na rua da Praia, também atualizava regularmente as vistas expostas, seja nas caixas de óptica, seja nos estereoscópios (nesse aparato de observação, espiava-se fotografias com efeito tridimensional). Entre as vistas de perspectiva que colocou em cartaz, estiveram imagens de portos franceses, lagos alemães, além de panoramas de localidades da África e da Itália, entre os quais o de uma erupção do Vesúvio e outro de um palácio onde teria morado Giuseppe Garibaldi. Muitas delas foram anunciadas como móveis, o que faz lembrar as figuras mostradas na caixa óptica que estrelou o filme de Ettore Scola. Também este estabelecimento funcionou diariamente, à noite, e diferenciou o preço das entradas segundo a faixa etária, cobrando metade dos pequenos. A fim de endossar o caráter familiar da diversão e estimular a presença deste público, ele ainda ofereceu desconto de 20% no valor dos ingressos para visitas de famílias de mais de quatro pessoas.

No primeiro trimestre de 1869, segundo Ferreira, reapareceu em Porto Alegre um Cosmorama, trazido por um novo exibidor, munido de novas imagens do mundo, desta vez de um mundo bem mais próximo e de eventos também bastante familiares aos gaúchos. O “Grande Cosmorama Mecânico e Fantástico”, “instalado” na rua da Praia, defronte à praça da Alfândega, era, de acordo com o autor, uma “máquina gigante”. Ao longo de sua extensa temporada de exposição, ele teria proporcionado a adultos e crianças, a preços “muito módicos”, a visão de “belíssimas vistas da Basílica de São Pedro, no Vaticano; da Catedral de Milão, do Vesúvio, da Praça da Concórdia, em Paris; da Procissão da Semana Santa, em Roma; entre muitas outras”. O destaque, porém, ficou com as vistas da Guerra do Paraguai (1865-70), ainda em curso, representadas “através de nítidos e perfeitos quadros da Passagem de Humaitá e Curupaiti, da Batalha de Riachuelo, da Abordagem dos Couraçados Brasileiros pelas forças Guaranis, etc.” (FERREIRA, 1956: 110) Por seu intermédio, os observadores porto-alegrenses tiveram acesso a imagens de evidente interesse documental sobre fatos recentes, que devem ter proporcionado novas informações sobre os eventos e seu contexto de ocorrência. Porto Alegre, como sede do governo provincial, acabou diretamente envolvida nas ações militares como ponto de passagem e estacionamento de tropas em deslocamento para o campo de batalha. 

A familiaridade e proximidade com o conflito foi aproveitada pelo exibidor para estabelecer com os contemporâneos uma relação de identificação. Athos Damasceno inclusive referiu-se ironicamente a tais vistas denominando-as “patri-ópticas”. Dessa forma, evidenciava sua percepção sobre a perspicácia do exibidor em apropriar-se de um tema político que estava entre as maiores preocupações e interesses do seu público para atraí-lo ao seu estabelecimento, tornar sua oferta mais atraente e sua temporada mais duradoura e exitosa. A exploração visual de temas relacionados ao cotidiano dos espectadores também pelo setor de diversões públicas expressava a crescente valorização social das imagens técnicas como meios de comunicação e produção de conhecimento sobre o mundo, num contexto em que as imagens se diversificavam e tinham sua circulação incrementada, aproximando homens e acontecimentos e modificando antigas noções de tempo e espaço.

Teriam sido exibidos em Porto Alegre outros dois cosmoramas em 1873. Um deles, denominado “Cosmorama Grand Chinois”, teria sido instalado na cidade em setembro, na praça Conde D’Eu, atual Largo Glênio Peres. No final do mesmo ano, foi instalado na rua dos Andradas um “Ciclorama Gigante”, engenhoso aparelho que permitia ver uma rica coleção de diapositivos das batalhas franco-prussianas, bem como das principais cidades da Europa, seus palácios, igrejas, ruas e praças.

Como já foi apontado, a duração das temporadas dos exibidores de caixas e vistas ópticas dependia do interesse despertado por suas imagens entre as populações visitadas. Quando este se esgotava, eles partiam para outras localidades à procura de novos e curiosos espectadores, para os quais as vistas que expunham pudessem representar uma nova janela aberta para as maravilhas do mundo real e/ou imaginário. 

De sua parte, as caixas ópticas, cuja popularidade atravessou fronteiras e continentes, significaram para muitos e por um bom tempo a única forma de informação visual sobre o mundo, um passaporte para viajar sem sair do lugar, satisfazendo a curiosidade daqueles que se encontravam distantes dos acontecimentos e lugares sobre as quais haviam apenas lido ou ouvido falar. Simultaneamente, e talvez com maior importância, boa parte delas proporcionava um espetáculo que maravilhava os olhos e os sentidos pelo estrangeirismo dos temas e o encanto dos efeitos ópticos e luminosos proporcionados. De resto, a visão através da ocular individual não deixava de ter um caráter voyeurístico, atraindo também por proporcionar a oportunidade de “espiar pela fechadura”. A ideia inclusive foi o mote da charge desenhada pelo ilustrador Cândido Aragonez de Faria para o jornal porto-alegrense O Fígaro, em 1878. 

“No Cosmorama”. Charge. Autor: Cândido Aragonez de Faria. Jornal O Fígaro, Porto Alegre, ano 1, n. 13, 29/12/1878. Acervo IHGRGS, Porto Alegre.

Antes da popularização das vistas fotográficas, da chegada do cinematógrafo e da imprensa popular ilustrada, as vistas ópticas, e especialmente as placas de vidro para projeção por lanterna mágica, foram os mais populares registros visuais através dos quais os homens puderam perceber visualmente o mundo, podendo descobri-lo à distância. Até então, nunca se havia descoberto tanto por intermédio do sentido da visão e nem este havia sido tão estimulado pelo setor de diversões públicas.

Para ver e saber mais:

Caixas de óptica da coleção da Cinemateca Francesa – Exemplares de uso privado
Caixas de óptica da coleção do Museu do Cinema da Catalunha – Exemplares de uso em espetáculos públicos 
Vistas de óptica – Coleção da Biblioteca Nacional da França


Alice Dubina Trusz é mestre e doutora em História pela UFRGS, com passagem pela ECA-USP no pós-doc, estudando as relações entre a história e o cinema. Sobre o tema, publicou Entre lanternas mágicas e cinematógrafos: as origens do espetáculo cinematográfico em Porto Alegre. 1861-1908 (São Paulo: Ecofalante, 2010), vencedor do Prêmio SAV-Minc 2010, e Verdes anos: memórias de um filme e de uma geração (Porto Alegre, UFRGS/PMPA, 2016). Interessada na história da cultura e da visualidade, tem diversas publicações em livros e revistas acadêmicas sobre a história da exibição cinematográfica, da fotografia, da publicidade, da imprensa periódica ilustrada e das artes gráficas.

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