Ensaio

En la ciudad de la furia

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En la ciudad de la furia Cartaz anunciando aplicação de repelente Off por 500 pesos, foto: @las_paredes_son_nuestras, via Instagram

É uma verdade universalmente aceita que quando nos deslocamos a trabalho, isso muitas vezes afeta nossa vida pessoal. Da última vez que escrevi neste espaço, estava em Buenos Aires pesquisando. Agora, estou em Buenos Aires de férias, mesmo que esse não seja o lugar mais hospitaleiro do mundo no verão. O sol se multiplica por cinco durante o dia, está úmido e a cidade foi tomada por mosquitos, e não aqueles com os quais estamos acostumados. Consequência da seca e depois do El Niño, esse mosquito é outra espécie de Aedes, habituada a picar cavalos e vacas e que se atraca a nós como se fôssemos também bichos de pasto. O repelente nos supermercados e nas farmácias acabou. Não há como não notar quando um inseto te confunde com uma égua. 

A era Milei começou com tudo.

Meu primeiro texto aqui, de abril do ano passado, já apontava para minha percepção de que havia algo limitado na defesa da democracia pura e simples, sem adjetivos, à qual nos agarramos nos últimos anos, principalmente após o impeachment de Dilma e que parece imperar nos atos de rememoração do 8 de janeiro. Não sou nenhuma especialista em história contemporânea, muito menos faço parte de observatórios que se dedicam a estudar movimentos políticos e sociais, mas desde o que chamamos Primavera Árabe, do Occupy Wall Street, dos protestos no Brasil em 2013, me parece haver um desencaixe entre a democracia tal como pensada após o fim da Guerra Fria e aquilo que de fato as pessoas esperam do capitalismo e demandam da política. Vide o Brexit, vide a vitória de Trump. Isto é, isso tudo acabou por gerar umas coisas no mínimo esquisitas para quem vivia confortável, pensando que tínhamos alcançado certo devir democrático.

Javier Milei, com o atordoante Decreto de Necessidade e Urgência — que inclui coisas como o estatuto de clubes de futebol — e a mais estapafúrdia Lei de Bases e Pontos de Partida para a Liberdade dos Argentinos, que coloca o país em estado de emergência até 2025, não vem de hoje. Boa parte daqueles que o cercam foram ativistas anti-quarentena entre 2020 e 2021, a começar por um muchacho que facilmente se enquadraria no MBL chamado Iñaki Gutiérrez. Nesses últimos anos o vocabulário e a dimensão da violência política na Argentina dobraram a aposta e chegaram num ponto aparentemente sem marcha ré, marcando episódios tais como um protesto em torno do escândalo da chamada “vacinação vip” com a instalação, diante da Casa Rosada, de sacos mortuários simulando cadáveres, com os nomes daqueles que supostamente haviam se vacinado nas dependências do governo. Entre eles, estava o de Estela de Carlotto, presidente da Associação Avós da Praça de Maio. Atentar contra a vida dessa mulher, a meu ver, deveria causar um arrepio na espinha de qualquer indivíduo de bom senso. 

Logo depois, deram-se as aparições de Ford Falcons verdes em manifestações, automóvel que no último ano se tornou veículo de ameaças e memes da extrema direita por ser o carro usado pelos repressores durante a última ditadura civil-militar, nos sequestros que estão memorializados nas calçadas de Buenos Aires em quase todos os bairros, justamente para demonstrar a ubiquidade da violência daquele período. Isso sem falar no atentado à Cristina Kirchner em setembro de 2022, um evento bizarro cuja investigação se assemelha à da morte de Marielle Franco em seu ritmo e desinteresse do status quo. Uma boa síntese de tudo isso está nessa coluna do historiador Ezequiel Adamovski, de 7 de janeiro.  

O que quero dizer é que aquele país para o qual muitas vezes alguns de nós olhávamos com certa inveja, atravessados pelos olhos azuis de Ricardo Darín, agora dá dessas. Entre os descontentes com Javier Milei estão também os familiares de militares presos por crimes de lesa humanidade que, segundo eles, já deveriam ter sido libertados.    

Assim como as marchas nos Estados Unidos que remetem à KKK, aos neonazis na Alemanha, o Voz na Espanha, e aos saudosos do integralismo, da monarquia e da ditadura no Brasil, esses movimentos recentes dão mostras de que a ideia de democracia sólida construída a partir dos 80 no ocidente se desmanchou no ar. A provável volta de Trump à Casa Branca em novembro desse ano é ou será apenas seu epílogo. 

O decreto e a lei propostos por Milei, que estão sendo discutidos em sessões extraordinárias do congresso até o próximo dia 31, são gigantescos e confusos porque são feitos para atordoar mesmo. Foram redigidos por escritórios de advocacia que ninguém sabe bem quem são e por um economista, Federico Sturzenegger, que foi coadjuvante da crise de 2001, presidente do Banco Central no governo Macri e agora, mesmo sem ter um cargo oficial, aparentemente faz parte do governo. Mais ou menos como o cachorro morto de Milei, suponho. A palavra “choque” é usada constantemente por membros de seus gabinetes, fazendo os “choques de ordem” do prefeito Eduardo Paes no Rio de Janeiro lá por 2010 parecerem brincadeiras de criança. Meu companheiro de andanças por aqui volta e meia para no meio de nossas conversas ao se dar conta de mais um item dos dois calhamaços que lhe tinha passado batido, exclamando uma série de impropérios. Shock and awe. 

Em duas semanas de janeiro, já se vê mais gente dormindo na rua e pessoas com cartazes semelhantes aos que vemos no Brasil pedindo comidas nos semáforos. O preço de tudo dobrou, das facturas às entradas dos museus, às verduras, frutas e carne, deixando os preços salgados mesmo para quem desfruta do câmbio paralelo. Passei pela experiência singular de, num chino, perguntar quanto estava o pacote de um quilo da erva mate Playadito e o rapaz do caixa me olhar com o semblante vazio, consultar a colega e receber igual silêncio como resposta.

“Não sabemos ainda que preço colocar,” me disse, contrito.

As senhoras que estavam no caixa junto comigo riram, com a clara intenção de fazê-lo para não chorar. 

“Está de graça, então?”

Así las cosas.

Algumas medidas já são familiares a nós: as propostas de vendas de empresas públicas a preço de banana e sem qualquer lisura, o parcelamento de salários de servidores públicos a nível provincial, as universidades públicas anunciando que não têm como operar com o atual orçamento, o desfinanciamento do CONICET (a agência financiadora de pesquisa científica), a desregulação do mercado imobiliário e de medidas de proteção ambiental. Isto é, talvez alguns políticos que conhecemos também estejam, nos últimos anos, conversando com cachorros mortos sem que saibamos. E não me refiro aqui somente ao ex-presidente que atendia, quando ainda era militar, pelo apelido de Cavalão. Creio que a imprensa brasileira gosta de se deter nas excentricidades de Javier Milei por não querer falar sobre as semelhanças entre suas propostas e aquelas de governadores e prefeitos que falam direitinho e usam talheres. Para confundir tudo, quando precisam apontar a esculhambação que tem colocado em prática, usam o termo “anarcocapitalista”. 

O decreto também torna facultativo que crianças frequentem escolas a partir do quarto ano, atendendo o desejo daqueles pais de extrema-direita que desejam que os filhos não sejam educados sem acesso a outra visão de mundo que não aquela que impera dentro de suas casas. O homeschooling tem esse nome em inglês porque surgiu nos Estados Unidos e tem adeptos e lobistas muito atuantes no Brasil, tendo surgido e estando muito em voga entre movimentos religiosos (esse episódio de podcast aqui a respeito está ótimo). No entanto, aqui do meu canto, acho que também diz muito sobre como certos pais, principalmente da minha geração, percebem as alteridades. Depõe a respeito de como essas pessoas se relacionam com as instituições de ensino, sobretudo com os professores. Não é tão somente uma questão de “estar pagando” e de ser “meu filho”. São pessoas que se tornaram adultas em meio às bolhas do shopping, do colégio e da internet e que foram pegas no contrapé por questões semelhantes às quais falou, ainda que de forma meio atabalhoada, Fernanda Torres no Roda Viva.

O que quero dizer é que longe de parecer um cenário apocalíptico distante, onde as pessoas precisam comprar remédios de uso contínuo por cartela ou do contrário não comem, gente que crê nas bases políticas e teóricas do que ocorre na Argentina estão sentadas ao nosso lado no bar, no restaurante, no avião quando saímos de férias, inclusive dizem ter inveja das propostas do presidente argentino. Não ver isso é consequência de tratar regimes de exceção, até mesmo o próprio nazifascismo, como sendo eventos extraordinários e não fruto de decisões políticas cotidianas. Em geral, os regimes de exceção atendem a pessoas como a moça que vi entrevistada pelo canal C5N esperando um ônibus em Morón, no conurbano bonaerense, que disse “há gente que passou muito tempo sem trabalhar e que agora vai ter que trabalhar”. Um discurso moralista sobre o trabalho e sobre o Estado não muito diferente do que escutamos no Brasil a respeito daqueles — os outros — que têm cargos públicos ou recebem qualquer auxílio do governo. Pessoas que se enxergam como vítimas do Estado e não do próprio sistema que a faz se matar de trabalhar sem disfrutar do que os patrões ganham e que não passam necessidades o suficiente para precisar da rede de seguridade social. 

É muito fácil subirmos num pedestalzinho e pensarmos que não votamos nessas pessoas. Que somos democratas, a favor da diversidade e do respeito, porque essas coisas sempre voltam a ser esfregadas na nossa cara quando nossos privilégios — e aqui principalmente os de fala — são atacados, como vejo nas reações de muitos homens e mulheres ao “politicamente correto”. Já aparecem aqui na Argentina memes e cartazes dizendo “yo no lo voté”. Acho que colocarmos a culpa no outro é um procedimento fácil demais quando estamos todos lanhados com os espinhos desse caminho tortuoso que é ser um regime verdadeiramente democrático na América Latina, em que ouvir a todos, principalmente aqueles que tem algo a nos dizer sobre o quanto nossas virtudes são limitadas, muitas vezes é particularmente doloroso. Tendemos a cuidar mais dos nossos, inclusive das nossas culpas, procurando não misturá-las com as alheias, e embora eu não seja particularmente derrotista, me pergunto se não precisamos nos encontrar justamente nas falhas daquele sistema democrático que acreditávamos pronto e que uns sujeitos acharam por bem vandalizar em janeiro do ano passado. Nessas falhas, nesses ruídos, talvez estejam as soluções para evitar que mais tormentas apareçam no horizonte.

Por causa das chuvas de verão, que normalmente são efeitos de frentes frias vindas da Argentina, brinco que estar aqui é estar no futuro. Eu espero, sinceramente, que dessa vez isso não seja verdade.  


Renata Dal Sasso é Professora de História da Unipampa, campus Jaguarão, vai passar dois meses como pesquisadora visitante na Universidad de Buenos Aires. Além disso produz uma newsletter pessoal sob o nome “Correio do sul do sul”.

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