Ensaio

As solteironas no Museu de Arte do Rio Grande do Sul

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As solteironas no Museu de Arte do Rio Grande do Sul Imagem da exposição "Christina Balbão – Além do silêncio". Foto: Isabela Giongo

Acabei de lançar “O gaúcho era gay? Mas bah! (1737-1939)”, pela Estúdio MAR edições, no qual demonstro que, historicamente, havia certa desconfiança pairando sobre os solteirões, afinal de contas, a “regra”, salvo alguns casos, era o matrimônio. As exceções ficavam por conta das freiras e dos padres, motivados pelo controverso requerimento de celibato. 

Certamente mais pessoas permaneciam solteiras. No Vale do Taquari, interior do Rio Grande do Sul, onde me criei, não era incomum, em famílias de larga prole, alguns dos filhos permanecerem nessa condição. Geralmente eram os que ficavam residindo com os pais e, na velhice desses, no papel de cuidadores. Existem estudos que tentam compreender a instituição do celibato laico, entre nossos avós e mais para trás, como sendo resultantes da vida econômica, quando casamentos e solteirices seriam resultantes do cuidado na divisão das propriedades ou, em outra mão, da chance de somar terras e bens ao patrimônio. 

Leila Lofego Rodrigues, formada em antropologia, chegou a inferir, em O avesso do casamento: uma leitura antropológica do celibato camponês feminino, que “os celibatários sofrem uma espécie de infantilização”, porque, para o imaginário social, não cumpriam com os ritos de passagem para a vida adulta, consistentes, entre outros, no matrimônio e na procriação. Certamente, para as mulheres, a capacidade reprodutiva, limitada temporalmente, às levava forçosamente a uma escolha definitiva, porque deixavam de ser interessantes, na grande maioria das vezes, para o casamento. Já os homens solteiros poderiam mudar de ideia a qualquer tempo. 

Bom, dito isto, preciso informar que tenho muito interesse em percorrer os museus de Porto Alegre. E que observo não somente a estética do que encontro, mas como as relações de gênero estão impressas nas obras – explicitamente ou não. Esse olhar perquiridor causa alguns constrangimentos, como o que relatei à introdução da revista Parêntese LGBTQIAPN+, publicada em maio de 2023. 

Comentei que, “lá pelas tantas, tentando encontrar referências sobre o artista plástico Djalma do Alegrete (1931-1994), as pintoras Alice Ardohain Soares (1917-2005) e Alice Esther Brueggemann (1917-2001) despertaram minha atenção. Ambas mantiveram um atelier na rua Marechal Floriano, em Porto Alegre, por mais de quarenta anos. Não casaram, não tiveram filhos. Uma delas, a despeito de não significar muita coisa, tinha um perfil mais masculinizado. Seriam um casal? Seria excelente, torci.”

Ocorre que essa minha empolgada torcida, para resumir a história, não foi muito bem interpretada por alguns gaúchos do meio artístico. Reagiram muito mal quando os indaguei sobre a possiblidade de as Alices terem sido um par romântico. Nesse mundo espinhoso, que continua sendo meu campo de pesquisa, a única informação nova , desde lá, é a colocação do amigo de ambas, do arquiteto Guilherme Paz, que foi registrada por Tatiane Iung da Silva no trabalho de conclusão de curso em História da Arte pela UFRGS: Ateliê das Alices: percursos da memória. Diz o verborrágico entrevistado: “As Alices eram lésbicas? Não existia isso na época, acho que teriam sido – hoje seriam –, mas não existia isso na época […].” 

Meu livro, que citei acima, desmente a lógica de que “isso não existia”, mas essa fala pode ser traduzida como “isso era pouco comentado e mal visto”. E, como exemplifiquei anteriormente, ainda hoje, gera reações inesperadas. O universo das artes se retorce. Recentemente, perguntei a um homossexual notório no mundo das artes plásticas sobre a possibilidade de algumas artistas gaúchas, suas contemporâneas e até amigas, terem sido lésbicas. Reagiu rispidamente dizendo: “Eu não sei nada sobre a vida sexual delas.” Apesar de toda a formação que ele carrega, achei a resposta medíocre, porque, obviamente, não me interessa a questão sexual no sentido de saber o que faziam ou deixavam de fazer entre quatro paredes. 

O artista Alfredo Nicolaiewsky, em Fernando Corona e o ‘documentário fotográfico de esculturas executadas pelos alunos desde a fundação do curso de escultura” relacionou que, no estado sulino, algumas poucas mulheres tiveram expressiva contribuição no mundo das artes. Discorrendo sobre Alice Soares, Christina Balbão (1917-2007) e Dorothea Vergara, informou que, além da produção artística, foram importantes professoras. Como explicação para o destaque por elas adquirido, sugeriu que lhe parecia “muito claro [que…] a maneira como as mulheres, de modo geral, eram consideradas naquele contexto: poderiam ter atividades profissionais, se os maridos permitissem, mas estas deveriam ser adequadas a sua condição de frágeis e femininas. Talvez seja por isso que, querendo escapar desta submissão programada, Alice Soares, Christina Balbão e Dorothea Vergara não se casaram.”

Pois bem, se gênero é uma categoria tão relevante a ponto de se creditar à escolha pelo celibato como uma das possiblidades para tomar corpo no mercado de trabalho, certamente, na minha área de estudos, ser LGBTQIAPN+ importa tanto quanto essa questão. Porque poderíamos ver um amparo entre duas pessoas, mesmo que vivendo contra as convenções da época, que sustentaria – de muitas formas – suas possibilidades de produção. Cristalinas são, entre muitos dos casais heterossexuais da literatura e das artes plásticas, a influência de um sobre a obra do outro, muitas vezes inspiração, outras contribuição direta (a ponto de co-criação), sustentação administrativa, ou provimento de vida para que um dos parceiros se dedique à escrita, à pintura ou a outro segmento.

Em casos de lesbianidade, em algum momento, haveria a reflexão sobre a (in)adequação da representação ou não dessa orientação sexual nos trabalhos. Ou acreditam que não gostariam de fazer (auto)representação do erótico entre duas mulheres? Bem se sabe, a sexualidade é um dos objetos mais constantes de um – não (auto)questionado – universo heterossexual. O erotismo heterossexual brota em telas, desenhos e textos. Eu ficaria feliz se, ao menos quem lida com as artes, deixasse de tentar me convencer de que a orientação sexual é irrelevante. 

Ao MARGS. Sugiro a visitação às recentes exposições. Nessa temporada, pelas paredes, as obras de três gaúchas solteironas. Elas conseguiram apresentar marcas próprias, foram relevantes no universo do ensino e na museologia. Falo da exposição Além do silêncio (que ainda silencia em alguma coisa), sobre Christina Balbão, e das obras de Alice Brueggemann e de Alice Soares na mostra Acervo em Movimento.

Vale ver pela riqueza da “arte pela arte”, mas, como advogo, também por todo o contexto. Foram as solteironas (alguma lésbica?) que fincaram pé contra um mundo que tentava colocá-las em condições de submissão. As trajetórias das artistas podem revelar a fragilidade contextual feminina, isso se considerada a solteirice como triste e única saída. Mas, em outro sentido, dispensando a noção de “coitadas”, “encalhadas”, aparecem como ilustrações da força, de quem optou pela liberdade das convenções entre heterossexuais – e, quiçá e oxalá, em alguns casos, representem a presença e a energia lesbiana. 


Jandiro Adriano Koch, ou Jan, nasceu e vive em Estrela, RS. Graduou-se em História pela UNIVATES e fez especialização em Gênero e Sexualidade. Com cinco livros lançados, dedica-se a estudar e mostrar vivências LGBTQI+, especialmente em sua região, o Vale do Taquari, “O gaúcho era gay? Mas bah!” seu último título lançado este ano.

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