Ensaio

Corredores

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Corredores

No condomínio em que vivo, levantado há cinquenta anos no limite entre o rural e o urbano, uma vizinha bem “de cidade” concordou entusiasmada, quando eu lhe disse de minha alegria por ver determinadas espécies de animais silvestres: “Sim! Eu já vi até cavalos selvagens, aí na rua de baixo!”

O delírio urbano diante do rural ou da natureza pode superar sobradamente as crenças interioranas que tanto nos divertem, com seus lobisomens e simpatias. Ora, “cavalos selvagens”… A matungada recolhida a cada fim de tarde, em maioria marcada e ferrada, mansa, fora alguma balda, proporcionou à vizinha uma imagem do deserto do Arizona; da Patagônia, de Roraima; das últimas bagualadas dos países nórdicos ou asiáticos. 

Já me vieram à cabeça os relatos do Albardão, aqui no sul do Rio Grande – ou algum trecho de linda descrição, no “Correr Eguada”, de Simões Lopes. 

Distraiu-me da conversa de por sobre a cerca e dos latidos dos nossos cachorros – chatos, mas não selvagens – uma outra vizinha, colona alemã, que passa todos os dias com o neto e uma ponta de cinco Jersey bem cuidados. Gosto dos queijos que eventualmente faz, gosto da nata, mas acho que mais gosto de ouvi-la dizer Käschmier, numa pronúncia colono-castiça, que deve ter perdido ou ganhado em ácido e sal, ao bandear hemisfério e século, ao cruzar o mar. 

Pois as vacas leiteiras da queijeira, com seus terneiros e alguns outros da espécie, talvez não se escapem de ser considerados selvagens por algum citadino fã de National Geographic, se o critério é o fato de andarem soltos, em grupo, pastando nas ruas aqui do Guaibinha.

Na conversa com a vizinha, eu exultava por ver por aqui o tucanuçu; veados, quando saía a cavalo pelas áreas de produção de madeira para celulose, bem aqui próximas; algum tamanduá, graxaim…. É preciso lembrar, no entanto, que muitas vezes o avistamento não tem o melhor dos motivos. Não é abundância da espécie, nem indica que nosso habitat é são ao ponto de recebê-la ou atraí-la. É a indicação de que o daquele animal está em ameaça ou degradação. Se não, provavelmente não o veríamos. 

Certo; mas então, as vacas da vizinha e os cavalos soltos… onde deveriam estar?

Bom, aí entram outros costados das relações e intersecções entre o ecológico e o sociológico. Antes ou mais do que as vacas e os cavalos, foram seus donos, os que perderam seu lugar para algum tipo de degradação. Sem mesmo perguntar quantos e quais desses pequenos proprietários de grandes animais foram efetivamente expulsos de alguma área em que estiveram, a qualquer título, assentados – e certamente muitos o foram -, é evidente que os carroceiros porto-alegrenses que cortam pasto nas margens do arroio Dilúvio para seus cavalos “deveriam” ter seu pasto nativo ou plantado, no lugar onde vivem. Não apenas gostariam disso; é uma condição básica e lógica para a vida que levam e a atividade que exercem, de resto ainda útil, ainda inserida em uma dinâmica social.

Minha vizinha altiva, rigorosa em seu cuidado afetuoso com os seus bichos, não deve gostar de pastorejar pelas ruas e baldios do condomínio sua pequena vacagem Jersey. Ah, é certo que não. Como tampouco os meus amigos, bons ginetes, negros, todos parentes, que, como vários outros extraviados da cultura equestre tradicional, passam por aqui reproduzindo cenas de campanha.

Conduzem tropilhas, que entreveram seus próprios poucos animais a cavalos pertencentes a membros da classe média urbana, que os têm como lazer de fim de semana; os manejam pelos caminhos do loteamento, fazendo a fantasia da outra vizinha, aquela que acredita ver manadas indômitas. 

Ivan Pedro de Martins, mineiro, comunista, que no malogro da Intentona veio parar em uma estância de uma São Gabriel tão remota que valia por um exílio, soube contar essa história. Há uns oitenta anos. 

Refiro-me à história de ocupação do espaço público (o espaço de trânsito, a “rua” do mundo do latifúndio pastoril), como única ou última alternativa, mas também como resistência. 

O segundo livro da trilogia do pampa, de Martins, tem como cenário e personagem o “corredor”. Caminhos do Sul trata da população de excluídos que não apenas transita nesse espaço conformado pela consagração do arame no latifúndio sulino, o chamado cercamento dos campos, iniciado no último terço ou quarto do século XIX. O corredor: espaço estreito entre as imensas propriedades de senhores reconhecidos, é lugar e não-lugar; de deslocamento e permanência dos que não possuem campo “de seu”, como dizem eles próprios – para si, para sua gente, seu trabalho e seus animais. 

Aí estará a condição de pária, de despossuído, como quando Jayme Caetano Braun, no lindo “Tio Anastácio”, diz “morreste no corredor como matungo sem dono”. Mas há estratégia, resistência e mesmo altivez em ocupar o espaço de trânsito, ressignificá-lo, como urbana ou contemporaneamente se observa com o espaço público. 

A vida na campanha pastora tradicional não transcorre em praças e parques. Até hoje, pode impactar, a quem não é desse meio, o fato de que todos os lugares de interesse a que um visitante será levado por alguém tradicional, na fronteira, por exemplo, serão dentro de espaços privados. A estância ou a charqueada de fulano ou da família tal, com sua história e mística, serão os destinos obrigatórios. 

Nada parecido com aquela sensação de presenciar, em grandes cidades do mundo, uma mentalidade e uma prática de ocupação de espaço; o banho de sol na pequena praça, os grupos de colegas de trabalho fazendo refeições nos gramados centrais.

Não é preciso que me recordem, claro, quão simplificada é essa oposição; podem-se acompanhar concertos e feiras em uma praça de Jaguarão, e alguém em Nova Iorque fará questão de apresentar a um estrangeiro um espaço privado. Mas acho que se pode, sim, identificar essa diferença essencial. 

Volto, então, à comparação da ocupação do corredor com a afirmação de cidadania pela apropriação do espaço público urbano. Não há algo de altivez, para além da falta de propriedade, nos homens e mulheres que plantavam, comerciavam, divertiam-se e criavam animais no corredor? E como não se adiantar cento e cinquenta anos, para, se não reconhecer, ao menos buscar ou admitir essa possibilidade no manejo contemporâneo de animais em beiras de caminho? O carroceiro de Porto Alegre pode eventualmente ter inibições de convivência e circulação em espaços e equipamentos públicos – mas corta diariamente pasto para o animal, foice na mão, agachado, na avenida Ipiranga. 

Essas conexões também podem parecer simplistas, ou podem sê-lo – mas gritam, às vezes. Lembro de dar-me conta, há anos, que, se um homem rural antigo não andava a pé nem de cabeça descoberta, tampouco agora o faz. Quem já não anda com indumentária tradicional gaúcha e já não anda a cavalo… estará provavelmente de boné e bicicleta. Um querido amigo que foi peão campeiro naquele mesmo condomínio onde pastam “cavalos selvagens” e as Jersey da minha vizinha, quando era uma grande estância tradicional, há algum tempo levou um tombo feio de bicicleta. A terceira idade já o tinha apartado para o seu lote fazia tempo, mas ele resistia. Decepcionado, me dizia: “logo eu, que nunca fiquei debaixo de matungo nem de bicicleta! ” Mantinha intacto o antigo orgulho gaúcho de ser “saidor” (na Argentina e Uruguai, é “parador”): o cavalo pode rodar à vontade, planchar-se, bolear-se.… e o ginete sai de pé, folheirito, cabresto na mão.

Mas meu amigo não era mais parador, e uma bicicleta caborteira inchou o lombo com ele, em alguma ladeira de chão batido. É certo que levava um boné bem enterrado na cabeça; um daqueles que, sarcasticamente, fazem a propaganda de alguma das multinacionais que estão por trás do fato de aquele ginete já não ter seu lugar, um bom cavalo e um bom chapéu. 

Aqui, alço a perna para tomar um caminho digressivo e elogiar, comentar e um pouco lamentar uma bela obra: em “De Corrales a Tranqueras”, Osíris Rodríguez Castillos conta do apaixonado que percorria as talvez onze léguas estendidas entre as duas localidades, aos domingos, para ver a amada. Na bela canção, aquele fronteiriço, já envelhecido, contava de quando fazia aquelas viagens em seu flete parelheiro, em tempos passados: seus “anos de domador”. Mas o amante que inspirou o tema era, na verdade, telegrafista, e o percurso era coberto de bicicleta. Osíris é o autor, e a criação, claro, é livre. Mas pode ser útil, para quem lida com tradição e cultura popular, perguntar-se os porquês da troca de veículo e ofício; da localização da narrativa, tão ao gosto do gauchismo, em um tempo já perdido… indagar-se, enfim, quão valiosa teria sido uma canção crioula contando a história singelamente real. 

Já está; boleio a perna; sigamos, a pé, com o pingo pela rédea ou tangendo a bike pelo selim. 

Fico pensando – e aí estão os enredos e continuidade entre o ecológico e o sociológico, que mencionamos aí acima: quem se desconcerta tanto ao ver cavalos soltos naquele ambiente, ao ponto de crer que são selvagens, como se sente diante dos homens e mulheres que usam baldios e caminhos para continuarem vivendo como seus ancestrais, naquele lugar? Devem parecer os últimos indígenas teimosos, esses, que não estão lá pelo lazer, a piscina e um pouco de liberdade de fim-de-semana para as crianças. Provocam a impressão definida pela velha inversão do conceito de exótico; fornecem, por sua forma de falar e alguma crença, boas piadas a uns; admirada e respeitosa emoção no contato intercultural a outros… o que talvez dê no mesmo. 

Estou entre estes últimos: interessado nessas pessoas e no que portam de uma tradição “sua” (e nem sempre evidente ao olhar que busca o pitoresco), mas que tem elementos que, simultaneamente, me são comuns.  

Procuro com isso cortar alguns arames – “desalambrar” -, quando proponho, por exemplo, a comparação entre a cultura hip-hop ou rapper e os antigos pajadores, em que ambos compartilham a raiz negra, a marginalidade, o improviso, a resistência… mas também a constituição como lugar e a ocupação do território de trânsito, de todos e de ninguém: as ruas ou os corredores que sulcam o mundo rigorosamente cercado dos proprietários. 


Demétrio de Freitas Xavier é cantor, violonista, intérprete da obra de Atahualpa Yupanqui, e criador do programa “Cantos do Sul da Terra”, que apresenta semanalmente na FM Cultura.

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