Arthur de Faria, Ensaio

Lupi: O Menino Preto da Ilhota (1914 -1932)

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Lupi: O Menino Preto da Ilhota (1914 -1932)
Quarto entre espantosos 21 irmãos[1], o menino nasceu sob o signo de virgem, às nove e meia da noite de 16 de setembro de 1914. Era uma quarta-feira, e o endereço onde veio ao mundo era Travessa Batista, 79, bairro da Ilhota, Porto Alegre. O nome, Lupycinio (com y), fora ideia do pai, Francisco Rodrigues[2], para homenagear um heróico general da Primeira Guerra Mundial – Guerra esta que também nascera há pouco.  Isso é o resumo de que dizem as biografias de Lupicínio Oliveira Rodrigues[3].  Pois é.  Estamos no primeiro parágrafo e já começam as mistificações e auto-mistificações tão ao gosto do nosso biografado. Ele dedicou-se com afinco a fantasiar e burilar o personagem que criou. E tanto funcionou que, por exemplo, ninguém se deu ao trabalho de conferir que não há nenhum registro de algum Lupiscínio herói – e já famoso! – numa guerra que começara dia 28 de julho de 1914, apenas um mês e meio antes do seu nascimento. (Há, sim, um general Lupicínio na história, mas era romano e atuou na Trácia, no século IV. Já no século V, viveu, onde hoje é a França, o monge-peregrino Lupicin, que fundou um mosteiro e acabou canonizado como Saint Lupicin.) Por aí vá o amigo acostumando-se às dúvidas que chovem com relação ao que é verdade e o que é lenda na vida de Lupi – apelido que o acompanhou ao longo dos anos. Dúvidas que chovem. Dizem que chovia torrencialmente no dia em que o menino veio ao mundo. Coincidência ou fantasia retroativa. Afinal, também choveria muito no dia de sua morte, 60 anos depois. Só que não é verdade: o maior pesquisador sobre a vida e obra de Lupicínio, o jornalista Marcello Campos, fez uma coisa simples: conferiu os jornais porto-alegrenses do dia. Tanto no Correio do Povo quanto n´A Federação de 16 de setembro de 1914 a notícia é céu limpo, com temperaturas entre 14´7 e 34 graus. Na manhã seguinte ao parto, aí sim: um tufão de pequeno porte passou por Porto Alegre, causando uma série de estragos. Ora, parece justo adiantar um dia nesse toró em troca de ganhar um fascinante paralelismo de tempestades no dia do seu nascimento e no dia de sua morte. Mas esse tipo de ajuste é o que mais encontraremos.  O que vale é o registro de nascimento. Que diz: Aos dezessete dias do mês de setembro do anno de mil novecentos e quatorze nesta cidade de Porto Alegre e cartório de registro civil de nascimentos e óbitos, compareceu Francisco Rodrigues, pardo, natural deste Estado, operário, casado civilmente nesta Capital com Abegail Rodrigues, parda, também deste Estado, de serviços domésticos e declarou: que sua esposa deu à luz uma creança de cor parda de sexo masculino filho legítimo que se chama LUPYCINIO, nascido hontem as vinte e uma e trinta horas no prédio à rua Lobo da Costa, numero cento quarenta e cinco, segundo distrito municipal onde residem os páes. Avós paternos elle ignorado e ella Caetana Leonor […]

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