Ensaio

As diversões públicas na Porto Alegre do século XIX: os espetáculos de projeção por lanterna mágica

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As diversões públicas na Porto Alegre do século XIX: os espetáculos de projeção por lanterna mágica

A Andradas oferece para quem a percorre à noite, agora, um aspecto magnífico. O Sylphorama da empresa Satanaz & Belzebuth tem atraído a atenção do nosso público. De Belém, da Tiririca, da freguesia das Pedras Brancas, de Santo Antonio da Patrulha, da Caixa d’Água, enfim, tem vindo milhares de pessoas assistir aos espetáculos gratuitos todas as noites, na esquina da Andradas e Rua General Câmara. Aplaudem com bravos e “que bonito” em grande escala, mas zangam-se quando de envolta com os quadros exibidos sai um anúncio do Bins, do Vasques ou de qualquer casa. Criticam muito a seu modo as diversas paisagens que se destacam da parede e recebem por entre “victores” as figuras humorísticas. É mesmo um nunca acabar de alegria… (Mercantil-Folha da Tarde, Porto Alegre, 03/10/1895, p. 1.)

O Bins e o Vasques, referidos no trecho acima, eram, respectivamente, proprietários da loja “Ao Preço Fixo” e do restaurante “Gruta Recreativa”, estabelecimentos porto-alegrenses que muito provavelmente ajudaram a financiar, através dos anúncios publicitários que mandaram confeccionar e exibir, a atração pública descrita. Trata-se de projeções luminosas ao ar livre que, segundo o cronista, encantaram os espectadores, muitos dos quais certamente vivenciavam a experiência pela primeira vez.

O soberbo relato registra um evento realmente singular, visto que até então a realização das projeções ópticas em Porto Alegre havia se restringido aos teatros e salões de sociedades privadas, certamente atraindo um público distinto deste que as presenciou na rua, demonstrando toda a sua curiosidade e alegria. Realizadas na parede lateral de algum edifício situado na esquina mais central da cidade, elas iluminaram a noite porto-alegrense e são as únicas de que se tem notícia para a época, nesse formato.

O aparelho denominado “Sylforama” também não era estranho aos porto-alegrenses, aos quais já havia sido exibido por três vezes (1872, 1885 e 1888). Como rubrica da mitologia, o termo Sylpho remete, em dicionários de 1890, ao “gênio do ar” da mitologia céltica e germânica medieval, o que ajuda a entender a sua apropriação para compor o nome fantasia de um aparelho capaz de fazer as imagens viajarem pelo ar, através da luz, até uma tela ou parede. Porque era isso que o Sylforama era: uma lanterna mágica, o primeiro projetor da história, antepassado dos projetores de slides e que seria parte constituinte dos projetores de filmes até 1912.

A lanterna mágica consistia em uma caixa de madeira, folha de ferro, cobre ou cartão, equipada com uma lente, que, mediante o uso de luz artificial, permitia a projeção amplificada de imagens em uma tela ou parede. Criada em meados do século XVII pelo matemático e físico holandês Christiaan Huygens (1629-1695) a partir de uma série de conhecimentos já acumulados nos terrenos da física e da óptica, ela ficou conhecida como a “lanterna do medo” ou lanterna mágica por concentrar um princípio de funcionamento que não era conhecido por todos, e também por proporcionar um prodigioso espetáculo.

Lanterna triunial. Londres, 1888. Coleção Cinemateca Francesa. Fotografia: Stéphane Dabrowski.

A sua popularização e exploração comercial não foram estimuladas pelo seu inventor, interessado em manter a separação entre a ciência e sua apropriação para fins de entretenimento, mas por exibidores itinerantes que passaram a percorrer a Europa realizando projeções. As imagens que projetavam eram pintadas manualmente em placas de vidro, as quais eram emolduradas em madeira. As placas traziam temas como guerras, vistas turísticas de cidades e respectivos monumentos, expedições a lugares exóticos, como selvas e regiões polares, histórias humorísticas, contos infantis, trechos de óperas, temas religiosos e científicos (anatomia, botânica, zoologia, arquitetura, história, astronomia, geografia), retratos de personalidades, temas grotescos e de terror, cenas da vida cotidiana, contos de fada, etc.

Placa para lanterna mágica pintada à mão. Londres, c. 1860. Coleção Cinemateca Francesa. Fotografia: Stéphane Dabrowski. 

Se o princípio de funcionamento da lanterna mágica permaneceu basicamente o mesmo durante os séculos em que foi empregada para divertir e ensinar, tanto lanternas quanto placas de vidro foram aperfeiçoadas por sábios e artesãos, que melhoraram a qualidade de suas lentes, fontes energéticas e placas de vidro, diversificando ainda a natureza das imagens projetadas. Na década de 1850, tornou-se possível fixar fotografias em placas de vidro. Vinte anos depois, desenvolveu-se a cromolitografia, que ampliou o acesso infantil aos aparelhos de projeções e suas possibilidades de contar e ouvir histórias.

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Placa para lanterna mágica fotográfica. França, final séc. XIX. Coleção Filmoteca Espanhola. 

As lanternas mágicas eram confeccionadas em diferentes tamanhos e formatos. As mais simples empregavam como fonte luminosa a lâmpada a óleo ou uma vela, o que proporcionava uma luminosidade fraca e limitava o seu uso a salas pequenas, para diversão adulta em salões de elite ou como passatempo infantil. Um exemplo pode ser apreciado no filme sueco Fanny e Alexander (1982), de Ingmar Bergman.

Na segunda metade do século XIX, o uso da lanterna mágica cresceu e se diversificou, atingindo o seu mais alto grau de qualidade técnica e artística. Com a descoberta de novas e mais potentes fontes energéticas, as lanternas mágicas integraram fontes como a luz oxídrica (década 1820) e a luz elétrica (década de 1890), que aumentariam a qualidade das projeções e permitiriam a sua exibição em grandes teatros. As lentes também foram aperfeiçoadas para evitar a deformação das imagens e as lanternas e placas ganharam mecanismos e dispositivos que permitiriam projetar cenas com movimentos simples e efeitos de dissolução. 

Por essa época, também os porto-alegrenses conheceram e apreciaram as práticas e técnicas relacionadas com as experimentações e diversões ópticas europeias. Dispositivos de observação de imagens, como as caixas ópticas, abordadas na edição n. 61 da Parêntese, e espetáculos de projeções de lanterna mágica também estiveram entre as opções de diversões públicas locais, juntamente com o circo, o teatro, os concertos musicais e as touradas.

Desde 1861, pessoas de diferentes faixas etárias, gêneros e categorias sociais foram atraídas a locais e espetáculos públicos e pagos em busca desse gênero de entretenimento visual. Em uma única ocasião, a motivação foi pedagógica (Lanterna microscópio, 1880), mas o público reclamou por ter visto pulgas e piolhos ampliados. Diferente das tradições inglesa e francesa, que contaram com salas especializadas em projeções luminosas, em Porto Alegre o teatro se tornou o lugar por excelência da sua exibição. Isso porque foi no teatro que se apresentaram habitualmente as companhias de prestidigitação (mágica) e ilusionismo, em voga nas décadas de 1860-70, e de variedades, a partir da década de 1880, em cujos programas as projeções de vistas figuravam como a atração de encerramento do espetáculo, o que indica que eram muito aguardadas. Graças a tais exibições, os espectadores viram e ouviram histórias e se deliciaram com a beleza e o colorido das imagens, às vezes abstratas, produzidas para maravilhar os sentidos, mas também conheceram pontos turísticos das principais cidades europeias, ampliando os seus horizontes informativos e a sua memória visual. 

As projeções luminosas proporcionaram um outra e nova experiência de “viajar sem sair do lugar”, já exercitada pelos observadores dos cosmoramas, conferindo-lhe um caráter espetacular. O Theatro São Pedro, inaugurado em 1858, recebeu a atração a partir de 1861, mantendo tal exclusividade até a década de 1880, quando foi construído o Theatro de Variedades (1879), na Rua Voluntários da Pátria, que também passou a receber tais companhias e atrações.

Praça Mal. Deodoro em 1881, com Theatro São Pedro à esquerda. Acervo Museu Joaquim José Felizardo.

Nos teatros, locais de consagrada consideração pública, tanto a prestidigitação quanto as projeções ópticas acabariam por se impor e ganhar alguma notabilidade como gêneros de entretenimento, angariando a atenção de um público mais exigente e cosmopolita, embora jamais tenham rivalizado em valor social e artístico com as companhias líricas e dramáticas. O seu interesse maior devia se equilibrar entre os esforços de uma ciência empírica cada vez mais interessada em desmistificar superstições e charlatanismos por meio de demonstrações científicas e o fascínio que uma antiga tradição de mágica imagística continuava a despertar entre as audiências populares, desejosas de novos efeitos visuais, agora criados e/ou intensificados pelas descobertas científicas. Nos espetáculos de ilusionismo apresentados em Porto Alegre, as projeções foram apresentadas segundo duas finalidades distintas. A primeira consistia em oferecê-las como uma atração extra, destinada a dar maior duração, variedade e interesse ao espetáculo. Em razão de sua natureza técnica e da crescente valorização das imagens como fontes de conhecimento e encantamento, as projeções luminosas contribuíam para prestigiar os gêneros espetaculares aos quais foram associadas. Neste caso, o aparelho projetor era mantido visível aos espectadores, sendo manuseado em meio ao público, que assim podia apreciar tanto as imagens projetadas quanto a invenção científica que as propiciava. Propagado com destaque, o dispositivo recebia sempre instigantes e mirabolantes nomes fantasiosos, como Megascópio egípcio (1861, 1878), Poliorama fantasmagórico (1863), Diafanorama (1875), Calidoscópio gigante (1880, 1883 e 1887), Grande Poliorama Elétrico (1882), Silforama (1888), Stereopticon (1890) e Polyorama Universal (1896).

Anúncios Conde Patrizio. O Mercantil, Porto Alegre, 27 e 30/08/1883, p. 3. Acervo MUSECOM.

Tais denominações provavelmente buscavam enobrecer e distinguir o aparelho profissional e o respectivo espetáculo das lanternas mágicas domésticas, de confecção e funcionamento mais simples, incapazes de proporcionar os mesmos surpreendentes efeitos visuais. Para tal, eram privilegiadas imagens de grande beleza, com o intuito de proporcionar aos espectadores experiências lúdicas e sensações prazerosas, daí o predomínio das vistas de temática turística e artística, mas também daquelas que ilustravam narrativas baseadas nos clássicos da literatura laica e religiosa. 

A segunda orientação obedecia ao interesse e/ou necessidade de empregar tais dispositivos como meio de incremento dos truques. Para tal, o uso do dispositivo não era revelado, preocupando-se o ilusionista em ocultá-lo como o responsável pela viabilização mecânica de certos efeitos, comumente relacionados às ciências ocultas. Em tais espetáculos, buscava-se aumentar a tensão e mesmo provocar o medo entre o auditório, respondendo ao gosto pela ilusão e pelos espetáculos de sensações. 

As lanternas mágicas e suas vistas tiveram importância fundamental no estreitamento da relação dos contemporâneos com as imagens técnicas e na sua formação como espectadores de espetáculos de projeções, participando da dinamização e construção de uma cultura visual. E isso faria diferença em 1896, quando seriam apresentadas em Porto Alegre as vistas animadas do cinematógrafo. 

Para ver e saber mais: 


Alice Dubina Trusz é mestre e doutora em História pela UFRGS, com passagem pela ECA-USP no pós-doc, estudando as relações entre a história e o cinema. Sobre o tema, publicou Entre lanternas mágicas e cinematógrafos: as origens do espetáculo cinematográfico em Porto Alegre. 1861-1908 (São Paulo: Ecofalante, 2010), vencedor do Prêmio SAV-Minc 2010, e Verdes anos: memórias de um filme e de uma geração (Porto Alegre, UFRGS/PMPA, 2016). Interessada na história da cultura e da visualidade, tem diversas publicações em livros e revistas acadêmicas sobre a história da exibição cinematográfica, da fotografia, da publicidade, da imprensa periódica ilustrada e das artes gráficas.

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