Ensaio

Fazendo 90

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Fazendo 90

Já deve ter te acontecido: uma certa dificuldade de ler aqueles poemas muito lidos e relidos e treslidos. Quero dizer que é uma dificuldade de ler efetivamente, ler com os olhos e com os sentidos aguçados da primeira à última palavra, e não daquela forma mecânica de quem foi atropelado por um ritmo e por uns versos entranhados na memória. Dá um Google aí na “Canção do exílio” e eu jogo contigo: entre as palmeiras e o sabiá tu já entrou no automático, dá meio que um bug e tu começa a pensar na pilha de louça que tá só no teu bico, e de repente tu chega no final do poema sem ter te molhado, tipo Jesus andando sobre as águas. Acho que agora me expliquei.

Não era sobre isso que eu queria conversar. Ou melhor, não diretamente. Mas é que falar de Alguma poesia, livro de estreia de Carlos Drummond de Andrade que está completando noventa primaveris primaveras bem no meio dessa pandemia, é inevitavelmente lidar com alguns desses poemas que se tornaram difíceis de ler.

“No meio do caminho” talvez seja o caso mais emblemático, taco a taco com “Quadrilha” (“João amava Teresa que amava Raimundo” e segue o baile) e com o “Poema de sete faces” (“Mundo mundo vasto mundo”, quem não aplicou essa em algum momento sórdido da vida?). Este último, aliás, no qual o anjo torto manda o nosso camarada ir ser gauche na vida, é o que abre o livro. Mas desconfio de mais alguns que poderiam entrar na lista: “Infância” (“E eu não sabia que minha história / era mais bonita que a de Robinson Crusoé”), “Política literária” (“O poeta municipal / discute com o poeta estadual”), “Cidadezinha qualquer” (“Eta vida besta, meu Deus”), “Cota zero” (“Stop. / A vida parou / ou foi o automóvel?”).

Onde eu tô querendo chegar? É meio que estatística: dos 47 poemas que compunham aquela primeira edição – outros dois entraram na segunda (“Sentimental” e “Outubro 1930”), dois saíram na segunda e acabaram voltando na terceira (“Também já fui brasileiro” e “Europa, França e Bahia”), e então o livro ficou com a cara que conhecemos hoje, com 49 poemas – mais ou menos 20% é de poemas antológicos. Antológicos não, antologicões, desses que a gente precisar fazer esforço pra ler lendo, porque antológicos são vários outros. (Há uma distinção ontológica importante entre antológico e antologicão, outra hora eu explico.) Estão aí as antologias (do próprio Drummond, da poesia brasileira do século XX, da poesia em língua portuguesa) pra confirmar as estatísticas.

Esse é o espanto, o lado incomum pra um livro de estreia: não é preciso procurar muito pra achar os clássicos de toda uma obra, de toda uma vida.

Sinal de maturidade do poeta (e de um poeta que amadureceria ainda mais, muitíssimo mais, ao longo da carreira), sinal de maturação de um projeto. Te conto.

Numa carta de 22 de novembro de 1924, Drummond diz para Mário de Andrade, que havia conhecido pessoalmente alguns meses antes: “Alguns desses versos seguem junto a esta carta. Quero ter sobre eles a sua nobre e autorizada opinião”. Estamos diante do avô do nosso conhecido clipezinho de anexar arquivo no Gmail. E também estamos falando da segunda carta enviada pelo Andrade mineiro ao Andrade paulista (não há parentesco de sangue entre eles, apenas poético), a segunda do que viria a ser uma extensa – e talvez a mais famosa e bem-sucedida – amizade epistolar entre escritores brasileiros. Mário, além de nove anos mais velho, a essa altura já é um nome que circula entre gurizada literata do centro do país, o que explica tanto a ousadia da atitude de Drummond quanto a postura reverente.

O conjunto de poemas enviado já tem, inclusive, um nome, uma intenção de título: Minha terra tem palmeiras (rá!), que Mário acha interessante – tempos depois mudaria de opinião, assim como o autor.

Nos cinco anos seguintes, os poemas do que viria a ser Alguma poesia viajariam entre Minas (Itabira, Belo Horizonte) e São Paulo, acompanhados de um variado cardápio:

– considerações gerais sobre a vida (“Se vocês forem felizes eu fico sossegado, se forem tão idiotas a ponto de serem infelizes vai ser um desastre pra mim. A todo o momento: Ora o Carlos!… Ora a Dolores!… E é horrível a gente estar pensando nos outros sem prazer.”; “Devo estar bem doente. Hoje, inda por cima, estou triste.”),

– aconselhamentos (“Porque o livro tem que sair está claro. Você não tem direito de ficar com ele guardado aí só porque nesta merda de país não tem editor pra livros de versos.”),

– debates sobre questões de linguagem (“Que abundância francesa de possessivos!”; “Que abundância francesa de uns!”),

– puxões de orelha (“Você faça um esforcinho pra abrasileirar-se. Depois se acostuma, não repara mais nisso e é brasileiro sem querer.”; “Foi uma ignomínia a substituição do na estação por à estação só porque em Portugal paisinho desimportante pra nós diz assim. Repare que eu digo que Portugal diz assim e não escreve só.”),

– e linhas e linhas elogiosas (“muito, muito bons”; “simplesmente admirável”; “formidável”; “gostosura ingênua tão simples”; “luxo de gostosura irônica”; “uma obra-prima”; “segunda obra-prima”; “ficou cutuba”; “cutubíssimo”; “distinção com louvor”; “peso pesado”; “obra-prima total”; “o mais forte exemplo que conheço, mais bem frisado, mais psicológico do cansaço intelectual”).

O diálogo intenso que ajudou a gestar esse clássico foi parar, ainda que de forma um tanto cifrada, na dedicatória de Alguma poesia: “A Mário de Andrade, meu amigo”.

Com o livro já publicado – uma tiragem de 500 exemplares paga do próprio bolso, “a preço camarada, pagando-o parceladamente”, feita na Imprensa Oficial de Minas Gerais –, a avaliação de Mário, também em carta, é certeira: “A primeira vitória do seu livro e a decisiva, que assegura o valor extraordinário e permanente dele e da sua poesia, é não dar a impressão de passadismo. (…) Seu livro é de hoje, de ontem e de amanhã. Não tem valor episódico. Vale pela força intensíssima do lirismo de você, pela originalidade dele dentro do assunto mais batido. É a melhor vitória dele e de você: livro que ficará entre os melhores do lirismo brasileiro. (…) Outra coisa tecnicamente importante é a sua naturalidade de dicção, também perfeitamente espontânea. Você é simples sem afetação nenhuma nos melhores momentos seus. (…) Carlos, seu livro é admirável, admirável, uma coisa grande. Minha felicidade por ele é como se ele fosse meu.”

O que não exclui, sejamos justos com a história, uma recepção nem sempre muito amena. Disse Medeiros e Albuquerque, no Jornal do Comércio de 8 de junho de 1930: “O título diz ‘alguma poesia’; mas é inteiramente inexato: não há no volume nenhuma poesia… Se ele dissesse ‘alguma tipografia’, seria exato, porque se trata de um volume bonito, bem impresso. Mas oco… Não tem nada dentro.”

E também Andrade Queiroz, no Diário de Notícias de 27 de julho de 1930: “O sr. Carlos Drummond de Andrade reuniu no livro – Alguma poesia – a flor da sua lírica. O título está certo. O livro tem muita coisa que é poesia e muita outra que não é. Isso já é um regresso. Os modernistas, no conceito geral, são insensatos desde os títulos. Mas o sr. Drummond de Andrade tem outras fraquezas por onde se lhe pegue.”

Há muita coisa envolvida nessa incompreensão (longe de ser exclusividade desse livro, dessa obra de arte, tu sabe disso), mas não cabe ficar aqui explicando. Só quero chamar a atenção sobre um desses fatores, que a meu ver é o principal: a linguagem. O vocabulário, as regências verbais, o verso meio que prosa que não é prosa, aquele ressentimento de mãozinhas dadas com a ironia. Que coisa mais atual! Que coisa mais inteligente! Que coisa mais brasileira!

(Ser atual, inteligente e brasileiro: o contrário do terraplanismo.)

Alguma poesia é Drummond falando para o futuro: os leitores do futuro, o Brasil (ui!) do futuro, a poesia do futuro, o vasto mundo da vasta obra que ele começava a pôr de pé.

Todo livro de estreia tem algo de certidão de nascimento, de carteira de identidade. É uma tese não muito original que eu tenho. Aliás, o primeiro verbo do primeiro verso do primeiro poema desse primeiro livro é, justamente, “nascer” (mas, claro, está num poema daqueles). E outra: numa obra acabada, como é o caso da de Drummond (1902-1987), o livro de estreia também tem algo de porta de entrada.

Fica o convite pra abri-la. Tem um monte de conhecidos pra reencontrar (oi, sumido), mas tem uma turma que tu vai ver pela primeira vez. E nem precisa de máscara e álcool gel pra entrar e interagir.

Ah, de repente leva um bolo, que o guri dono da casa tá de aniversário.

P.S.: Há edição recente de Alguma poesia, além da Nova reunião, com 23 livros de Drummond, tudo editado pela Companhia das Letras. Os trechos das cartas estão em A lição do amigo, no qual Drummond organizou e comentou as cartas que recebeu de Mário de Andrade, também disponível em edição recente da Companhia das Letras. As críticas ao livro foram tiradas de Alguma poesia – O livro em seu tempo, organizado por Eucanaã Ferraz e editado pelo Instituto Moreira Salles em 2010.


Diego Grando é poeta (autor de Spoilers, Prêmio Açorianos de 2018) e professor do Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS, na área de Escrita Criativa. Faz parte do time fixo do Sarau Elétrico.

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